ACERVO VIRTUAL HUBERTO ROHDEN & PIETRO UBALDI

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Palestras de Huberto Rohden em áudio com transcrições (Cursos de 1977 a 1980)

Comentário(s)

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Palestras Huberto Rohden (Série Matemática de Einstein)

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TRANSCRIÇÃO DA AULA 1 - O Homem esse desconhecido

Curso 78
Aula 01 – data 14/03/78
O Homem esse desconhecido
Huberto Rohden

Autoconhecimento – desde os tempos antiqüíssimos da China, da Índia, do Japão – países cultos da Ásia – não se escrevia sobre outra coisa das filosofias antigas, senão: que é o homem? Que sou eu? Será que eu me conheço? Será que eu sei quem eu sou? Isto chama autoconhecimento.

Tempo dos Vedas 5000 anos antes de Cristo, na Índia – a mais profunda filosofia foi escrita sobre autoconhecimento - que é o homem. Não a sua periferia, mas o seu centro – juntamente com a sua periferia. O homem não é só o seu invólucro, a sua embalagem - também o seu centro. Depois a filosofia passou da Ásia para o Egito,  para o norte da África, para a Alexandria. E Alexandria se tornou o novo centro de autoconhecimento. Lá viviam os grandes pensadores, (antes da Grécia) - em Alexandria, os grandes gênios onde também foi traduzido todo o Antigo Testamento hebraico para o grego. 300 anos antes de Cristo. 70 intérpretes eruditos passaram para o grego (ninho cultural daquele tempo) todo o Antigo Testamento hebraico. A Septuaginta.


Da Alexandria, África, o movimento passou para Atenas capital da Grécia. E na Grécia começou outra vez o grande movimento do conhecimento, sobretudo desde Sócrates. Continuou na Grécia – tempo de Sócrates – quatro séculos antes de Cristo. O movimento autoconhecimento é o centro de toda a filosofia da Ásia da África e da Europa. Índia... China, Japão, Egito, Grécia - todos os centros filosóficos tratavam de saber o que é o homem. Mandaram gravar no maior santuário de iniciação da Grécia, em Delfos, na fachada do santuário, duas palavras mágicas em grego: gnôth seautón. Em grego são só 2 palavras. Nós temos mais: Conhece-te a ti mesmo. Estava gravado no frontispício do santuário de iniciação – quer dizer em todos os tempos a filosofia teve como centro o homem, esse desconhecido, como diz Alex Carrel. O homem, esse desconhecido ou o homem, esse fenômeno paradoxal - como diz Teilhard de Chardin, ou o homem esse misto de grandezas e de misérias - como diz Pascal. Todos giram em torno do homem e querem saber o que é que ele é.


E até hoje há um grande ponto de interrogação. Pelo menos há 7000 anos estamos fazendo a pergunta que sou eu. O que é o homem. E até agora o autor tem que escrever, o homem esse desconhecido, o homem esse paradoxo, o homem essa miscelânea de miséria e de grandeza. Por quê? Porque é muito difícil saber o que nós somos. É muito fácil saber o que é um átomo, mas é muito difícil saber o que é o homem. Por quê? Porque a inteligência pode analisar as coisas e depois ele sabe o que é. Mas pela inteligência nós não podemos analisar o homem. A psicologia faz análise sobre o homem, mas isto não é autoconhecimento. Análise do nosso invólucro físico, do nosso invólucro mental e do nosso invólucro emocional que é psicologia não é o que nós queremos. Nós queremos saber mais do que nossa embalagem corpórea, mental e emocional. Tudo isto é embalagem. São camadas externas do nosso ser. Mas, não é ainda o centro e o cerne do nosso verdadeiro ser. Então, como é que vamos descobrir o nosso centro e cerne, a nossa quintessência, a nossa realidade invisível?


Não é possível por meio de análises. Por meio de análises nós só chegamos a descobrir o que é o corpo, o que é a mente, e o que são as nossas emoções. Psicologia não vai além disto. Nenhuma psicologia vai além disto. Nenhuma análise filosófica e científica vai além das periferias do homem. Não nos interessa as periferias agora. Nós queremos saber o seu centro. E isto nós não podemos saber só por análise. Análise é necessária, mas não é suficiente. A análise tem que preceder e depois tem que vir outra coisa.


Na célebre frase de Einstein “do mundo dos fatos não conduz nenhum caminho ao mundo dos valores porque os valores vêm de outra região” sintetiza em poucas palavras todo o nosso problema. Einstein diz que o mundo dos fatos pode ser analisado. O nosso corpo é um fato, a nossa mente é um fato, as nossas emoções são fatos. Podem ser analisados. Mas ele diz que do mundo dos fatos (objeto da ciência) não conduz nenhum caminho para o mundo dos valores. O nosso centro ele sempre chama valor. As nossas periferias ele chama fatos. Fatos são analisáveis. Fatos corpóreos, fatos mentais e fatos emocionais são objetos da filosofia e da psicologia, mas o valor, o centro, o cerne do nosso ser, isto não se pode analisar; porque do mundo dos fatos não conduz nenhum caminho para o mundo dos valores...- para desesperar! Porque nós gostaríamos tanto que do mundo dos fatos analisáveis conduzisse algum caminho, pelo menos uma picada ou uma senda estreita – mas ele diz que não conduz nenhum caminho, nem largo nem estreito. Da análise não conduz nenhum caminho para o nosso interior.

E mais tarde ele chama esses valores - a intuição. Da análise não há nenhum caminho para a intuição. Agora nós estamos jogando com duas palavras misteriosas. Análise e intuição. Muitos sabem o que é análise, a gente analisa a coisa corporal, a gente analisa a mente e até a psique.  Os livros estão cheios de análises. Escrevem livros maravilhosos sobre análise física, análise mental, e análise emocional. Muito bem! Agora vem uma outra coisa que não é análise. Da análise não conduz nenhum caminho para a intuição.

Todo mundo usa a palavra intuição, mas em outro sentido. No povo comum intuição quer dizer pressentimento: eu tive a intuição de que fulano ia morrer e ele morreu mesmo. Eu tive a intuição de que ia acontecer isso e não aconteceu. Falhou a intuição. Isso não é intuição. Isso é pressentimento. Pressentimento é do nosso ego. A intuição nada tem que ver com o nosso ego. Pressentimentos são do nosso ego físico, do nosso ego mental, do nosso ego emocional, mas quando nós usamos a palavra intuição falamos uma coisa completamente diferente.

Nós não podemos fabricar nenhuma espécie de intuição verdadeira porque do mundo dos fatos não conduz nenhum caminho para o mundo dos valores. E os valores são intuição. Mas o que é então o valor, o que é a intuição? Para os nossos sentidos não é nada. Para a nossa mente não é nada. Para as nossas emoções não são nada. E como é que nós podemos chegar até a zona da intuição, até a zona dos valores de que Einstein fala constantemente. Nós não podemos lá chegar. Não podemos. Desanimam desde a primeira vez. Ninguém pensa que alguém um dia se possa tornar intuitivo. Tira toda esperança. Desde já. Não pense tal coisa. Então poderíamos fazer ponto final aqui.  Mas não vamos fazer ponto final, porque diz Einstein, os valores vêm de outra região, vêm...- nós não podemos descobri-los, mas eles vêm.

Vejam que palavras felizes ele usou. Nós podemos fabricar análise. Toda espécie de análise a nossa mente fabrica a torto e a direito. Análise física, análise mental, análise emocional. Ninguém pode fabricar uma intuição. Porque esses vêm de outra região. De outra região... Qual é a região donde vêm os valores com a intuição? Ele não diz. Diretamente Einstein não diz. Mas em muitos artigos dele que eu tenho lá, ele dá uma pista para descobrir donde é que vêm os valores. Nós não podemos fabricar valores. Cuidado com essa filosofia existencialista que quer fabricar valores!

A filosofia existencialista diz: bem, valores não existem. Valores são uma construção mental. Quase toda filosofia moderna pende para esse lado que valores não são coisas reais. É uma abstração. É uma ficção da nossa mente ou como dizem, é uma construção mental. Lá vem o maior dos cientistas modernos - Einstein diz, não os valores existem e nós não fazemos os valores, mas estão em outra região. Não estão na região do nosso ego, da nossa análise física, da nossa análise mental, da nossa análise emocional. Lá não estão os valores, mas ele diz que estão em outra região porque se eles vêm de outra região, então eles estão lá. Logo, valor é uma coisa objetiva. Valor não é uma fantasia. Valor não é uma ficção. Não é uma construção mental.


Vocês vão ver isto nos livros. Ah! Isto é uma construção mental, não tem nada de realidade, é uma fantasia. Não é verdade, os maiores cientistas admitem que os valores existem independentemente de nós e que podem ser canalizados para dentro de nós, mas já existem antes de serem canalizados. A nós nos compete canalizar. Isto nós não podemos. Nós não podemos canalizar nenhum valor para dentro de nós, mas os valores podem canalizar-se por si mesmos para dentro de nós. Agora estamos diante desse mistério. Nós estamos diante de dois mundos. O mundo constatável, verificável e analisável dos nossos sentidos físicos, da nossa inteligência mental e das nossas emoções típicas. Isto nós podemos fazer. Nós somos donos disto. Fazemos e desfazemos tudo isto. Fazemos e desfazemos análises. Ninguém pode fazer e desfazer valores.

E estamos diante desse mistério: como é que podemos saber da realidade de valores, se os valores estão em outra região, se eles vêm de outra região. E quando é que eles vêm? Quando um valor vem a nós, então nós chamamos isto, intuição. Palavra misteriosa. Quando um valor vem a nós, não quando nós fabricamos valor, isto é impossível. Quando um valor já existe, uma realidade invisível chega ao nosso consciente humano, quando ele é canalizado pela nossa consciência. Não pela inteligência, mas pela consciência. Não pela ciência, mas pela consciência. Não pelos sentidos, nem pela inteligência, nem pelas emoções, ninguém pode canalizar valores intuitivos para dentro de si.

Mas todos afirmam hoje em dia que existem valores e que podem canalizar-se, podem invadir-nos. Nós não podemos invadir os valores, mas os valores nos podem invadir. Nós não podemos fabricar estes valores, mas os valores já existem e podem ser canalizados para dentro de nós. Isso chama intuição. Coisa misteriosa!

No século passado (século XIX) quase todos os grandes cientistas da Europa e dos Estados Unidos só tratavam de análise. O que não se podia analisar não era certo. Hoje em dia mudou completamente. Quase desde a 1a guerra e, sobretudo depois da 2a guerra mundial a coisa mudou completamente. Hoje os maiores cientistas do mundo - Einstein, na frente - falam abertamente em valores. No século passado não se podia fazer isto!  Ai dos cientistas que falassem em valores! Bobagem, isto é infantilismo. Isto não existe, não existem valores, são fabricações nossa.

No século passado era assim. Não se podia falar em coisas que não fossem fatos. A ciência era feita de fatos. Fatos físicos, fatos mentais e fatos emocionais. Agora a coisa mudou. Uns 50 anos atrás começou a mudar. Os cientistas falam abertamente em valores que estão além de todos os fatos. E falam em intuição que é um modo de estabelecer um contato entre os valores e nós. E falam em consciência. Quem é que no século passado podia falar em consciência, isto é atraso. Consciência é das igrejas. Aqui nós não tratamos de consciência, diziam os cientistas, nós tratamos de ciência. A ciência trata de fatos. A consciência trata de valores.Os cientistas não tinham a coragem de mencionar palavras como consciência, como valores, porque tudo isto era tabu. Isto não se pode usar na academia, nem na universidade. Isto pode usar na igreja, nos conventos.

Hoje em dia a coisa mudou. Os maiores cientistas falam abertamente em valores, além de todos os fatos. Falam em intuição, além de toda a análise, que é uma coisa de alta novidade. E o homem mais corajoso que fala em valores e intuição era Einstein – pai da era atômica, que não era um homem de igreja. Nunca pertenceu a nenhuma igreja. Nem à igreja cristã nem à igreja judaica. Embora ele fosse de origem judaica ele nunca freqüentou a sinagoga. Mas era um homem profundamente religioso. Ele afirma categoricamente: eu sou um homem profundamente religioso, mas não tenho nenhuma religião. Porque ter uma religião é ter um certo credo. Ter uma certa teologia, cristã, pagã, judaica, mulçumana ou outra, isto é uma religião.

Einstein dizia: eu não tenho nenhuma religião. Eu não pertenço a nenhum partido eclesiástico, não pertenço nem ao partido da sinagoga. Eu simplesmente sou um homem religioso. Ele insiste: ele é religioso, não de religião, mas ele é religioso de outro modo. O que é que ele entende por religiosidade? Esta a intuição é que ele chama de religiosidade. Quando alguém chega, a saber, pela consciência que além de todos os fatos há valores grandiosos no universo e que esses valores são reais e que esses valores podem ser canalizados para dentro de nós, de certo modo, que vamos dizer aí depois; isto ele chama religiosidade. A religiosidade não trata de nenhum fato. As religiões são fatos. Igrejas são fatos. Seitas são fatos. A religiosidade não trata disto. A religiosidade trata da canalização de valores pela nossa consciência. Podemos canalizar os valores transcendentais para dentro de nós através de nossa consciência. Isto Einstein chama ser religioso".

E desde que Einstein escreveu isto pela 1a vez, (ele escreveu isto em 1939 - na universidade de Princeton. Eu estive lá com ele 45 até 46, mas antes ele já tinha escrito isto) em seu livro: “Mein Weltbild” (O mundo como eu vejo) e depois no último livro “Aus meinen spaeten Jahren” (Dos meus últimos anos). E depois que Einstein escreveu que ele não tinha nenhuma religião, mas que ele era um homem profundamente religioso e que não tratava só de análises cientificas, mas tratava também de intuição cósmica, todo o mundo criou coragem. E quando um gigante sai à frente todos os pigmeus seguem atrás. Mas quando nenhum gigante vai à frente ninguém tem coragem de ir à frente.

‘Não, não, não, não vamos falar em valores, vamos falar em religiosidade. Não vamos falar nessas coisas transcendentais, porque isso desacredita nossa ciência’. Os cientistas tinham medo de empalidecer a sua auréola científica, ou fazer cair por terra a sua auréola científica se falassem em coisas transcendentais, em coisas metafísicas, em coisas religiosas, em valores que ninguém pode ver. Nunca ninguém viu um valor. Vocês não podem ver um valor. Vocês podem ter consciência de um valor, mas vocês não podem ver, nem ouvir, nem tanger nenhum valor.

Quer dizer, tratando de valores já falamos de uma realidade transcendental. Não de uma fantasia, mas de uma realidade - mais real que os próprios fatos. Quando Einstein deu este passo gigantesco, os outros que sabiam disto, pouco a pouco criaram coragem também. E disseram: “Einstein tem razão. Vamos também ter coragem e dizer que existem valores e que a gente pode entrar em contato com o mundo transcendental, e tudo isto”.

Então uma série de grandes cientistas - hoje conhecidos no mundo inteiro falam abertamente numa coisa que a gente pode incluir, mas não pode analisar. Outrora só se analisava. Quando não se podia analisar uma coisa, então os cientistas diziam: ‘isto não é certo’. Depois Einstein chega a dizer ‘aquilo que não se pode analisar, mas intuir, isso é mais certo do que qualquer outra coisa’. Que desafio! Aquilo que se pode intuir sem poder analisar, isto é absolutamente certo. O que se pode apenas analisar é mais ou menos certo, mas, não absolutamente.

Einstein dá infinitamente mais valor à certeza intuitiva do que a toda análise cientifica. Veja que mudança, desde os últimos 50 anos! A humanidade enveredou por um outro caminho. Ela não despreza mais a análise. Continua a analisar em todos os laboratórios e universidades. Faz muito bem! Mas, não acredita mais que não exista nada fora das coisas que se possam analisar. Hoje em dia precisam saber uma coisa que não se pode conhecer, nem crer. As igrejas mandam crer. Todas as igrejas mandam crer em valores. Deus é um valor. Imortalidade é um valor. Minha alma é um valor.

As igrejas mandam crer porque as igrejas tratam das massas e da massa não se pode esperar nada senão crença. Vocês não podem esperar de uma grande massa de homens que saiam das crendices, e que conheçam por ciência de algo mais avançado. Mas, a maior parte se contenta com crer. Crer é um ato de boa fé. Fazem bem! Nós não censuramos os crentes. Achamos que eles têm razão e na zona em que eles estão não se pode fazer coisa melhor do que crer. Os cientistas muitas vezes desprezam os crentes, os que têm fé. Dizem ‘isto é infantilismo, isto é puerilidade, nós os cientistas, não cremos, nós conhecemos, nós analisamos’.  

Depois vêm alguns que estão além dos crentes, além dos cientistas. Como é que vamos chamar essa 3a classe? Os sapientes, os que sabem não pelos olhos, não pelos ouvidos, não pelo tato, nem pela análise, mas que sabem pela intuição. Quer dizer, a classe mais avançada é os sapientes que têm experiência imediata, certa e absolutamente certa de valores transcendentais.  Isso hoje em dia está prevalecendo no mundo civilizado. Dizem que o mundo está ficando de mal a pior, isto em parte é verdade, mas não nos esqueçamos de que o mundo não é somente massa. O mundo também é a elite. A massa é quantidade e sempre vai prevalecer nesta humanidade. Pelo menos 90% é pura quantidade, não é qualidade. Isso é massa. Nós não podemos esperar das massas que avancem um passo tão grande rumo à elite, mas a elite está tornando cada vez maior, apesar da decadência das massas.

Parece que hoje está acontecendo isso: por um lado o homem se materializa cada vez mais. Por outro lado se espiritualiza. As massas se materializam cada vez mais. A elite se espiritualiza cada vez mais. Eu chamo  espiritualizar, aquele que tem intuição de valores. Isso eu chamo espiritualidade, não em outro sentido – teológico, não. Einstein insiste: “religiosidade é ter experiência direta, intuitiva de valores transcendentais”. Ele diz que esta nossa vida não vale pelos fatos, vale somente pelos valores. Os fatos são necessários para a vida diária porque não podemos viver sem fatos, mas isto não valoriza o homem. O homem não se torna melhor porque descobriu fatos, mas ele só se torna melhor porque abriu a consciência aos valores.

Parte II


De maneira que neste ano nós vamos tratar principalmente da intuição. Saber exatamente o que nós entendemos por intuição. Uma espécie de invasão da alma do universo para dentro de nós. Esta expressão “Alma do universo” é de Spinoza, o grande filósofo do início do século XVII. Ele diz que Deus é a alma do universo. O que Spinoza chama Deus ou a alma do universo é o que Einstein chama valores e que chama grandiosidade.

Então, nós temos a impressão que a intuição é uma graça de Deus. Que é um dom especial dado a alguns privilegiados de Deus e que os outros não têm nada que ver com intuição. Isso não é verdade. A intuição faz parte essencial da natureza humana. Uma consolação para muitos. Julgavam que havia uma classe privilegiada que podia ter intuição verdadeira. Dizemos... Não, a intuição faz parte da própria natureza humana. Todo homem é potencialmente intuitivo. Atualmente poucos são. Potencialmente todos são.

Quer dizer, em gérmen todos são intuitivos. Como planta poucos são intuitivos porque não cresceram. Um gérmen, qualquer grãozinho, não é uma planta. E depois é uma planta. O mesmo gérmen se transforma uma planta. Se ele não fosse planta antes de se transformar ele não podia transformar-se porque ninguém se torna o que não é. Se gérmen não fosse potencialmente uma planta ele nunca podia transformar-se numa planta. É claro! É lógico! É matematicamente certo.

Mas como uma semente qualquer, viva naturalmente, já é potencialmente uma planta, por isso se ele encontra ambiente favorável, na terra e na luz solar, então o gérmen brota, germina, cria raízes e floresce e depois está lá uma planta. Isto nós chamamos a presença potencial da planta. A planta está potencialmente presente na semente. E depois ele está atualmente presente na planta. Mas a presença potencial é uma presença real.

Deste modo a intuição está potencialmente presente em todo e qualquer ser humano normal. Estamos falando naturalmente de seres humanos normais. E por que quase ninguém tem intuição real? Porque não desenvolvemos o nosso gérmen. Não plantamos o gérmen em terreno fértil com bastante calor solar e bastante umidade terrestre. Porque um gérmen só brota com duas coisas. Umidade da terra e calor solar. Se é só umidade ele apodrece. Se é só calor ele resseca. Não brota.Mas, se ele tem umidade terrestre e calor solar ao mesmo tempo, em breve ele vai brotar. Vai dar planta.

Quer dizer, se a nossa intuição está em forma de gérmen e não desabrochou é porque nos faltam circunstâncias. E que circunstâncias são estas? Não são circunstâncias de fora. Não são circunstâncias de tempo e espaço. São circunstâncias da nossa própria substância. O nosso centro se chama substãncia. As nossas periferias são circunstâncias. A nossa intuição não vem das periferias. Vem de dentro do nosso próprio centro.

Eu fiz aqui um gráfico. Aqui está um centro (fig. 01) com uma periferia, mas sem contato. 



Figura 1
Figura 2

Aqui há um centro, mas sem contato (fig. 1). E há uma periferia, mas não tem contato. Isto é mais ou menos a intuição no gérmen. E a maior parte passa assim a vida inteira. Não desenvolve. 


Aqui tem a mesma coisa, mas de outro modo (Fig 2). Tem o centro e tem a periferia, mas tem uma ligação entre o centro e a periferia. E agora não há mais duas coisas. Há um desenvolvimento de uma potencialidade. Aqui há uma potencialidade não desenvolvida (fig. 01). Aqui há uma potencialidade desenvolvida (fig. 02). Podíamos chamar isso: uno e verso→ Universo. O uno é o nosso centro. O verso é a nossa periferia.


Agora, muitos passam a vida inteira só no verso. Verso...- verso...- periferia - no ego. O verso nós chamamos geralmente o nosso ego físico, mental e emocional. Verso é particípio passado de verter. Verter é derramar, esparramar. Verso é vertido. Universo é o uno que se verteu, e se derramou para fora. O uno no centro se derramou para fora. Aqui não há nenhum derramamento (fig. 01). Aqui há (fig. 02). O uno se expandiu e invadiu todas as periferias. Quer dizer, o movimento não pode vir da periferia. O movimento tem que vir do centro. Isto é o que Einstein quer dizer “do mundo dos fatos (periferia) não há nenhum caminho para o mundo dos valores (centro) mas há o contrário – do mundo dos valores há um caminho para o mundo dos fatos”. Isto é possível, porque os valores são muito maiores que os fatos. Vocês podem derivar os fatos dos valores, mas vocês não podem derivar os valores dos fatos. Isto é contra toda a lógica.


Se vocês têm 100 vocês podem tirar 10. Isto é derivar o menor do maior. Mas se vocês só têm 10 e querem derivar 100 do 10, eu quero ver quando é que vocês vão fazer isto. Nunca ninguém fez. O 100 não está contido no 10, mas o 10 está contido no 100. Eu chamo agora o 10 – a periferia – e o 100 seria o centro. Nós não podemos derivar o centro da periferia, mas podemos derivar a periferia do centro. Do mundo dos fatos periféricos não há nenhum caminho que conduza para o mundo central – disse Einstein – porque os valores vêm de outra região. Os valores não vêm dos fatos.

De que região vem os valores? Dizem os bons escritores e poetas que eles vêm do cosmos. Vêm da alma do universo. A alma do universo é que manda valores para dentro de nós através da nossa consciência. Isto é verdade, mas não no sentido em que eles dizem. Porque o universo nós temos dentro de nós. Eles entendem sempre o universo macrocosmo. As galáxias, os astros, os sóis, as vias lácteas, as nebulosas do espaço. Não, isso não chamamos universo. O universo está dentro de cada um de nós. Nós somos cósmicos por dentro; no centro nós somos cósmicos. Dentro do nosso centro estão todas as forças do cosmos.

Quando nós dizemos que as forças cósmicas nos invadem pela intuição, nós somos invadidos pelas forças cósmicas através da consciência intuitiva, nós sempre pensamos num grande além de fora. Não se sabe a que distância vai o universo. A bilhões e bilhões de anos luz. Vamos mudar um pouco a nossa percepção e não chamar a fonte dos valores, o grande além de fora. Vamos chamar a fonte dos valores, o grande além de dentro. Agora ficou misterioso! Além de dentro. Provavelmente não devia dizer além, devia dizer aquém. O nosso além de dentro (que é o nosso centro) é tão terrivelmente aquém que até parece estar além. E este é o nosso problema de cada dia.

A meditação é tudo isto. Nós dizemos: ponha-se num relax completo e esvazie-se de todos os pensamentos, emoções, etc... e vai ser invadido pelas forças cósmicas do além. O homem que está lá sentado para fazer meditação logo pensa: agora eu vou ser invadido de cima para baixo. Do além para o aquém. E não acontece nada. Se ele se convencesse que esse além não está na via Láctea. Esse além não está em Júpiter, não está no sol, não está em nenhuma estrela. Este além está dentro do meu centro. Mas é difícil compreender que o além, o elemento cósmico, portanto, possa estar dentro de nós. Ele é tão dentro e por isso é que nós não o descobrimos. Se fosse menos dentro nós íamos descobrir. Mas, como está perto demais a gente não pode ver. Tudo que está perto demais não se vê; só o que está sempre distante a gente pode ver. Mas sempre temos a projeção centrífuga quando a projeção é centrípeta.

Então, a intuição nunca vem do macrocosmo sideral. A intuição vem do microcosmo hominal. Vocês estão ouvindo, mas isto são palavras - vão dizer - mas não se pode compreender. Repito que a nossa intuição vem das regiões cósmicas, vem das regiões fora dos fatos, porque o nosso ego só conhece fatos, mas o nosso Eu conhece um grande além de dentro, que não é um fato, mas é um valor. Não é uma facticidade, mas é uma realidade.

Quando então alguém consegue centralizar-se, interiorizar-se, focalizar-se a tal ponto que ele não esteja mais nem um pouquinho fora, mas totalmente dentro, no centro, então ele pode ser invadido pelos valores da intuição. Quer dizer, é uma questão de centralidade. É uma questão de focalização, mas, quem é que chega a ser tão focalizado? Durante toda a sua vida nós somos dispersivos. Nós vivemos na exterioridade. Nós vivemos nas periferias. Nas periferias materiais que são as mais distantes. Mas também temos periferias mentais, são pouco mais perto. E temos periferias emocionais... - também são periferias. E quem disse que nós vamos ultrapassar rumo ao aquém o nosso centrifuguismo material, o nosso centrifuguismo mental, o nosso centrifuguismo emocional? Será que nós vamos chegar um dia a derrotar todo os centrifuguismos e entrar em puro centripetismo? Se conseguíssemos centralizarmos em nossa realidade interna nós saberíamos de coisas de que agora nada sabemos. Porque íamos ser invadidos pela alma do universo.

A alma do universo não está lá nas nuvens. A alma do universo está dentro de nós, porque nós somos concêntricos com o universo. O nosso centro e o do universo são um só. Não o centro local, mas um centro de consciência. Nós somos egoconscientes. Se nos tornássemos cosmoconscientes nós já seriamos intuitivos. Aquela parte centrada (fig) é cosmoconsciência. A consciência cósmica, não nossa, a consciência cósmica do universo. E aquele gomo branco é a nossa pequenina egoconsciência. Geralmente a nossa egoconsciência não é tão grande como aqui parece. Aqui é muito grande em comparação com o todo... - porque o todo é infinitamente grande. Eu não posso fazer um todo infinitamente grande, não cabe. Então eu faço um pequeno gomo como egoconsciência e faço uma grande roda como cosmoconsciência.

Quando nós somos invadidos pela cosmoconsciência que parece estar fora de nós, e não é verdade - está dentro de nós mesmos, então nós chegamos a saber de coisas de que nenhuma análise nos pode dar notícias. Nós não podemos analisar esta consciência cósmica, mas nós podemos despertar em nós a consciência cósmica, porque não é verdade que ela esteja fora de nós. Dentro de nós ela está, mas tão terrivelmente dentro, tão terrivelmente aquém e por isso nós não descobrimos. É uma questão de centralização, de concentração. Enquanto nós não estamos 100% focalizados, centralizados, concentrados na nossa realidade central, nós não somos invadidos pelas forças cósmicas.

Quer dizer, nós não temos intuição. Nós só sabemos o que nos dizem os sentidos, a mente e as emoções. Eles não dizem nada de grande. Tudo que nós sabemos pelos sentidos, pela mente e pelas emoções é coisa pequenina, é corriqueiro. Agora se nós soubéssemos algo da consciência cósmica, do universo que está dentro de cada um de nós, nós teríamos um conhecimento fabuloso, primeiro de nós mesmos. Eu sei o que eu sou. Eu sou o meu centro. O meu centro produziu as periferias, mas as periferias não produziram um centro porque os fatos não podem produzir os valores, mas o valor pode produzir os fatos.

Então nós teríamos um autoconhecimento perfeito de nós se conseguíssemos  centralizar-nos no nosso grande aquém de dentro, não além de fora. Mas, isto é um problema. Então dizem os orientais: quando o discípulo está pronto, o mestre aparece. A prontidão do discípulo consiste nessa centralização. Quando o discípulo não está centralizado no seu centro o mestre que é a consciência cósmica não vai aparecer, porque a consciência cósmica só pode invadir alguém que chegou até perto de seu centro. Aqui já estamos na pista daquilo que se podia chamar intuição.

Isto é um dom natural da natureza humana. Não é nenhuma graça. Não é nenhum privilégio que Deus dê a alguns e não a outros. Não, nós somos todos potencialmente intuitivos. Podemos despertar em nós na consciência cósmica, mas, isto exige certas condições que nós dificilmente realizamos. Porque o nosso ego é muito dispersivo, é muito periférico, é muito centrífugo e dificilmente aceita esta centralidade. Porque se o nosso ego se reduz a um foco ou uma centralidade ele diz que vai morrer. Diz que vai ser sufocado. Não pode viver no centro, só pode viver nas periferias. Por isso o nosso ego reluta constantemente contra esta centralidade. Ele tem razão. O ego não pode ser central, ele tem de ser periférico.

Então, não é matar o ego. É transcendê-lo. Se a gente conseguisse transcender, ultrapassar as barreiras centrífugas do ego e fosse para o indimensional do centro, então nós conheceríamos coisas que os sentidos não podem revelar. Nem os olhos, nem os ouvidos, nem o tato, nem sequer a inteligência, nem sequer nossas emoções, todas giram no mundo dos fatos. Fora dos fatos nós não sabemos nada praticamente. Uns poucos avançados sabem uma coisa fora dos fatos. Mas, não é nem 1% da humanidade. E quando alguém descobre o valor central, em primeiro momento ele fica com um ódio terrível das periferias. Não quer mais saber nada disto. Ele se centraliza num ponto, os místicos. E dizem: que bobagem, toda a minha vida eu andei derramado lá pelas periferias do ego. Acabou-se essa palhaçada. Vamos acabar com a palhaçada, eles dizem, despreza tudo que existe lá fora. Não quer mais negócio, não quer dinheiro, não quer família, não quer divertimentos, não quer nada... Quer só valor puro, que ele chama Deus. Então vamos concentrar-nos em Brahma, em Tao ou em outra divindade e ficar beatificando isolados num valor absoluto. Este é o místico.

Toda a verdadeira conversão do profano para o místico é deste jeito. O profano é essa periferia. O místico é o centro. E muitos não conseguem sair daí. A maior parte fica na periferia e não sabe nada do centro. Uns poucos entram no centro e não querem mais saber nada da periferia. Mas, se alguém é muito avançado, então ele faz isto aqui. Ele fica no centro e liga o seu centro de valor com todas as periferias dos fatos. Faz uma ligação de consciência. Então ele vive no valor central e ao mesmo tempo nos fatos periféricos. Isto é o máximo que o homem pode conseguir neste mundo. Neste e outros mundos também.

Esta consciência nós chamamos a consciência cósmica. É uma palavra muito bonita é claro, mas, não há um entre milhões que tenha consciência cósmica. Que tenha a nítida consciência do valor central e ao mesmo tempo possa pôr o seu valor central em contato com todas as suas periferias: as periferias da vida material, as periferias da vida mental, as periferias da vida emocional. É o máximo que alguém pode realizar.
Estão vendo que grande coisa nós temos diante de nós! Temos que construir uma torre muito alta, mas por enquanto não podemos pensar na vertical. Vamos pensar por enquanto na horizontal. Vamos lançar uma base bastante larga. Estou lançando bases agora. Porque se eu construir uma torre muito elevada que não tenha alicerces, amanhã vai abaixo. Então temos que construir um alicerce muito largo, muita horizontalidade analítica para construir uma verticalidade intuitiva. Eu chamo agora análise horizontal e a intuição vertical. Nós não podemos construir facilmente uma torre vertical de intuição sobre uma base oca, muito estreita, muito fraca de análise. Estas duas coisas têm que ir junto. Precisamos por um lado, dos sentidos, da inteligência e emoções para construir a base. E acima disto construímos então a torre vertical da nossa intuição.




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TRANSCRIÇÃO DA AULA 7 - Essência e Existência

Curso Filosofia Univérsica
Huberto Rohden
Palestra 07
06/06/78


Estamos tratando da Filosofia Univérsica, não é Filosofia Universal. Na Filosofia Universal a gente pode provar, doutorar, tirar diploma – e muitos têm. Porque a Filosofia Universal é mais uma questão de memória, não de inteligência. Repetindo bem os conceitos de Platão, de Aristóteles, de Descartes, de Kant, de Bérgson e outros, a gente pode decorar mais ou menos os conceitos destes filósofos antigos e modernos. Repetindo bem o que eles disseram séculos atrás a gente pode tirar boas notas. Isto é Filosofia Universal e a gente pode doutorar-se.
Tudo isto é impossível na Filosofia Univérsica porque a Filosofia Univérsica não repete pensamentos alheios, não rumina, mas tem que mastigar por si mesmo. A Filosofia Universal é horizontal – a linha horizontal representa muito bem a Filosofia Universal que se ensina nos colégios, mas a Filosofia Univérsica é essencialmente vertical.
Então, na Filosofia Univérsica não se pode doutorar. Pode fazer 10 anos, 20 anos e ser sempre principiante e não finalizante; porque na vertical não há limite – na horizontal há limites. Na vertical, vai para o infinito. De maneira que a nossa filosofia somente começa, nunca termina. Vocês podem começar na Filosofia Univérsica, mas nunca poderão terminar.
Tem pessoas que está a 10 anos no curso, mas são todas principiantes. Há pessoas que estão 15 anos aqui. Algumas pessoas estão 20 e poucos anos aqui – quase desde o princípio. São todos principiantes, graças a Deus! E quem pensa que é finalizante está enganado. Na sabedoria nós somos todos principiantes. Na ciência podemos ser finalizantes. Na ciência que é horizontal, mas, na sapiência que é vertical nós somos eternos principiantes. Estamos sempre soletrando o ABC da sabedoria. Nunca podemos dizer agora sou formado em sabedoria, sou formado em Filosofia Univérsica – isto não é possível.
Nós na Filosofia Univérsica propriamente tratamos só de dois conceitos fundamentais, mas são mais importantes do que todo o resto que é horizontal. Já comecei com esses conceitos fundamentais: Essência e existência. É um problema único da Filosofia Univérsica: o Uno da Essência e o verso das existências. A própria palavra já diz – o Uno sempre é o infinito e o verso é os finitos. O Uno é absoluto e o verso é os relativos. O Uno é o eterno e o verso é os temporários. O Uno é o Ser e o verso é o existir.
Podemos dar muitos nomes a esses dois conceitos. Nós nada sabemos da Essência – nós só sabemos das existências. O que nós verificamos são coisas que existem, coisas existenciais, finitas, creaturas, derivados. Isto nós sabemos pelos 5 sentidos que todos têm, (como os animais também têm) e pela inteligência que é privilégio nosso (os animais não têm inteligência analítica) e a inteligência se aproveita do material fornecido pelos 5 sentidos e elabora este material. Os sentidos sempre são pluralistas – a inteligência é dualista. Que quer dizer isto? Os sentidos são pluralistas, eles enxergam, ouvem e tangem muitas coisas. A pluralidade é dos sentidos, mas a inteligência faz da pluralidade uma dualidade: causa e efeito.
Toda inteligência joga com dois conceitos: causa e efeito – mas, a inteligência não trata da causa prima; da causa absoluta - trata das causas derivadas.O que nós podemos verificar no mundo das existências não é a causa prima, a causa primeira; não é a Essência que seria a causa prima. São apenas as existências e nas existências a inteligência descobriu que há causa e efeitos. Mas, nós queremos ir além de todas a existências e entrar na Essência. Este é o nosso grande problema.
Ultimamente eu comecei a fazer símbolos destas duas coisas. Essência e existência. Fiz o primeiro símbolo:



                                               

Essência – uma cruz e dentro da cruz escrevi diversos círculos que são as existências. Isto é muito bom para ilustrar. E dizemos que a Essência está em todas as existências e todas as existências estão na Essência. Usamos também outros símbolos


                                          
Usamos a luz incolor como Essência passando por um prisma que se decompõe em cores várias – e nós enxergamos só 7.  Dizemos então que isto é um bom símbolo para a Essência incolor e para as existências multicores.
Podemos usar outros símbolos para concretizar estas duas coisas abstratas. Podemos usar como a matemática sempre usou, números que nos vieram da Índia – chamados arábicos. Vieram da Índia para o Egito e do Egito, até nós. Os números são hindus – dos Vedas. 5 000 anos antes de Cristo, já se usava na Índia os números que usamos hoje, chamados arábicos. Os gregos e romanos não tinham números, usavam letras. Vocês imaginem ter que fazer cálculos V, X, IX, XIII... Vocês não podem fazer nenhum cálculo com isto – dá confusão. Os gregos e latinos não tinham números – era muito difícil fazer cálculos. 
Felizmente o país da filosofia que sempre foi a Índia já introduziu os números no ocidente, usava como símbolos na filosofia. Usava o traço vertical (I) como infinito – usava o círculo como nós também como finito (O)este é o nosso zero - e colocando isto ao lado dá 10. Toda linha curva representa o finito – toda linha reta representa o infinito. Isto já nos veio do tempo dos Vedas, mas não era conhecido na Europa. Agora, isso (o número 1) representa muito bem o infinito. Vamos fazer a multiplicação:
1x 1 = 1
Mas, não deveria ser 2? Como é que multiplicando 1x1 não dá 2? Porque isto representa o infinito e infinito não se pode multiplicar.
Infinito x infinito = infinito
Quer dizer que a matemática é uma ótima explicação para a filosofia – porque o infinito é qualidade, não é quantidade. Os finitos são quantidades. Se vocês multiplicarem uma qualidade infinita por outra qualidade infinita dá sempre infinito.
Vamos ver outro exemplo para ver como a matemática nos ajuda muito na filosofia:
1: 1 = 1
Se vocês dividem uma qualidade infinita pela qualidade infinita vai sempre resultar uma qualidade infinita. Podemos muito bem usar o traço vertical como lá na Índia para símbolo do infinito. E o mesmo traço também pode significar o finito. Por exemplo:
1+1= 2
Quer dizer – perdeu o seu caráter de infinito. O mesmo sinal pode ser usado como símbolo do infinito-qualidade e pode ser usado como símbolo do infinito-quantidade. Usamos na adição o 1 como quantidade e não como qualidade.
Na subtração também usamos o mesmo sinal como quantidade:
1-1= 0
Agora muda tudo. É coisa misteriosa a matemática, não é? Por isso Einstein disse que a matemática é absolutamente certa enquanto ela fica no abstrato. Quando está no infinito está no abstrato – mas, quando entra no concreto ela perde a sua certeza na razão direta da sua concretização. São palavras textuais de Einstein.
Podemos usar estes sinais para existência:
1 existência + 1 existência = 2 existências 
1 existência – 1 existência = 0 existência

Mas, se eu fizer o mesmo com a Essência não pode mudar. Só a existência pode mudar. Quando se toma o sinal vertical como Essência, como qualidade, como infinito então fica imutável – não fica maior nem menor. Porque você não pode aumentar nem diminuir o infinito. O infinito é fora de tempo e espaço. O infinito não tem nada que ver com quantidade é pura qualidade.
Podemos usar outros símbolos para Essência e existência. Podemos usar simplesmente o ponto. Naturalmente não é este ponto que eu faço no quadro negro. Isto não é ponto. Isto não é nem superfície. Isto é um corpo. Um corpo tem 3 dimensões. Um plano tem 2 dimensões – e uma linha tem uma dimensão. Um ponto não tem nenhuma dimensão. Eu não posso desenhar no quadro negro um ponto indimensional (isto vocês podem imaginar), mas no momento em que eu ponho um giz no quadro já não é indimensional.
Isto tem 3 dimensões:  comprimento, largura e até espessura. Vocês podem imaginar um ponto energético, não um ponto material. Só se pode imaginar, mas não se pode pintar, nem com a tinta.
Imaginem agora isto:
·
Um ponto sem dimensão, um ponto qualitativo e não um ponto quantitativo.
Vocês devem imaginar que isto não tenha quantidade, e agora – isto pode significar a Essência. A Essência não tem quantidade, é pura qualidade absoluta e infinita. Isto é tão difícil entender... Porque a Essência, nós não podemos ver, não podemos ouvir, não podemos tanger. Nós não podemos nem sequer analisar a Essência. Nada disso é possível. Tudo que depende dos sentidos e da inteligência não vai até a Essência.
Bem, agora devem imaginar que isto seja 1 ponto indimensional. Façamos agora a primeira dimensão que é uma linha, segundo a geometria.


__________________________



Isto podia significar a existência. Podíamos tomar a linha como o aspecto de uma existência derivada da Essência. Vamos supor que o ponto tenha gerado, tenha produzido estas linhas que eu fiz aqui:



Podemos usar também o conhecido sinal da matemática: ∞. Infinito na matemática é uma espécie de 8 horizontal. Agora vamos desenhar os finitos outra vez em forma de traços.



Vamos dizer o infinito inferior – o mineral, muito primitivo – matéria finita, Hilosfera, na expressão de Teilhard de Chardin. Além da Hilosfera vamos entrar num finito um pouco maior, o finito vegetal, por exemplo. Um outro ainda maior, o finito animal.
Temos uma existência material, uma existência vegetal e uma existência animal. Essas duas, vegetal e animal, segundo Teilhard de Chardin é Biosfera porque tanto vegetal como animal pertencem à classificação de Vida. Vida é Deus.
Traçando outra linha temos a nossa zona, a Noosfera - a zona da inteligência. Aqui está o homem.
O infinito produziu o finito mineral, o finito vegetal, o finito animal e o finito hominal – noos. Mas, não chegou até o fim, tem que ir além, não acabou conosco, é apenas um estágio.
Quando a gente diz que nós viemos do infinito, ninguém compreende nada, mas está certo. Tudo veio do infinito: o finito mineral, o finito vegetal, o finito animal, o finito hominal. Tudo veio da mesma fonte. A fonte única é esta aqui (∞) - mas o homem veio através de vários finitos. São estágios de Existências.
Se alguém nos diz: o homem veio do mundo material, todo o mundo estranha.. O homem veio através do mundo material, o homem veio através do mundo vegetal? Está certo, mas ele não veio do vegetal. O homem veio através do animal, mas ele não veio do animal. Porque do significa causaatravés significa um canal. Do se refere à fonte. Através se refere ao encanamento.
Então podemos dizer o homem veio da fonte única de todos os seres, mas, não veio diretamente. Ao menos o corpo dele não veio diretamente. O corpo fluiu através do mundo material, através do mundo vegetal, do mundo animal, e agora estamos no mundo hominal, mas não é ainda o fim do nosso itinerário. Segundo Teilhard de Chardin ainda vem o próximo estágio que seria a Logosfera – quer dizer, a esfera da razão. Aqui apenas é inteligência.
Assim temos outra vez, Essência única com muitas existências – com diversos graus de perfeição... Material, vegetal, animal, hominal... e por aí afora.
 Agora, vou fazer um teste para ver se vocês compreenderam isto.
No catecismo ou na Escola Dominical nós aprendemos que... “No princípio Deus creou o céu e a terra” (assim começa o Gênesis). E nós aprendemos que crear quer dizer, fazer alguma coisa do nada. Isto não está no Gênesis, isto é explicação do catecismo. É verdade que crear é fazer uma coisa do nada? Está certo ou não?
- Do nada não, porque as existências são manifestações... responde alguém.
           Isto é algo, Essência, o todo. Se o todo, o infinito se manifesta em algo, isto para nós é creação. Então, uma creação, para nosso sentido filosófico seria uma manifestação do todo em forma de algo. Algo significa uma existência finita qualquer. Quando o todo infinito se manifesta em alguma existência finita, isto nós chamamos creação. Isto está certo filosoficamente, mas o que a teologia entende não é isto. Ao menos, no meu tempo, não; parece que estão evoluindo um pouco agora.
            Eles entendem que as creaturas foram feitas do nada. Que o creador fez as creaturas do nada. O todo fez as creaturas do nada da existência, mas, do todo da Essência. Toda e qualquer creatura é feita do nada da existência, mas, não do nada da Essência - porque a Essência não tem nada. Nada é pura imaginação.
            A teologia entende que do nada Deus fez algo, quer dizer, não somente do nada da existência como nós entendemos, mas, também do nada da Essência. Do nada da Essência nunca se pode fazer algo. Do todo da Essência se pode fazer algo, mas do nada da Essência não se pode fazer algo. Do nada da existência, sim, porque antes da creatura existir então era nada, mas, o todo da Essência produz as creaturas do nada da existência, mas do todo da Essência.
            Por que é que tivemos que aprender que todas as creaturas são feitas do nada tanto da Essência como da existência? Isto está lá na teologia.
            Nós achamos que as creaturas são feitas do todo da Essência e do nada da sua existência. A razão porque as teologias (pelo menos do meu tempo) não aceitam que as creaturas sejam feitas da Essência Divina não é uma razão filosófica, é uma razão pedagógica, moral, porque o professor me diz: se eu disser que uma pedra foi feita da Essência Divina, então esta pedra pode ser adorada como Deus. Cai na idolatria. Se eu digo que uma planta foi feita da Essência do infinito, então posso adorar esta planta porque esta planta é divina. Eu pratico idolatria. Se eu digo que o animal veio da Essência Divina, a Essência do infinito, então o animal pode ser adorado.
            Esta é a razão porque as teologias não aceitam que se digam que as creaturas foram feitas da própria Essência Divina: nós fomos feitos do nada e não do todo.
            E o homem – se o homem também é uma emanação da Essência Divina, quer dizer, uma manifestação da própria Essência Divina, então o homem pode dizer: Eu sou divino, eu não posso pecar, tudo que eu faço está certo. Então, ele acolhe a idéia de que ele não possa errar, porque a Essência não pode errar. Deus não pode errar, o infinito não pode errar. Deus não pode pecar, não pode fazer mal...
            Então dizem os teólogos – não vamos dizer que nós somos emanações, manifestações da Essência Divina – vamos dizer que nós fomos creados do nada. Esta é a razão pedagógica, moral das teologias, mas na Filosofia nós não tratamos de pedagogia, nós também não tratamos de moralidade. Aqui não há nenhum perigo que as creaturas sejam adoradas porque vieram da Essência Divina. Também não há perigo que qualquer pessoa humana se considere infalível ou impecável porque veio da emanação da Essência Divina. Não, porque o que é defeituoso, o que pode errar não é a Essência, mas a existência.

            Isto+ é a Essência, e isto 
               as existências.




            Se eu digo: o círculo foi creado pela cruz, a existência foi creada pela Essência, e se depois este círculo faz mal, quem faz mal não é a Essência, mas é a existência. O ser humano pode muito bem ser chamado uma emanação da Divindade. Cada um de nós é uma emanação (a palavra creação já foi tão deturpada) finita existencial da realidade, (da Essência infinita, da Divindade), mas se eu errar, se eu pecar, eu não peco em nome da Essência, eu peco em nome da minha existência. Eu sou responsável como creatura, mas eu não posso pecar como Essência. A minha Essência não peca. A minha existência peca. E a nossa Essência está sempre representada pelo nosso ego. A nossa Essência é o nosso Eu. O reflexo da Essência infinita é a minha Essência chamada Eu ou Algo.
            Por isso podemos dizer que não é a alma que peca, o Eu, mas, é o nosso ego, principalmente o nosso ego mental. Podemos dizer que todos os erros e todos os pecados que nós cometemos são ações do nosso ego mental, do nosso ego intelectual.
            De maneira que nós vamos continuar a dizer que todos os finitos foram creados pelo infinito – entendendo por isso creação – não uma produção do nada, mas, uma emanação do todo em forma de algo. As creaturas sempre são algo.
            Agora eu vou fazer um símbolo mais completo: vamos tomar outra vez a Essência como um ponto indimensional e três existências (como linhas) emanadas pela única Essência, mas, não há regresso.Agora vem uma existência que se volta para a Essência (novidade).



Que é isto? Como é que vamos chamar esta linha reversiva, uma linha que volta para a própria Essência donde partiu: consciência. Aqui teríamos uma creatura que tem consciência da sua origem. As outras creaturas (linhas) não têm consciência da sua origem e finalmente apareceu uma creatura que sabe:

“Eu vim do infinito, estou no finito e vou voltar para o infinito”.  Isto nós chamamos hoje em dia – auto-realização ou imortalização - este é o símbolo da imortalização. “Eu vim do imortal para o mortal, mas eu tenho em mim a possibilidade, a potencialidade de me tornar imortal”.

Eu sei que muitos pensam que nós somos automaticamente imortais – aconteça o que acontecer. Isto é contra toda a Filosofia. Nós somos potencialmente imortais. Nós somos imortalizáveis. Todos os Mestres afirmam que nós podemos fazer duas coisas: mortalizar-nos ou imortalizar-nos.
Vejam o Evangelho: “A tal ponto Deus amou o mundo que enviou seu filho unigênito para que todo aquele que tenha fé nele não pereça, mas, tenha a vida eterna”. Que é isso, perecer? Perecer é não se imortalizar. Bem, mas há certas sociedades espiritualistas que dizem: “não, isto não aceito – nós somos automaticamente imortais – para toda eternidade- imortais no céu ou imortais no inferno, de qualquer jeito”.
Isso é contra toda a Filosofia e contra a razão e até contra todos os Mestres espirituais, sobretudo do Evangelho. Os Mestres vieram para nos ensinar como nos imortalizar. Mas, se sou imortal de qualquer jeito, em cima ou embaixo, então eu não preciso imortalizar. Eu devia fazer-me bom e não me fazer mau. Mas, todos afirmam que eu devo imortalizar, eu não devo perder a minha chance, a minha possibilidade de me eternizar.
Este aqui (linha reversiva) se eternizou, porque ele viu que tinha vindo da Essência Divina e voltou para a Essência Divina, pelo livre arbítrio. O livre arbítrio funciona assim. Agora se alguém não sabe que veio do infinito, não pode voltar para o infinito. Quer dizer que voltar para o infinito é auto-realização. Saber que veio do infinito é autoconhecimento.
Hoje em dia toda a filosofia gira entre dois pontos: autoconhecimento e auto-realização. Se eu não sei que eu vim duma fonte infinita, então, eu não tenho autoconhecimento sobre mim mesmo. Eu não sei o que é que eu sou. Eu me identifico com o mineral, eu me identifico com o vegetal, com o animal que também não sabe nada disto. Mas, se eu descubro “Eu vim do infinito, eu vim da Essência, eu sou uma existência humana, mas eu vim da Essência Divina, eu tenho a possibilidade de voltar pelo meu livre arbítrio, minha consciência, minha auto-realização, voltar para donde eu vim”.
Isto é o que nós chamamos hoje em dia autoconhecimento e auto-realização.
Agora vem o grande problema que não teve solução, nem no oriente, nem no ocidente.O que é voltar para o infinito? O que quer dizer - “eu, o finito, vim do infinito e vou voltar para o infinito”. Há duas idéias sobre isto:
O ocultismo já brigou muito por causa disto. O budismo vindo da China, também. Uns dizem – voltar para o infinito é uma diluição do finito no infinito. Outros dizem – voltar para o infinito é uma integração do finito no infinito. Não sei se vocês entenderam estas duas palavras: diluir e dissolver (Absorver).  Se a minha natureza humana é completamente diluída, absorvida, então ela não existe mais. Se eu sou diluído pela Divindade, então, depois da minha diluição, da minha imortalização, eu não existo mais.
Quem existe é Divindade, mas não eu. Isto, a ala esquerda do budismo até hoje entende assim.
Já na Índia havia esta questão: o que é imortalizar-se?  A ala esquerda, negativa do budismo dizia: “eu devo destruir a minha individualidade e voltar à universalidade de Brahman”. Isto é diluição para eles, mas não é imortalidade. Na ala direita do budismo e em todo o cristianismo se entende por imortalidade, não uma diluição, não uma absorção, não uma destruição da individualidade humana, mas, uma integração.
Que é isso, integração? Quando digo, eu continuo como indivíduo humano por toda a eternidade, não um indivíduo humano separado da Divindade, mas, uma individualidade humana não absorvida, mas, integrada. É importante usar a palavra certa. Porque se vocês dizem, diluir, vocês se dissolvem, não existem mais. Isto não é imortalidade, isto é anular-se. Mas a imortalidade não deve ser uma anulação da individualidade humana.Uma anulação é uma destruição, mas pode ser uma integração. Eu posso livremente integrar-me na Divindade e continuar a ser a minha individualidade humana, mais completamente integrada e não diluída na Divindade.   Então seria isto:
       



Chegando até o ponto, identificando a minha individualidade com o ponto seria diluição, aniquilamento, anulação. Isto não é imortalidade, isto é destruição da individualidade humana.  Então temos que integrar-nos, mas não diluirmos. Quer dizer, nós podemos usar esta linha reversível como consciência. Aqui

     não há consciência. Aqui há apenas ciência. Ciência há também no mundo mineral, há no mundo vegetal, há no mundo animal. Todos sabem que há alguma coisa. Até o mundo mineral sabe. O átomo que é feito de próton e eléctrons sabe que os eléctrons giram ao redor do seu centro. Isto é ciência. Tem ciência de alguma coisa, não tem consciência.
Uma planta não tem ciência, mas é claro que uma planta tem ciência da luz.   Ela sempre volta as folhas para a luz. Não é só o girassol que faz isso. Quando o sol vem de um lado todas as folhas se voltam para o lado donde vem a luz. Pois, as plantas não podem viver sem sol. A planta tem uma ciência vegetal da luz.
E o animal tem ciência? Tem ciência do que é bom para comer, tem ciência de como se multiplicar. É uma ciência, é claro!
Agora, o que nós chamamos consciência? “Con” é um prefixo de companhia. Con-sciencia  é ciência com. Se eu tenho não só ciência, mas ciência de mim – ciência daquilo que eu sou, autoconsciência – eu não sei somente o que é o meu sujeito. Aqui há uma ciência com, uma ciência reflexiva, uma ciência que vem do sujeito e volta para o sujeito.
O mundo extra-humano não tem isto. Sabem de certos objetos, mas não sabem do seu sujeito, não têm consciência de si, têm apenas ciência de algum objeto. E nós, parece que somos aqui na terra os únicos seres que temos verdadeira consciência de nós. Uns têm apenas ciência muito vaga e difusa, mas não têm propriamente consciência, e com a nossa consciência começa a nossa liberdade, a nossa responsabilidade. Quem não tem consciência não é responsável pelos seus atos.
Na ciência mineral, vegetal (que têm apenas ciência) ninguém é responsável pelo que faz. Aqui começa a idéia da responsabilidade.- eu sou responsável pelos meus atos bons e maus porque: “quem pode deve, e quem pode e deve e não faz cria débito, e todo debito gera sofrimento”. Esta é uma das coisas mais importantes que eu disse na minha vida. “Quem pode imortalizar-se deve imortalizar-se, e quem pode e deve e não faz cria débito (culpa) e todo débito gera sofrimento”.

Todo o sofrimento vem porque podemos e devemos e não fazemos. Podemos ter certeza que todo sofrimento em última analise vem daí, o sofrimento da humanidade. Podemos, devemos e não fazemos, isto cria débito, e todo débito provoca sofrimento.


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TRANSCRIÇÃO DA AULA 8 - Monismo Absoluto

Curso Filosofia Univérsica
Palestra ministrada em 13/06/78
Huberto Rohden
Aula 08
Monismo Absoluto



            Não me confundam Essência com existência. Essência é ser, infinito, eterno, absoluto; que as religiões chamam Deus, ou Brahman, ou Tao ou Yahve, ou qualquer outro nome que tenham dado. Em nossa linguagem é o Uno (+) e verso (○).
            Podemos dar diversos nomes para a Essência. Então no número 1 aí à direita inscrevi a Essência dentro da existência do mesmo tamanho. Isto é politeísmo também chamado panteísmo.




 Politeísmo e panteísmo, no fundo é a mesma coisa porque o politeísta (ou panteísta) não distingue, identifica a Essência com a existência. Por isso pode adorar muitos deuses porque há tantos deuses quanto as creaturas. Então podemos representar assim:
Essência = existência – o que não é verdade. É filosoficamente errado. Porque Essência é infinita é todas as existências são finitas. Isto é o princípio da cultura humana: politeísmo ou panteísmo.
Depois vamos avançar na figura 2. Isto já é muito diferente, aqui a Essência está fora da existência. Está por cima da existência. Quer dizer, Deus está fora das creaturas, em nossa linguagem. O creador está acima das creaturas, mas não está dentro das creaturas. Isto se chama monoteísmo:






O Deus é essa cruz lá em cima, o círculo é a creatura. Então o monoteísmo entende que Deus é um só, que é verdade, mas, que Ele está separado do mundo. Mora no céu e nós moramos na terra. Quer dizer, há um dualismo, um separatismo no monoteísmo. Deus está num outro lugar e nós estamos aqui. Há uma distância infinita entre nós e Deus – entre creador e creaturas. Quer dizer, a creatura nunca está em Deus e Deus não está na creatura, mas, a creatura pode aproximar-se de Deus por certos modos, por meio da religião, da ética; pode diminuir cada vez mais a distância. Para o monoteísta não há Deus na existência dentro da Essência.
O monoteísmo abrange todo o ocidente do nosso globo, inclusive o oriente médio. Todo o cristianismo europeu e americano e todo o islamismo e o judaísmo que são do oriente médio são monoteístas. Estranhamente, o cristianismo também, não no Evangelho.
Não me confundam o Evangelho com o cristianismo. A teologia cristã é monoteísta, o judaísmo é monoteísta, o islamismo dos árabes é monoteísta. Veio tudo do tempo dos faraós do Egito. Os faraós fizeram uma campanha monoteísta alguns séculos e milênios antes da era cristã, sobretudo Amenhotep IV, que depois mudou o nome para Akhenaton I, foi o campeão do monoteísmo juntamente com sua esposa Nefertiti (cuja cabeça muito bonita está no museu de Berlim). Ele fez a campanha do monoteísmo no Egito (no tempo de Moisés, mais ou menos 1500 AC).
Talvez Moisés tenha pegado o monoteísmo dos faraós porque ele foi o campeão do monoteísmo entre os judeus. Não permitia que alguém praticasse o politeísmo como todo pagão e proibiu que fizessem qualquer figura do Deus único, pois o Deus único não podia ser concretizado em nenhuma figura. Nem em imagem, nem em escultura, nem em nada. É o 1o mandamento: não fareis nenhuma imagem ou escultura de Deus. Porque havia sempre o perigo deles confundirem a Essência com a existência. Da existência se pode fazer uma escultura, uma estátua, uma imagem. Da Essência não se pode fazer nada porque a Essência é absolutamente invisível e abstrata. E para não caírem no politeísmo que dominava todo mundo, então Moisés proibiu sob pena de morte quem adorasse Deus fosse de pau ou de ferro, ou qualquer outro material rigorosamente proibido. Nem sequer podia pronunciar o nome de Deus. Por isso os israelitas não sabiam como pronunciar Yahve. Mais tarde descobriram que era Jeová e hoje outra vez chegaram a descobrir que é Yahve.
Em hebraico são 4 consoantes (YHVH ou YHWH). Não tem vogal. As línguas antigas não têm vogais. Só escrevem consoantes, o esqueleto da palavra. Vogais são carne. Se alguém tem muita carne ou pouca carne significa o mesmo. Então as línguas antigas não escreviam vogais, mas pronunciavam. Era YHVH. Este era o monograma sagrado. Mas, como eles não sabiam como pronunciar porque era proibido sob pena de morte pronunciar o nome de Deus em vão, então, eles só podiam escrever. E provavelmente eles pronunciavam Yahve que quer dizer o ser. É o particípio presente de hava que quer dizer ser. Este era o nome do Absoluto, do Eterno, do Infinito. Eles usavam outros nomes, Onipotente, etc, mas o nome mesmo não podia.
Quando Moisés teve aquela visão no Monte sagrado Moisés quer saber: “Quem és tu, que me mandas libertar o povo hebreu do Egito?” “Eu sou Yahve, eu sou aquele que é” (está lá, nós traduzimos). Yahve é particípio presente de ser. “Eu sou o sendo” muitas línguas usam o particípio presente, outras usam o infinitivo. Em português usamos “Eu sou o ser”. Em alemão também se usa o infinitivo “sein”. Em inglês já se usa o particípio passado “I am the been”. Em grego também se usa o particípio presente – eu sou o sendo, literalmente.eu sou o ser e nós traduzimos eu sou aquele que é. Isto em hebraico Yahve que é uma palavra só.
Bem. Isto é monoteísmo e como monoteísmo avançou para o ocidente e para o oriente médio até hoje, todos os povos cristãos europeus e americanos são monoteístas, e os povos do oriente médio também herdaram o monoteísmo de Israel (propagado por Moisés).
Mas os grandes gênios da humanidade não são politeístas e não são monoteístas. São todos monistas. Todos eles inclusive Jesus. Muitos pensam que Jesus tenha sido monoteísta e não é verdade. O Evangelho não é monoteísta. É rigorosamente monista.
Então a 3a figura representa o monismo. Aqui temos separação entre a Essência e a existência, também não temos identificação porque separação é dualismo entre o Creador e creaturas. No monismo não tem identidade nem separação, mas tem uma interpenetração das duas coisas. A Essência permeia a existência (o círculo). Ela permeia atravessa toda a existência, mas vai além Vai infinitamente além de todas as existências. Isto é a filosofia de todos grandes os gênios da humanidade.
Podem procurar onde quiserem, desde Hermes Trismegistos do Egito que viveu milhares de anos antes de Cristo - o grande Thot é rigorosamente monista. Depois vem Krishna, Buda, Lao Tse e Jesus. Todos eles perceberam que a Essência não é uma coisa separada da existência e também não é idêntica. Todos os gênios perceberam isto intuitivamente. Isto não se pode saber por analise intelectual, mas pode-se saber por intuição cósmica. Quando o Mestre de Nazaré diz: “Eu e o Pai somos um, o Pai está em mim e eu estou no Pai” ele fala em linguagem rigorosamente monista. Ele não diz: “eu estou na terra e o Pai está no céu”. Depois ele ensina a seus discípulos – “Pai nosso que estás nos céus”... Em outra ocasião ele diz: “mas o reino de Deus está dentro de vós”. Outra vez põe o Pai dentro de nós.
Quando ele fala céu ou Pai, ele sempre entende - a Essência está dentro de nós, mas ela não é conscientizada. O reino dos céus está dentro de vós e o Pai também está dentro de vós.  Tudo linguagem monista! Não diz que está no céu. Se ele está no céu... -, bem, mas, o céu está também dentro de vós. Primeiro ele diz: “está dentro de mim”, depois ele diz: “também está dentro de vós”.O reino dos céus está em vós, mas é um tesouro oculto, é uma perola preciosa no fundo do mar, é uma luz debaixo do velador”. Comparações que ele usa. Está dentro, mas não temos consciência da presença do Pai, do tesouro oculto, da luz debaixo do velador, da pérola preciosa no fundo do mar.
A presença é um fato, mas a vossa consciência ainda não é um fato. De maneira que toda a auto-realização consiste em conscientizar a presença, nada mais. Nós não podemos fazer presente o que não está presente, não é possível. O que está ausente, está ausente e para nós não está presente. Mas nós podemos conscientizar algo que está presente quando ontem para nós era inconsciente e hoje se tornou consciente. Isto é um progresso do nosso Eu interior. Todo autoconhecimento consiste em conscientizar uma realidade que estava sempre presente e nunca pode estar ausente, mas não temos consciência desta presença. E quando conscientizamos a presença que sempre existiu, então fazemos grande progresso. É o que nós chamamos autoconhecimento.
Agora, aqui (fig. 3) a presença é um fato. Na fig. 2 a presença é uma ausência. Para o monoteísta Deus está sempre ausente. Para o monista Deus está sempre presente não só no homem, mas em qualquer creatura. Também está presente em qualquer mineral, vegetal, animal... mas, os seres inferiores nem sempre podem conscientizar a presença. Talvez o mineral não possa o que nós entendemos por conscientizar; talvez ele conscientize de outro modo, um modo natural muito primitivo. Mas, como nós - não pode conscientizar. O vegetal também não possa conscientizar. Para ele Deus é a luz. A planta conscientiza de certo modo a luz porque ela não pode viver sem luz.
E para o animal também existe um Deus inconsciente que ele conscientiza em forma de gozo, ou sofrimento, ou fome, ou sede que são sentimentos do animal. E isto pode ser para ele uma coisa parecida com o que nós chamamos Deus – mas uma conscientização perfeita só pode existir no ser humano. E tem infinitos graus. Nós podemos conscientizar cada vez melhor a Essência que existe entre nós.
De maneira que todos os gênios mais avançados sabem da Essência na existência. Para não confundir monismo com monoteísmo, não pensar que isto realmente esteja fora. O círculo está sempre dentro da cruz (existência dentro da Essência), mas, nunca é igual. Então, no avanço da nossa cultura nós verificamos: a Essência é sempre infinitamente maior do que a existência.
Isto (figura 2) produz na creatura uma espécie de pessimismo negativo porque aqui a existência não veio da Essência, foi apenas creada pela Essência, mas não emanou da Essência. E isto dá a creatura um desvalor. Dá uma existência negativa.
O grande filosofo alemão Hermann Keyserling, que no princípio deste século (Séc. XX) era professor de uma Universidade de Munique, e na primeira guerra mundial foi demitido da cátedra de filosofia (era pacifista)... - e como ele era muito rico resolveu fazer uma viagem ao redor do globo. Começou no Egito e terminou nos Estados Unidos. Escreveu dois volumes maravilhosos - “Diário de viagem de um filosofo”. E no princípio do 1o volume ele pôs este lema: “A viagem mais curta para dentro de si mesmo vai ao redor do globo”. Ele fez a viagem ao redor do globo não para encontrar com outras culturas, mas para se encontrar a si mesmo. Primeiro se encontrou com os egípcios, depois foi para o Ceilão, depois para a China, para a Índia, para o Japão. Depois fez a viagem pelo Pacifico, para os Estados Unidos e depois para a Europa. E depois ele diz: “eu fiz esta viagem não para ver outras culturas humanas, mas, para me encontrar a mim mesmo; porque é muito difícil a gente se encontrar a si mesmo quando não tem contraste com outros. O contraste é que dá a consciência de nós mesmos”.
.Então ele teve que contrastar com os seus pensamentos, com os pensamentos dos egípcios, dos chineses, dos hindus, dos japoneses, dos americanos e outros para finalmente chegar à consciência de si mesmo. Levava consigo um livrinho “Imitação de Cristo” – que é o livro mais lido no mundo depois da Bíblia. É escrito na idade média por um monge piedoso. Tem muita sabedoria, mas é monoteísta como todos os livros cristãos, a não ser dos místicos.Os místicos são monistas, mas os teólogos cristãos comuns são monoteístas.
Então diz Keyserling – “eu faço comparação entre a imitação de Cristo e a Bhagavad Gita e verifico o seguinte: todo livro cristão, sobretudo a Imitação de Cristo quer salvar o homem deprimindo-o e a Bhagavad Gita quer salvar o homem sublimando-o”. E explica porque no monoteísmo nós achamos que só encontramos Deus deprimindo, desprezando, maldizendo o homem. “Eu sou uma sujeira, eu sou uma peste, eu sou o diabo em pessoa. Quando eu me deprecio, deprimo, melhor – eu estou diante de Deus” - diz Keyserling.
A Bhagavad Gita faz o contrário – diz: “Tu és Brahman no interior, tu és Brahman porque o teu Atman é o reflexo de Brahman”. Faz a sublimaçãopor quê? O monismo fala em termo de sublimação e o monoteísmo fala em termo de desprezo. Para o monoteísta quanto mais a creatura se despreza a si mesma, mais ela se aproxima de Deus. E o monismo, quanto mais a creatura se sublima a si mesma, mais ela se aproxima de Deus. Por quê? É claro, se isto não veio de dentro de Deus, mas se a creatura foi creada do nada (como é a nossa teologia) se isto veio do nada, isto é o tudo, então isto é o contrário daquilo, o nada é o oposto do todo. É claro, a existência está em sentido oposto à Essência. E quanto mais a pessoa reconhece o seu nada, mais ela se aproxima do todo, segundo o nosso monoteísmo teológico.
Mas, no monismo não precisa desprezar a sua natureza humana para se aproximar de Brahman porque no monismo há duas coisas bem distintas. Há na natureza humana este círculo que nós chamamos o ego e há no centro a cruz que nós chamamos o Eu. (Figura 3). Isto (o círculo, o ego) na Bíblia é chamado o mundo “que aproveita o homem ganhar o mundo inteiro se chegar a sofrer prejuízo em sua própria alma”.
Isto (a cruz, o Eu) no Evangelho é chamado alma ou espírito de Deus em nós. E isto (círculo) é geralmente chamado o mundo. Na Filosofia e na psicologia nós chamamos isto (círculo) o nosso ego e isto (cruz) o nosso Eu. Em sânscrito nós chamamos o ego – Aham e o Eu – Atman. Atman é Brahman em forma individual no homem.
Então, no princípio o homem só conhece o seu Aham, o seu ego, o mundo, a sua periferia - e nada sabe do seu centro, quando é completamente ignorante. Mas, para se encontrar a si mesmo no centro, ele não deve fugir de si. No monoteísmo o homem tem que fugir de si para encontrar Deus. No monismo ele não tem que fugir de si. Ele tem que encontrar Deus dentro de si, mais profundamente para descobrir Deus.
Então, no monismo é fácil a gente fazer meditação, fazer autoconhecimento e auto-realização porque não precisa distanciar-se de si mesmo. Ir a outras regiões para encontrar Deus fora de si. Não, ele tem que deixar a sua periferia que não sabe nada do seu centro e penetrar profundamente no seu centro. Isto então é interiorização, meditação, concentração, que só se praticava milhares de anos antes no oriente. Todas as grandes filosofias e religiões vêm do oriente, não se esqueçam. Todas as religiões e filosofias mundiais são asiáticas, sem exceção do próprio cristianismo. Porque a Palestina também é oriente – não é oriente longínquo como a Índia, a China e o Japão, mas é oriente próximo. Tudo isto é Ásia. Todas as grandes culturas vieram de lá.
Então para o oriental, acostumado a procurar Deus dentro de si e não fora de si como no monoteísmo dualista (dualismo e separatismo) Deus não está em mim, mas eu posso me aproximar de Deus de certo modo. Quanto mais eu me afasto e distancio de mim, mais eu me aproximo de Deus. Isto é dualismo monoteísta que prevalece em quase todas as teologias. Eu para encontrar Deus devo desprezar-me. Eu devo humilhar-me porque aqui no ocidente nós não descobrimos em grande parte o nosso verdadeiro centro, o nosso contido. Nós ainda achamos que o homem é pecador. Aqui também há o ego pecador, mas, ele tem a possibilidade de se redimir do seu pecado. A redenção não vem de fora. A Essência Divina pode redimir a minha existência humana segundo o monoteísta dualista teológico que prevalece no nosso cristianismo.
No monismo não, aqui a existência pecadora, enquanto não conscientizar a Essência redentora, é pecadora. O meu salvador vem de dentro. Eu não sou no meu ego este salvador. No meu ego eu sou pecador, mas no meu Eu, eu sou meu próprio salvador.  Aqui (fig. 2) temos alo-redenção. Aqui (fig. 3) temos auto-redenção. Eu uso estas palavras:
Alo = outro
Autos = eu mesmo
No monoteísmo eu sou redimido por um salvador externo. No monismo eu me auto-redimo pelo meu salvador interno. Enquanto eu não tenho consciência desse salvador interno eu não estou redimido. Portanto, todo processo de redenção no monismo é autoconhecimento. No monoteísmo não há autoconhecimento, propriamente. Toda minha salvação vem de fora. Eu tenho que invocar um redentor externo a ver se ele me salva dos meus pecados, se ele entra em mim, mas ele não está em mim.
No monismo, o redentor em mim – enquanto eu não tenho consciência da presença dele eu continuo pecador porque o que me é consciente é este círculo. O que não é consciente, mas, inconsciente é esta cruz. Eu tenho consciência do meu ego humano, mas eu não tenho consciência do meu Eu Divino.
Assim se vê que tudo depende do modo como nós consideramos a natureza humana. Se consideramos dualisticamente ou monisticamente. Todo monoteísmo é necessariamente dualista – o monoteísmo nunca é unitário. Unitário é isto aqui (fig. 3) onde a existência está dentro da Essência. No monoteísmo é diversitário – a Essência é sempre diversa, fora, separada, além da existência. E como temos só consciência da nossa existência que é o ego e não temos, muitas vezes, consciência da nossa Essência que é o Eu, toda a teologia ocidental acha que o homem é por natureza pecador, porque por natureza ele tem consciência do seu ego e o ego é negativo. É o pólo negativo da nossa natureza. O pólo positivo não está dentro, está fora de nós.
Aqui (fig. 3) o pólo positivo está dentro do  pólo negativo e o negativo está inscrito dentro do positivo. Há uma síntese. Na fig. 2 há uma antítese. Na fig. 3 há uma unidade – na fig. 2 há uma dualidade.
Eu posso descobrir a minha unidade, mas no princípio eu só conheço a minha diversidade. O meu ego é diversitário e o meu Eu é unitário, mas eu posso fazer a síntese entre o meu uno e o meu verso. Podemos inscrever mais de um círculo aqui. Podemos inscrever dentro da mesma Essência muitas existências.Uma existência mineral, uma existência vegetal, uma existência animal, hominal e muitas outras. Mas temos que tomar sempre a Essência em forma infinita, porque a soma total das existências nunca pode ser igual à Essência. A soma total das creaturas nunca pode ser igual ao próprio creador.


 Então devíamos imaginar esta cruz como infinitamente grande. E assim, todos os círculos caberiam dentro desta única Essência.
Isto está maravilhosamente explicado no livro Sidarta de Hermann Hesse – que é o livro mais maravilhoso que este escritor alemão publicou. Os outros são enigmáticos e difíceis de compreender. Sidarta que é um livro muito pequeno (felizmente temos em português) diz meridianamente com absoluta clareza o que Sidarta pensa. Primeiro ele vivia só na sua Essência e depois ele vivia só na sua existência e finalmente ele une a Essência com a existência. Vai através de todo este livro profundamente filosófico e verdadeiro...
No princípio ele queria ser só um místico, não queria saber nada, vivia pobremente em penitências, em jejuns e só cuidava de seu Eu espiritual. Depois jogou fora o seu Eu espiritual, praticamente, caiu na luxúria, nas riquezas, nos jogos e jogatinas – são coisas do ego; e se esqueceu praticamente do seu Eu. E no fim ele fez a síntese entre o seu antigo Eu abandonado que ele reconquistou e inscreveu o seu Eu dentro do seu ego humano. Então, chegou ao fim.
O seu amigo Govinda não podia compreender isto, ele praticamente ficou na mística. Não podia compreender que eu sou Brahman, ‘ mas eu não sou Brahman, eu sou um pecador’. ‘Sim’, dizia Sidarta, ‘tu és na tua consciência um pecador, mas, na tua Essência tu és idêntico a Brahman, mas tu não sabes ainda o que és. Se tu soubesses o que és realmente tu dirias: eu sou essencialmente Brahman, mas eu sou existencialmente apenas um pecador humano’. 
Quer dizer, o problema está em essencializar a existência -, podíamos dizer: Se alguém consegue essencializar a sua existência, então ele faz a grande síntese entre aquilo que ele é e aquilo que parece ser. Podemos fazer esta síntese. Este é todo o processo de autoconhecimento e auto-realizaçao. Mas não devemos pensar que nós tenhamos que buscar Deus e colocá-lo dentro de nós. 
Um dos maiores místicos da idade média Meister Eckhart, do século XIII – nós não temos quase nada em português, mas em inglês e alemão tem muito – ele diz em um de seus livros: “Se alguém tem que buscar sempre o seu Deus de fora ele não o possui nem depois de o ter buscado”. Se eu tenho que buscar o meu Deus de fora (alguém tem o Deus de fora no monoteísmo, ele era todo monista) colocando dentro e mim, eu não o possuo nem depois de ter buscado.
Está muito certo porque nós não podemos causar uma presença de Deus. Se Deus estivesse ausente de mim, eu nunca o podia tornar presente. Eu não posso fazer duma ausência uma presença. Isto não é possível. O que eu posso é fazer duma inconsciência uma consciência, mas, eu não posso fazer duma ausência de Deus uma presença de Deus.
Portanto, a redenção, a salvação ou a conversão não consiste em nós buscarmos Deus e colocarmos Deus dentro de nós. Isto é um processo absolutamente impossível. Donde íamos buscar?  Se a Essência é onipresente, onde é que está sua ausência? Não pode haver uma ausência onde há uma onipresença. Não pode haver um buraco na presença. Deus não pode estar parcialmente ausente e parcialmente presente. Se ele está totalmente presente ou onipresente, universalmente presente, não há nenhum lugar onde há uma ausência de Deus. Quer dizer, isto (fig 2) não existe. Seria um vácuo de Deus, seria um vazio, onde Deus não estivesse.
Deus também está no maior dos pecadores como está em qualquer pedra, em qualquer planta, em qualquer animal, também está em qualquer homem. Não pode estar ausente. A conversão não consiste em fazer da ausência de Deus uma presença de Deus. Isto é absolutamente impossível. Pode consistir unicamente em fazer duma inconsciência da presença, uma consciência da presença. Só isto é possível.
Por isso, para compreender que aqui (fig.2) nós não podemos fazer verdadeira meditação, que seria buscar Deus dentro de nós. Mas ele já está dentro de nós inconscientemente – a Essência está sempre dentro de qualquer existência. Propriamente não devíamos dizer: Deus está dentro. Quando nós dizemos que Deus está dentro duma pedra, Deus está dentro de uma planta, Deus está dentro de um animal, temos uma idéia dualista errada. Deus não está dentro. Então nós levamos um choque. Como é que pode estar dentro duma coisa feia (de um sapo, duma rã, de uma barata, duma aranha) – como Deus está dentro? Deus não está dentro.
Este maravilhoso livro “A Arte de Curar pelo Espírito” (que eu traduzi do inglês) de Joel Goldsmith explica maravilhosamente este equívoco. Ele diz: “Nós não devemos dizer que Deus está dentro, mas que Deus é esta pedra, Deus é esta planta, Deus é este animal, mas o seu é, o ser nós não vemos, nós vemos somente o seu existir”. Nós vemos a existencialidade duma pedra, mas não vemos a sua Essência. Vemos a existência dum animal, mas não vemos a sua Essência. Vemos a existência duma planta porque ela é objeto dos 5 sentidos. Se nós pudéssemos ver a Essência e não víssemos apenas a existência nós não diríamos: Deus está dentro da pedra, diríamos a Essência da pedra é Deus, a Essência da planta é Deus, a Essência do animal é Deus, a Essência do homem é Deus. Deus é a única Essência de todas as existências.
Mas nós só vemos a existência e dizemos: essa existência é uma pedra, quando de fato não é uma pedra porque a existência é apenas uma manifestação da Essência. A Essência se manifesta como se fosse uma pedra, a Essência se exterioriza como pedra, como planta, como animal e assim por diante.
Leiam este livro “A Arte de Curar pelo Espírito” aonde Goldsmith vai ao fundo das coisas. Ele diz: “quando eu quero curar um doente eu não devo pensar que eu devo expulsar a doença de um doente. Deus é vida, Deus não é morte, Deus é saúde e Deus não pode ser doença – logo se aqui parece haver doença é porque eu não vejo a realidade desta creatura humana. Eu vejo as suas aparências, eu vejo as suas existencialidades que são doentes, mas eu não vejo a sua Essência que não está doente. A Essência do homem não pode estar doente porque a Essência é Deus e Deus não está doente”.
Então, Joel Goldsmith manda conscientizar absoluta identidade da alma do homem doente com a própria Divindade e se conseguir esta identificação entre a Essência que é vida e saúde na existência que de momento é doença; então também a Essência pode exercer um impacto tão poderoso sob a existência que a própria existência deixa de estar doente e também adquire perfeita saúde.
É uma conscientização da Essência rumo a existência, mas isto exige uma concentração tão grande – nós quase nunca conseguimos focalizar a Essência quando os nossos sentidos só falam em existências. Os nossos sentidos os olhos, os ouvidos, o tato – só falam em existência – e como é que eu posso ultrapassar o testemunho dos meus sentidos e dizer: “Apesar de vocês verem doença, ouvirem doença, e tangerem doença, não é doença. A Essência não pode estar doente. Somente uma existência que é um derivado pode estar doente. E se eu conseguir focalizar a Essência pura desse ser humano que parece estar doente também a conscientização da Essência pode transmitir perfeita saúde àquela existência que de momento está doente”.
Tudo depende da focalização da Essência, mas se eu tenho que buscar uma Essência fora de mim, então ele insiste – não adianta invocar Deus e muita gente se escandaliza com a linguagem de Goldsmith e diz: “não, nós temos que rezar para o doente”. Ele insiste: “não adianta rezar, não adianta invocar Deus para lhe dar saúde. O que tem que fazer é evocar”. Agora vem a grande palavra – evocar.
Invocar é isto: Eu vou invocar o Deus fora de mim.
Evocar: Eu vou evocar o Deus dentro de mim. Eu vou conscientizar o Deus inconsciente. Eu vou conscientizar o meu Deus inconsciente.
Isto é toda a filosofia de Goldsmith. É evocar - chamar de dentro para fora, não de fora para dentro. Invocar é puxar Deus para dentro de mim para me dar saúde. Evocar é chamar Deus de dentro de mim. Ele está dentro de mim, mas eu não sabia. Eu não tinha consciência dele dentro de mim, por isto é que estou doente. Se eu tivesse perfeita consciência da presença de Deus em mim eu não estaria doente.
Por que é que Jesus numa esteve doente? Nós nunca lemos uma doença de Jesus no Evangelho, nem a menor doença. É porque ele vivia na permanente consciência da presença do Pai. O corpo dele não podia ficar doente, nem estava sujeito a morte compulsória. Se ele permitiu é porque quis. E depois voltou à vida.
Com Moisés no Antigo Testamento, que é o maior precursor de Jesus, sem dúvida, nós nunca lemos uma doença de Moisés. Viveu segundo a Bíblia, 120 anos em perfeita saúde e eterna juventude. Porque onde há uma consciência nítida da presença de Deus também há saúde, há vida e há perfeição do corpo. Mas, o nosso problema é poder conscientizar realmente, intensamente a presença da Essência. A Essência não pode estar doente, não conhece morte. A Essência é a própria vida. Tudo depende da intensidade da nossa conscientização.





TRANSCRIÇÃO AULA 9 - A lei do amor

Curso 1978
Filosofia Univérsica
Huberto Rohden
Aula 09 - 20/06/78
Einstein, a lei do Amor


Na filosofia nós temos que fazer muitas demolições de ídolos e de tabus. Sem isto não podemos fazer filosofia. Ídolos queridos, tabus tradicionais e inveterados... - porque certas palavras adquirem um sentido diferente na linguagem popular e nós temos que voltar ao sentido exato. As duas palavras mais usadas na humanidade são: Deus e amor. São duas coisas que na filosofia significam inteiramente diferente do que na linguagem popular.
Já tratamos da palavra Deus. Já dissemos que Deus é a Essência, mas o povo diz que essência é um líquido que está num frasquinho – então não se pode dizer que Deus é a Essência. Mas, a filosofia diz: o Absoluto, o Eterno, o Infinito e assim por diante... Mas, a palavra Deus na linguagem popular é exatamente o contrário daquilo que se entende por Deus na filosofia.  As igrejas mesmas entendem por Deus uma pessoa ou pelo menos um indivíduo, um superindivíduo cósmico. Nada disto, podemos aceitar.
Einstein diz que Deus é a lei. Lei não é uma pessoa, é uma coisa inteiramente abstrata. Não uma coisa real. Moisés também chamam Deus a lei. Spinoza diz que Deus é a alma do Universo. Já é uma boa definição. Os místicos iniciados todos aceitam que Deus é a consciência cósmica (cósmico é universal), e que nós somos ecos e reflexos desta consciência cósmica. A nossa consciência verdadeira é uma agulha magnética que aponta sempre para o norte da consciência cósmica... (se nós não falsificarmos a consciência) - mas geralmente não se pode falsificar a consciência. Ela sempre grita de novo e não aceita o que o ego manda aceitar. Ela defende o direito, a justiça e a verdade.
Quer dizer, podemos tomar Deus, a lei, a Alma do Universo, a Consciência cósmica, mas para o uso do povo e, sobretudo das crianças, é ótimo usar a palavra Vida. A Vida produz os vivos. Nós nada sabemos da Vida, mas sabemos muito dos vivos. Há vivos de toda espécie. Podemos chamar Deus a Vida Universal, mas não alguma creatura viva. Isto já não é a Vida. A creatura tem vida, mas a creatura não é a Vida. Mas, o que é a Vida? Isto seria Deus, não o que tem vida. O que tem vida é vivo, um adjetivo, e Vida é um substantivo. Isto podia usar na linguagem das crianças para Deus.
Agora vamos tratar de outro assunto: amor. Quando usamos a palavra amor, todo mundo entende o amor transitivo e ninguém aceita o amor intransitivo, em linguagem de gramática. Porque o que o povo entende por amor, é amar uma outra pessoa. É altruísmo! Sempre é altruísmo para nós.  De qualquer espécie, mesmo amor entre homem e mulher é altruísmo. E entre amigo e amigo e entre pai e filho...- na linguagem popular amor é transitivo.
E, se eu disser que o amor é intransitivo, então dizem, “isto não é amor. Isto é egoísmo”. Amor próprio seria intransitivo, amor alheio seria transitivo. Se eu digo “eu me amo a mim mesmo”, dizem “mas que egoísmo é este? Que coisa horrível!”. A gente deve desprezar a si mesmo e amar só os outros, isto é a linguagem geral entre os pedagogos e assim por diante. Você nunca deve amar a si mesmo – só deve amar os outros. E nunca deve dar coisas boas a si mesmo. Deve dar sempre coisas boas aos outros. Isto é a linguagem pedagógica correta.
Quando eu era criança, eu tinha de confessar sempre que tinha pecado por amor próprio. Eu pecava por amor próprio porque toda criança peca por amor próprio, e me disseram que amor próprio é pecado. Ninguém deve praticar amor próprio, só se deve praticar amor alheio. Mas, é muito difícil praticar amor alheio sem primeiro praticar amor próprio.
O maior dos mestres disse que devemos amar o próximo como a nós mesmos. Aí acabou com todo o tabu. Acabou com toda a pedagogia e psicologia educacional. Devemos amar o próximo assim como amamos a nós mesmos. Dar o amor próprio como modelo para o amor alheio. Mas, isso não é egoísmo? Eu em primeiro lugar me devo amar a mim mesmo? Não, isto não é egoísmo. Isto é a lei da vida. Não existe nenhum ser vivo que não tenha amor próprio. O amor próprio é a própria existência dum ser. Se uma planta deixasse de ter amor próprio não existiria mais. Se um animal não tivesse amor próprio deixaria de existir.
Até os átomos têm amor próprio. Se um átomo não tivesse amor próprio então não existiria mais. Imaginem como é difícil desintegrar um átomo. Os nossos cientistas tiveram um trabalho enorme com sincrotons para desintegrar um único átomo. Porque ele se defende contra a desintegração. É um terrível amor que ele tem. Ele tem um amor atômico mesmo. Ele se defende: “Eu não quero ser desintegrado”. Mas, nós conseguimos finalmente a desintegração atômica ultimamente, foi um trabalho louco.
Quer dizer, tudo tem amor próprio. Amor é autoconservação, nada mais. Toda creatura se ama a si mesmo e quer continuar a existir e não quer deixar de existir. A lei da auto-existência é a lei do amor!... Então temos que passar para um novo conceito de amor. Se alguém só se amasse a si mesmo e não amasse os outros, então seria egoísmo. Mas, se alguém se ama a si mesmo e ama os outros do mesmo modo como ele se ama a si mesmo, isto é santidade suprema. Isto é auto-realização e isto está no Evangelho. “Amarás o teu próximo assim como tu te amas a ti mesmo”. Ele dá o amor próprio como modelo para o amor alheio.
Quer dizer que podemos dizer em primeiro lugar amor é auto-afirmação, não autonegação. É auto-afirmação, ‘eu me afirmo quando eu me amo. Eu quero continuar a existir’ – isto é auto-afirmação e auto-realização. E nós sabemos que nós podemos ter um amor próprio tão grande que nos imortaliza. A imortalização não é outra coisa senão o triunfo máximo do amor próprio. Mas, não digam isto lá fora porque é muito perigoso. A imortalidade do homem é o triunfo máximo do seu amor próprio, pura verdade. Porque se ele não tivesse um grande amor próprio ele não se poderia imortalizar.
A sagrada escritura diz: “Deus ama a si mesmo com infinito amor”. Meu Deus, parece egoísmo puro – Deus ama a si mesmo com infinito amor. Em primeiro lugar ele ama a si mesmo e um transbordamento desse amor próprio é o amor às creaturas. Podemos dizer que as creaturas são um transbordamento do amor próprio de Deus. Se Deus não se amasse a si mesmo com infinito amor ele não poderia crear e amar as creaturas porque as creaturas não são outra coisa senão o transbordamento de um amor infinito em forma finita.
Vamos fazer outra vez a nossa geometria sobre isto, porque a geometria nos esclarece muitas coisas. Vamos usar outra vez este sinal (+) como Essência, o Eu; e vamos usar outra vez (O) como existência. Então teremos aqui (fig. 1) uma união entre Essência e existência.  



              
 Podíamos dizer que isto (+) é Eu e isto (O) é tu. Agora podemos fazer diversas constelações com estes dois sinais. Vamos dizer que a infinita essência (+) é Essência pura, é o Absoluto, o eterno, o infinito. E aqui (O) nós temos uma existência humana (eu ou qualquer um de nós). Aqui outra existência humana que vamos chamar tu – nosso próximo. Aqui pode haver diversas possibilidades de amor.

Se amar de ego para ego, (isto é amor que geralmente a humanidade conhece) isto se chama altruísmo, filantropia, sentimentalismo. Isto é uma porção de amor mesmo, amor erótico também – aí ele ama ela de ego para ego – porque no Eu não há marido nem mulher. Então amor é da periferia para periferia – do ego para ego. Isto é o que a humanidade geralmente conhece por amor. É amor de um ego humano para outro ego humano. Isto tem muitos nomes: altruísmo, filantropia, beneficência, amor entre sexos, erótica. Tudo isto é amor de superfície para superfície.
Pode haver outro, agora vem o difícil. Se eu traçar uma ligação entre as duas cruzinhas (fig. 2) então já seria completamente diferente. Do meu Eu para o Eu do tu.- isto é difícil de imaginar como seja. Para isto acontecer, atingir a Essência do outro e não somente a sua existência, como é que eu posso fazer isto? Não posso fazer diretamente como está aqui. Primeiro eu tenho que descobrir em mim a minha Essência, o meu Eu. Se eu descobrir que a minha essência é igual a esta Essência (+), a Deus, o infinito... Se eu conseguir traçar esta linha entre o meu Eu e Deus. Entre o Deus imanente em mim...- então está aberto o caminho para atingir a Essência do outro.


Veja que coisa engraçada, a palavra Deus. Apagando um pouquinho dá – eu. Não é estranho? Eu – acrescentando duas letras dá – Deus. Quer dizer, o Eu está imanente na idéia de Deus. Isto por acaso, é claro, não é argumento, mas, é um jogo de palavras.
O Mestre diz: “Amarás o Senhor teu Deus” - por que é que ele usa duas palavras, o Senhor teu Deus? “Com toda tua alma, com toda a tua mente, com todo o teu coração e com todas as tuas forças”.  Senhor é um Deus transcendente. Amarás a divindade transcendente – isto é Senhor...- o Senhor do Universo, mas este Senhor não poderia ser objeto do nosso amor se nós não conhecêssemos este Senhor transcendente como meu Deus imanente.
“Amarás o Senhor que é teu Deus” – agora sim, é possível o amor. Que nós não podemos amar transcendentalmente. Nós só podemos amar por imanência. O que eu nunca vi, o que eu não conheço, não sei nada, não pode ser objeto de amor. Nós não sabemos nada do Deus transcendente. O Deus da sua forma transcendental é completamente incognoscível, invisível, inatingível, inaudível – é completamente zero para nós. Se Deus fosse só transcendente nós não poderíamos amar Deus, mas, como o Deus transcendente também é o Deus imanente e o Deus imanente não está só em mim – também está no tu, está em qualquer creatura, nao só humana, (mas também nas outras creaturas) porque a imanência de Deus é universal, em todas as existências... – a Essência única está presente nas existências múltiplas mesmo que não sejam humanas...
Agora se eu descobrir que o Senhor é também meu Deus, é o meu Eu – se eu faço essa grande descoberta então eu abri um caminho, não de ego para ego, mas de Eu para Eu. Mas, antes de fazer esta ligação entre o Eu e Deus não posso fazer o segundo caminho.
Quer dizer, a imanência de Deus em mim, chegando a sua plenitude – amando com toda a minha alma, com toda a minha mente, com todo o meu coração e com todas as minhas forças... São quatro palavras que se usam aí:
Alma – norte
Mente – leste
Coração – oeste
Forças do corpo – sul.
Usam-se 4 palavras no Evangelho para dizer a totalidade da natureza humana, porque a nossa totalidade não é alma – também não é mente, também não é coração – também não são forças do corpo, mas o conjunto desses quatro dá a totalidade. Aliás, o numero 4 sempre foi usado como um símbolo da totalidade – os quatro pontos cardeais da nossa natureza, por assim dizer.
Então quando amamos o Deus imanente com a totalidade do nosso ser – espírito, mente, emoções e forças do corpo, então chegamos à plenitude de um amor místico – vertical. Porque isto ainda é tudo – amor místico – isto não é ética, isto não é moralidade – isto não é altruísmo. Isto é pura mística. A mística é a relação entre o nosso Eu e Deus. É uma linha ascensional ou vertical. Se eu descubro a identidade entre o meu Eu e Deus, não entre o meu ego, mas entre o meu Eu. Se eu descubro a identidade essencial, não existencial, entre a minha Essência individual, Eu e a Essência Universal, Deus – então estou no primeiro e maior de todos os mandamentos:
“Amarás o Senhor teu Deus com toda a tua alma, com toda a tua mente, com todo o teu coração e com todas as tuas forças” - porque este é o primeiro e o maior de todos os mandamentos. São palavras do Cristo. Amar com a totalidade da nossa natureza, o quê? O nosso Deus imanente, o meu Eu. Aqui nós temos o puro amor próprio, mas próprio não se deve referir ao ego. Próprio se deve referir ao Eu. Aqui estou no auto-amor. Alo-amor (alos = outro em grego) seria ética, moralidade, filantropia. Aqui estamos no puríssimo auto-amor: Eu me amo com toda a minha alma, com toda a minha mente, com todo o meu coração e com toda a minha força.
Me, não quer dizer ego. Me, é isto: eu amo Deus em mim, porque meu Eu é Deus em mim - é a Essência de Deus na minha existência humana. Este é o primeiro e o maior de todos os mandamentos, diz o Mestre, quando foi interrogado: “Qual a coisa mais importante na vida humana?” Ele não perguntou nada secundário. Só se referiu à coisa mais importante, amor. Amor entre o meu Eu e Deus. Porque não são duas coisas. Este Deus aqui (fig. 1) é o mesmo que está aqui (fig. 2). Aqui ele está em estado universal e transcendental: +(fig. 3). (fig.1) Aqui ele está em forma individual.




Na forma transcendental é inatingível para nós. Em forma imanente (fig 1) é atingível para nós. É possível fazer uma relação entre Eu e Deus, mas, com uma condição - de que eu tenha abandonado, pelo menos temporariamente, a periferia do meu ego: o meu corpo, a mente e minhas emoções isoladas; e que eu tenha descoberto que eu não sou o meu ego periférico externo, visível. Isto eu tenho. O ego eu tenho. Eu tenho o meu corpo, eu tenho a minha mente, eu tenho as minhas emoções, eu tenho as minhas forças, mas isto eu não sou.
Se eu passar do ter para o ser, que é muito difícil... Passar do ter periférico para o ser central, isto exige, não somente como nós dizemos, concentração mental; exige muito mais do que concentração mental; exige uma invasão cósmica da divindade.

Parece que eu sou invadido na mística por uma força cósmica. De fato eu não sou invadido de fora para dentro, mas, eu sou invadido de dentro para fora. De fato, o que me invade é isto (cruz). Então eu posso dizer que sou invadido por Deus, mas também posso dizer que fui invadido pelo meu Eu.
Quando chego ao autoconhecimento que eu sou a minha alma, eu sou o meu espírito, eu sou o meu Eu verdadeiro, o meu Self (inglês), Selbst (alemão) meu Atman (sânscrito). Atman em sânscrito é Deus, aham é ego. O Atman que está em mim, diz a filosofia oriental, é Brahman – não em forma universal como ele é transcendente – mas em forma individual quando é imanente.
Quer dizer, a identidade é a mesma, apenas o modo de existir é diferente, mas, não a realidade. Então, vamos dizer que alguém chegue ao descobrimento máximo que alguém pode fazer nesta vida: “Eu sou a minha alma, eu sou o espírito de Deus, eu sou uma emanação individual da divindade transcendental”, isto eu sou realmente, e ao redor disto eu tenho algumas coisas. Eu tenho o meu ego e eu sou o meu Eu.
Se alguém chega a esse descobrimento que é a mística no mais alto grau, isto é, a mística não o misticismo. Misticismo é um vício, mas a mística é a maior virtude que podemos praticar. Se chegar a isto, depois eu verifico que existe um tu aqui, o meu semelhante. Depois eu verifico que o mesmo Deus que está em mim, também está no tu porque ele está presente em todas as creaturas. Não pode estar ausente de ninguém, não pode haver uma creatura que não tenha um Deus imanente em si porque toda existência existe porque é uma manifestação da Essência.
Então eu descubro que o mesmo Deus que existe em mim em forma do Eu, existe também no outro Eu que vamos chamar o tu. Agora muda completamente a minha situação. Eu não preciso amar somente de ego para ego como antes...- superficialmente, perifericamente. Agora eu posso amar centralmente. Eu posso amar de profundidade para profundidade, do meu Eu divino para o Eu divino do outro.
Agora acabou-se com o altruísmo propriamente, acabou-se com a filantropia social, com sentimentalismo. Isso depois pode aparecer como efeito secundário, mas, o efeito primário é sempre: “eu vejo Deus em mim, eu vejo Deus em ti e como eu me amo com toda força do meu ser, então eu verifico que o mesmo Deus imanente também existe no outro”. Então para mim não há nenhuma virtuosidade propriamente, não há nenhuma moralidade. Não há necessidade de uma moralidade para amar o próximo. Aqui eu o amo não por motivo de moralidade, não por motivo de altruísmo, não filantropia que são sempre amores periféricos, mas eu amo o meu próximo por causa da verdade. A mesma verdade divina que está mim está nele.
Quer dizer, agora temos um triângulo 


   (antes tínhamos uma linha reta aqui, quando era de ego para ego. (OO). Era uma coisa muito incerta porque de ego para ego eu não posso amar realmente. Quando o outro ego não é amável, eu não posso amar um ego que não é amável. Alguns egos não são muito amáveis. Então, eu condiciono o meu amor a uma exterioridade. Quando o tu é amável eu sou capaz de amar, mas quando deixa de ser amável acabou-se a história. E, como o tu pode mudar sempre; na juventude pode ser muito amável, na velhice pode ser nada amável – então, o nosso amor está dependendo das circunstâncias fortuitas de tempo e espaço.
Isso geralmente acontece na humanidade. Mas, quando alguém chega a descobrir o âmago, o Eu, o Deus em mim, então, nada interessa. Não interessa o tempo e espaço porque tempo e espaço não podem modificar nem o meu Eu, nem o Eu do meu próximo. Porque nós somos eternos no nosso centro, nós somos imutáveis no nosso centro, não nas nossas periferias.
Então, aqui acontece uma coisa completamente diferente do que geralmente existe no altruísmo, na erótica e em qualquer espécie de amor de ego para ego. Aqui pela primeira vez descobrimos o ponto fixo de Arquimedes.
Arquimedes era um grande matemático de Ciracusa na Cecília, e descobriu o ponto fixo. É autor de muitas invenções técnicas. Ele disse: “dai-me um ponto fixo no universo e eu sou capaz de deslocar todo o universo dos seus eixos”. Ninguém compreendeu essas palavras. “Dai um ponto fixo no universo movediço” porque todo no universo está em movimento, nada é fixo. Tudo é eterno fluxo. Então Arquimedes disse: “Se eu encontrasse um ponto imóvel no universo, eu teria poder sobre todo o universo, porque eu poderia assentar a alavanca no ponto fixo” (ele foi o inventor da alavanca).  Não podemos assentar a alavanca em ponto movediço, ela não funciona. Temos que assentar a alavanca em ponto fixo se queremos levantar um peso com a outra ponta (o centro que apóia a alavanca tem que ser fixo). Então diz Arquimedes: “Dai-me um ponto fixo no universo e eu terei poder de deslocar todo o universo dos seus eixos”.
O Eu em mim, o Eu em ti ou em qualquer creatura é um ponto fixo. Não depende de tempo e não depende de espaço. Simplesmente é, mas, não depende do existir. O existir acompanha tempo e espaço. Ora existe assim, depois existe assim...,- é eternamente mutável o existir; mas se eu descobrir o meu ser, a minha Essência, então eu tenho um ponto fixo. E aí o outro pode mudar como quiser. Pode ser bonito ou feio, jovem ou velho, grato ou ingrato, educado ou mal-educado. Nada disto pode modificar o amor que eu tenho ao próximo. As periferias podem mudar, mas o centro não pode mudar. O centro é eterno
Quer dizer, aqui nós temos o caminho aberto para o que nós chamamos ética. Nós não identificamos a ética com a moralidade, nem com altruísmo, nem com filantropia, com nada disso. Para nós a ética é um transbordamento irresistível e espontâneo da mística. Se alguém nunca entrou na mística, se ele nunca teve experiência de Deus, ele não pode ter ética. Ele pode ter muita moralidade, muita filantropia, muito altruísmo, mas, isto não é ética. Ética está além de todo altruísmo, de toda moralidade.
No dicionário sempre consta que ética e moralidade são sinônimos. Na filosofia não é verdade. Para nós, ética é um transbordamento da mística, mas a moralidade não é um transbordamento da mística. Eu posso ter moralidade sem ter nenhuma experiência mística. Geralmente os homens têm moralidade, altruísmo para com seu próximo, mas isso qualquer ateu pode ter. Não precisa ter nenhuma experiência nem de Deus, nem de si. Simplesmente por sentimentalismo humano podemos ter moralidade, podemos ter altruísmo, podemos ter filantropia, mas, nunca podemos ter ética. A ética é o produto imediato da mística.
Quando alguém chega a esse conhecimento de que “eu sou essencialmente o que Deus é” ou segundo as palavras do Mestre: “Eu e o Pai somos um, o Pai está em mim e eu estou no Pai, mas o Pai é maior do que eu” – a transcendência é maior que a imanência. Então “eu e o Pai somos um, o pai está em mim e eu estou no Pai, mas o pai é maior do que eu”. 


Transcendência

Quando alguém chega a essa experiência, eu digo, a experiência não é pensamento (cuidado que não confundam experiência com pensamento). Nós podemos pensar isto calmamente sem ter nenhuma experiência, podemos até gostar de pensar – podemos querer, mas, nem pensar, nem querer, nada disto são experiência. A experiência é uma espécie de invasão cósmica dentro de nós. Uma invasão que parece vir de fora, mas o cosmos não está só lá fora, também está dentro de nós. Mas não temos a impressão que uma invasão cósmica tem que vir de fora de nós.
Só mais tarde descobrimos que uma invasão cósmica também pode vir de dentro de nós porque nós também somos o cosmos. Mas, se alguém tem a experiência mística que no Evangelho chama “Eu e o Pai somos um, o Pai está em mim e eu estou no Pai” depois vem as outras palavras “por isso as obras que as faço não sou eu que as faz, é o Pai em mim que as faz” - a ética. Primeiro ele fala da mística – ‘Eu e o Pai somos um’ – depois diz, e porque isso é verdade (eu e Deus somos um) – por isso as obras que eu faço não é o meu ego que faz estas obras – mas, é o meu Eu, é Deus em mim que faz estas obras – porque de mim mesmo eu nada posso fazer.
Quer dizer, ele passa da mística do primeiro mandamento para a ética do segundo mandamento. E quando o doutor da lei quis saber qual era a coisa mais importante, ele diz: a mais importante é: “Amarás o Senhor Teu Deus”, e depois acrescenta o que o outro não tinha perguntado. O doutor da lei não tinha perguntado pela ética, só tinha perguntado pelo que nós chamamos mística. Mas ele manda ver, não pode ter verdadeira mística sem que ela se manifeste em forma de ética. Por isso ele acrescenta: “amarás o teu próximo como a ti mesmo”.
Depois vem aquela celebre parábola do Samaritano – onde tinha um tu (um próximo) que não era humanamente nenhum amigo do Eu. Aqui vem aquele viajante que ia de Jerusalém para Jericó, e à beira da estrada encontrou um ferido desconhecido que ele nunca viu, que não era parente dele, não era nem conhecido dele – teve ética para com ele, porque ele viu no ferido mais do que o ego dele. Ele viu, o mesmo Deus que está neste ferido é o ‘mesmo Deus que está mim – e como eu me amo a mim mesmo por causa deste Deus que está em mim, eu amo também este meu próximo’.
Por causa deste mesmo Deus que também está nele... – porque não há dois deuses. ‘O mesmo Deus que está em mim está nele’... Então eu posso de uma só vez, praticar mística e ética, quando eu tenho a experiência do Deus imanente. E quando alguém chega a essa experiência mística, ele realiza neste momento a sua imortalidade. Isto é muito importante porque quando se fala em imortalidade todo mundo pensa que a imortalidade leva a milhares e milhões de anos. ‘Eu sou imortal durante mil anos, dois mil’...- não tem nada que ver com tempo e espaço.
A imortalidade é a experiência momentânea da identidade essencial entre mim e Deus. Não tem nada que ver com tempo. Nós atribuímos isto ao tempo, mas o tempo não existe. O tempo é pura ficção. Tempo e espaço são ilusões, mas a imortalidade não é uma ilusão. Então eu me imortalizo no mesmo momento em que eu tenho a experiência da identidade de Deus e minha alma. Eu me imortalizo neste momento. Eu nunca mais deixarei de ser imortal. Quem uma vez se imortalizou realmente é imortal para todo o sempre. Mas, a imortalidade não tem nada que ver com tempo. Não tem nada que ver com milhares e milhões de anos e séculos. Isto é apenas uma conseqüência externa. Não tem nada que ver com a essência da imortalidade.
Muitos pensam que nós somos imortais por natureza e que todos somos automaticamente imortais. Mas, os grandes mestres não dizem isto. Eles dizem que nós somos imortalizáveis e que nós nos devemos tornar realmente, atualmente imortais. Se eu não fosse imortalizável, eu nunca me poderia imortalizar. Parece que os seres inferiores a nós não são imortalizáveis (não vamos discutir sobre isto). Parece que eles voltam da sua existência para a pura essência. Nós podemos permanecer na existência nossa individual realizando assim a nossa imortalidade.
A ala esquerda do budismo, como eu já disse, entende por imortalidade a diluição da existência humana na Essência divina... – a diluição, a absorção, portanto, o aniquilamento. Isto nós não entendemos por imortalidade. Nós entendemos por imortalidade a integração, mas não a diluição, da nossa individualidade humana na universalidade divina; ou a integração da existência humana na Essência divina. A nossa existência não vai ser destruída – a nossa existência vai ser integrada.
Quando eu integro uma coisa na outra eu não destruo essa coisa, eu a incorporo – eu coloco dentro. A imortalização é uma integração da existência humana individual na Essência divina universal. Isto os grandes mestres entendem por imortalidade. E isto se pode fazer num instante – não precisa levar muitos anos para se imortalizar. A imortalização é experiência momentânea, não precisa levar nenhum segundo.
A experiência mística é o processo da imortalização e todo aquele que uma vez na sua existência, seja terrestre, seja extraterrestre teve a experiência nítida, clara e absolutamente certa de que a Essência divina está em mim em forma de minha essência humana, Eu – então ele está imortalizado e não precisa preocupar-se com tempos, séculos e milênios, a ver se ele ainda vai continuar imortal. Não, isto tudo é ilusão.
De maneira que esta visão entre a essência única e existências múltiplas, mais a presença da Essência em todas as existências e a consciência clara de que isto é assim é o problema máximo da sua existência. É o autoconhecimento e auto-realização ao mesmo tempo.

*  *  *

TRANSCRIÇÃO DA AULA 10 - Matemática da Evolução



Curso 78
Aula 10 – data: 27/06/78
Matemática da Evolução
Huberto Rohden

            Bem, meus amigos. Agora, vamos fazer o nosso [...]. Vou falar de dois homens gênios, mas muito familiares. Gênios não podem viver muito tempo neste mundo, Moisés, antigamente e mais recentemente, Jesus. Ambos, completamente fora do ambiente. Incompreendidos e por isso caluniados. De Jesus disseram que ele era possesso do diabo, que tinha aliança com Satanás que era um subversivo, que proibia dar tributo a César, que expulsava os demônios pelo poder de Belzebu, que era um blasfemo e que era louco. Tudo isso diziam de Jesus. Não tenham muita esperança de sair melhor.
            Bem, de Moisés diziam coisas horríveis também. Disseram há 2 000 anos e está sendo repetido isto aqui no ocidente cristão - que ele disse que Deus creou o mundo do nada. Moisés nunca disse isto, isto é invenção da teologia. Moisés disse que Deus fez o 1o homem de pedacinho de barro, de um punhado de barro, soprou nele e saiu o homem. Isso Moisés não disse. Disseram que Deus fez a 1a mulher de uma costela de Adão, coitado, arrancou uma costela para fazer a mulher. Tudo isto foi atribuído a Moisés. E o pior de tudo foi atribuído a Moisés que Deus amaldiçoou o 1o casal porque se acasalaram. Mas, Deus tinha mandado: multiplicai-vos! De que jeito? Então eles acasalaram e Deus lançou três maldições em cima dele. Atribuíram a Moisés.
            Nada disto foi dito por Moisés. Foi dito por seus discípulos, é claro, porque Moisés não escreveu nada - como Jesus não escreveu nada, Moisés não escreveu nada. Os gênios não escrevem livros. Só os talentos. Os talentos são analíticos. Os gênios são intuitivos. Os gênios não escrevem livros. Eles confiam na verdade e não precisam faltar para garantir a verdade. Mas, os discípulos de Moisés naturalmente ao escrever, reproduziram a intuição cósmica de Moisés através de análises intelectuais, então saiu assim: que o mundo foi creado do nada e que o homem foi feito de barro e a mulher foi feita de uma costela e Deus amaldiçoou o 1o casal porque se acasalou.
            Bem os gênios têm que ser incompreendidos. Nenhum gênio pode ser compreendido pelos talentos. Os talentos são analíticos, são profanos, são egos. O gênio é sempre intuitivo e é Eu. O Talmude hebraico que é a teologia dos judeus até hoje diz que Moisés não era um Adam. Era um Ish. Perguntem aos rabinos o que quer dizer Adam e Ish. Já falei com três rabinos judeus sobre isto. Uma vez quando voltei de Portugal, a bordo do navio nós conhecemos um rabino que confirmou também. Moisés não era um Adam, mas era um Ish. Adam é um homem terrestre como nós. Um Ish é um homem cósmico, como Jesus. Há dois Ish (s): Jesus, conhecido, e Moisés no Antigo Testamento.
            Naturalmente quando esses homens falam, os outros não compreendem. Entendem outra coisa do que eles dizem. E assim Moisés passou por ter dito essas três ou quatro bobagens. Não é culpa deles. É culpa nossa. Culpa dos Adam(s) e não dos Ish(s). Os ish(s) são os gênios, os Adam(s) são os talentos. Por exemplo, fiz um desenho, aqui está o sinal (∞) infinito, que os matemáticos usam até hoje.




Logos → Luz (Fotos) → energia (hydor) → matéria (hyle)

Sinal do infinito - que no Gênesis se chama: os Elohim crearam o universo. Os Elohim – Moisés nunca fala em Deus. Elohim quer dizer as forças creadoras, no plural. As Potências creadoras – porque Moisés não era monoteísta, nem um gênio é monoteísta. Nenhum. Todos os gênios são monistas. Eu já expliquei a diferença entre monoteísmo e monismo. Os gênios sabem que toda a existência emanou da Essência. Isto é o sinal da Essência, do Infinito, do Absoluto, que Moisés chama os Elohim.
             Começa assim o Gênesis: no princípio os Elohim crearam o céu e a terra, mas a terra era invisível. As traduções não dão. Traduziram mal. A terra era um caos, está lá na tradução. No grego e no hebraico está, mas a terra era invisível. Quer dizer, a terra não era material ainda. Era simplesmente astral. Invisível é a energia. Visível é a matéria. O Gênesis diz que a terra estava em estado energético, estava em estado astral ou bioplásmico como dizem hoje. E depois ela se congelou em matéria. Einstein diz: quando a energia se congela então dá a matéria. Mas quando a matéria se descongela dá a energia. E quando a luz se condensa dá energia. E quando a energia se descondensa dá luz.
No desenho acima, aqui está o infinito, a 1a emanação do infinito, da Divindade - se quiserem, de Brahman, de Tao - é chamada no Evangelho o Logos. No princípio era o Logos. E o Logos estava com Deus e o Logos era Deus. E tudo foi feito por ele, tudo que foi feito, foi feito pelo Logos.
            Quer dizer, Moisés atribui a creação do mundo, não aos Elohim, não à Divindade, não ao Infinito, a Brahman, mas aos creadores subalternos que ele chama o Logos – e que Moisés chama Elohim. E depois, entre os creadores subalternos, primeiro produziram a luz. Combina maravilhosamente com a nossa ciência de hoje. Einstein diz: todas as coisas deste mundo vieram da luz. Os 92 elementos da química são produtos da luz cósmica. É Einstein que diz. Teoria da atômica de hoje.
            Quer dizer, isto está rigorosamente, isto é o infinito, isto é o creador (∞) e a 1a creação é luz. Fotos. Fotos em grego quer dizer luz. E depois a luz se condensou e saiu o mundo astral. Energia é astral. O radical de energia é energo, em grego.  O Gênesis não usa a palavra energia. Ele diz que é hydor – água. Mas, no Gênesis a palavra água sempre se refere ao mundo astral. Quando o Gênesis fala em água ele não quer dizer água física. Ele quer dizer água astral. No princípio a terra era invisível, mas o espírito dos Elohim incubava as águas. Incubava, não pairava. Incubar é como a galinha, incuba os ovos. Por que uma galinha incuba os ovos? Para sair o pintinho. Então, o espírito de Deus incubava o mundo astral – que é chamado água. Água e astral é a mesma coisa na Bíblia.
            Daí veio o infinito, depois o 1o creador na forma do Cristo cósmico, o Logos, o verbo diz a Vulgata. No princípio era o verbo. Ele creou todas as coisas e no princípio tudo era luz. A 1a creação é luz. Depois vem energia (energo). Depois vem hyle que é a palavra grega para matéria. Esta é a ordem descendente da creação. A creação começa com a luz, começa com o espírito, aqui é a luz, aqui é energia. O mundo era ainda puramente energético. Era pura energia, não era ainda matéria. Depois o mundo se congelou, diz Einstein, em forma de matéria, hyle em grego. Aqui aparece o mundo material que é o último produto da creação. O 1o produto é a luz. Depois vem energia e depois é que aparece a matéria.
Estranhamente está de acordo com a nossa ciência mais moderna. Porque todo cientista hoje sabe: a matéria é o congelamento da energia. Congelar quer dizer, virar passível - quando a água congela é porque está muito fria, então ela fica dura. Mas a água é líquida, o gelo é sólido, isto é congelar. Quando a energia congela fica menos energética, menos ativa, então vira matéria. Quer dizer, a coisa mais passiva, menos ativa do mundo é matéria. Depois vem energia que é mais ativa. Depois vem foto - luz e finalmente vem Logos, o espírito.
Tudo isso é a árvore descendente da creação. Eu escrevi ao lado creação. Na Filosofia nós não podemos dizer criação porque é outra coisa. Na escola primária vocês não precisam distinguir entre crear e criar. Na filosofia nós temos obrigação de distinguir entre crear e criar. Isto aqui é creação, não é criação.
Crear é quando os finitos vêm do infinito. Isto se chama creação. O espírito finito, a luz finita, a energia finita, a matéria finita são creações do infinito. Existências vindas da Essência. Isto é a Essência. Isto são as existências.


Nós estamos descobrindo cada vez mais que os grandes gênios como Moisés disseram a verdade. Mas disseram a verdade em outros termos. Nós estamos descobrindo pouco a pouco que eles tinham razão, mas falaram outra linguagem. No 1o dia diz Moisés, os Elohim crearam a luz. Os Elohim, Logos que em sânscrito se chama Brahma, não Brahman. Brahman, em forma neutra é o infinito. Brahma, em forma masculina é o Logos. São as forças creadoras do universo. Chama Brahma, Elohim, Logos. Crearam a luz. No 1o dia os Elohim crearam a luz. E depois veio mundo. O mundo não era matéria ainda. Depois o mundo se tornou matéria. Aqui é o ponto mais baixo da creação. Agora começa o movimento contrário. Evolução. Creação vai de alto para baixo e a evolução vai de baixo para cima. Aqui começa a





evolução. 

Então aqui a matéria produziu bios – palavra grega para vida (biologia, biografia). Bios veio da Hyle – da matéria. Rigorosamente certo tanto na revelação como na ciência - o bios produziu o noos da inteligência. A inteligência foi produzida pela vida. E nós estamos aqui, por enquanto. Não chegamos ainda na razão. Razão, Logos em grego é a nossa faculdade puramente espiritual. Intuitiva. Noos é intelecto, é analítico. Tem que analisar para compreender. Logos não é analítico, é intuitivo. Sabe por intuição. Nós estamos por enquanto no intelecto.
Então não estamos fazendo a hipótese de teoria – donde é que vem a nossa inteligência? Agora estamos diante dum enigma. Como é que o homem se tornou inteligente? Os outros animais não são inteligentes como nós. Eles têm inteligência biológica, mas não têm inteligência abstrata, como nós. Nenhum animal pode calcular a distância entre a terra e o sol. Nenhum animal vai fazer teoria sobre a luz. Isto - somos nós que fazemos porque nossa inteligência é abstrata. E a inteligência animal é naturalmente concreta.
Então eles perguntam: donde é que vem a nossa inteligência? Bem dizem -, ela veio do animal. Bios. O intelectual veio do vital. E donde veio o vital? Veio do material. O material produziu o vital e o vital produziu o intelectual e o intelectual vai produzir o espiritual. É coisa estranha. O menos produz o mais. Disseram: não pode ser! Então eu dei número aqui. Vamos chamar a matéria 10. Vamos chamar a vida 20. Vamos chamar a inteligência 50. Vamos chamar o espírito 100.
Espírito: 100
Inteligência: 50
Vida: 20
Matéria: 10
Então que matemática é esta? Então o 20 veio do 10? Não é possível na matemática e o 50 veio do 20? Não é possível - é contra a lógica. E o 100 veio do 50? Nada disto é possível.  Estamos diante do problema: querem saber como é que a inteligência poderia nascer neste mundo quando o homem era um puro animal e como é que ele chegou até a inteligência? Escrevem livros e mais livros e brigam nas universidades para saber de onde é que veio a inteligência. Veio do instinto animal. Mas, o instinto animal podia produzir mais do que 20? Ninguém pode de 20 dar 50.
Quer dizer, como o instinto animal era menos do que a inteligência do homem como é que a inteligência podia vir no homem? E não chegam a nenhuma solução. Por quê? Porque perderam o contato com o todo e todo o mal da ciência de hoje é isto. Só olham do animal para o homem. Não enxergam nada disto aqui. Agora se um cientista chega a saber que a vida veio da matéria porque no princípio havia vida neste mundo, mas havia matéria. E a matéria não produz vida. A vida não produz a inteligência. A inteligência não produz espírito. Mas, esperem um pouco! Isto é a linha evolutiva. Se aqui está 100 que é o espírito, 50 que é a luz, 20 que é a energia, e se aqui tem 10, esse 20 não veio do 10, e esse 50 não veio do 20 e esse 100 não veio do 50 – o 10 já veio do 20, superior. E o 20 já veio do 50 e o 50 veio do 100 e o 100 veio do infinito.
Quando se tem uma visão panorâmica, cosmorâmica, da creação e da evolução tudo é logicamente claro e matematicamente evidente. Agora como os cientistas só tomam essa linha aqui e não sabem nada desta linha aqui... – porque os cientistas não tratam da creação. Isso é religião. Isto teologia. Não vamos falar da creação. Vamos falar só da evolução. Então tomam só esse pedacinho da evolução. E não tem sentido é como se alguém dissesse: eu abro uma torneira, e sai água. Donde veio a água? Veio da torneira, não veio. Veio do encanamento, não veio. Veio da fonte. Se houvesse encanamento e torneira e não houvesse a fonte não sairia água. A fonte é isso aqui. Aqui a água desce e vem pelos encanamentos da creação.
E porque já partiu da fonte, também pode subir. A evolução é possível e pode chegar até 100 e pode ir além de 100, porque o infinito é muito mais do que 100. Então temos que tomar em conjunto tanto a creação como também a evolução como continuação. Tudo o que veio da Essência rumo à existência e baixou a existência até a matéria, também pode subir outra vez. Pode chegar à matéria - pode produzir vida não por ser matéria, mas por ser isto. Dentro da matéria está isto. E por isso a vida, o bios pode sair da matéria e da vida pode sair a inteligência e da inteligência pode vir o espírito. Tudo isso é lógico. Quando se toma evolução juntamente com creação.
Mas o cientista diz: eu só aceito evolução. Não aceito creação, que é dos teólogos, que é dos livros da Bíblia, e eu só aceito evolução. E se alguém só aceita a 2a metade, não pode explicar nada. Porque evolução não explica evolução. A evolução só é explicável na base da creação. Mas a creação é rigorosamente matemática, porque o infinito produz os finitos e os finitos podem descer, descer, descer - podem congelar-se como diz Einstein e podem chegar até aqui na matéria, mas continua tendo os finitos a força inicial e continua... Depois os finitos baixos podem subir outra vez para os finitos mais altos da matéria, podem produzir a vida, a vida pode produzir a inteligência, a inteligência pode produzir o espírito; quando se toma a coisa em conjunto.
Tudo isso Moisés quis dizer, mas ele não o escreveu, os seus discípulos escreveram; e quando a gente escreve a gente tem que analisar, e quando a gente analisa a gente falsifica tudo. Quem escreveu naturalmente não podia escrever certo. Se vocês conhecem intuitivamente uma grande verdade, notem bem, não analiticamente... Se vocês não pensarem para descobrir uma coisa, mas se lhes foi revelado, se veio uma mensagem cósmica dentro de vocês, então vocês receberam uma intuição, uma revelação, uma inspiração. Então vocês sabem intuitivamente.
Agora vocês sabem esta verdade. Agora vocês querem analisar a verdade pensando, já está falsificada. Uma verdade pensada não é 100% certa. Depois de pensar a verdade vocês vão falar a verdade. Já falsificaram mais uma vez. Depois querem escrever, falsificaram pela 3a vez... O que nós sabemos por intuição, por revelação, por inspiração, cosmicamente, portanto, o que nos foi revelado não o que foi pensado por nós, mas o que nos foi revelado por intuição, isto está certo. Mas, se vocês querem analisar uma revelação vocês estão falsificando. Porque para analisar vocês precisam pensar. O pensamento falsifica a intuição. Paulo de Tarso diz que ele foi arrebatado ao 3o céu, isto é ao ponto mais alto da verdade, que ele chama de 3o céu: Fui arrebatado ao 3o céu e lá eu ouvi ditos indizíveis. Ditos indizíveis, ele diz, algo que me foi dito ao espírito, mas eu não posso dizer com a boca. O que me foi dito ao espírito eu não posso nem pensar, nem falar, nem escrever. Quer dizer, que me foi inspirado.
Aqui eu quero analisar, mas a inspiração já veio do Logos. Agora, eu estou no noos da inteligência. Aqui eu tenho que analisar esta intuição. Se eu subir outra vez à altura do Logos, à altura do espírito, eu havia de compreender isto. O meu Logos havia de compreender isto. Esta intuição ia compreender esta intuição. Mas não pensem que esta inteligência aqui possa compreender a intuição. Todos os grandes gênios estão no Logos. Moisés estava no Logos. Jesus estava no Logos. Vou só citar dois. Agora quando nós analisarmos o que eles disseram, o que estava certo, mas depois de analisado, não está certo. E depois de falado ainda está menos certo. E depois de escrito ainda está menos certo.
Pensar é mal necessário. Falar é um mal necessário. Escrever para uns é um mal necessário. Não para todos, graças a Deus. Mas o mal necessário para todos é pensar. Todo homem pensa, bem ou mal, mas pensa. Pensar é analisar! Toda e qualquer análise é uma deturpação da intuição. A intuição é espiritual. A análise é apenas intelectual. Por isso quando vocês pensam uma coisa verdadeira que lhes foi revelada por intuição, vocês não tenham muita confiança no pensamento. Porque a revelação - são ditos indizíveis, como São Paulo diz. A revelação – o 3o céu é um dito indizível. Eu posso ouvir pela alma a revelação, mas eu não posso pensar com a inteligência isto que me foi revelado.

Parte 2

Quando nós proferimos um pensamento pela boca...-  pensar é em silêncio, mas falar já é uma coisa física. Pensar é puramente intelectual. Falar já é uma coisa física. Verbal. Aqui já está deturpado. O pensamento já é deturpado pela palavra. E se depois ainda eu for escrever aquilo que eu falei ainda deturpo mais. A maior deturpação é a materialização pela escrita nos livros, mas a humanidade toda escreve livros. E então, quando nós lemos um livro devemos saber, isto foi deturpado três vezes. Primeiro foi deturpado pelo pensamento do escritor. Depois foi deturpado pela palavra dele porque ele disse estas coisas. E em 3o lugar foi deturpado pela materialização de tinta e de papel.
Quer dizer, tudo isso são males necessários. A humanidade não pode viver sem pensar, sem falar e sem escrever. Os grandes mestres não escrevem. Jesus não escreveu nada. Moisés não escreveu nada. Buda não escreveu nada. Os seus discípulos escreveram. Os discípulos de Jesus escreveram os Evangelhos, Jesus não escreveu nada. Uma única vez, diz os Evangelhos, ele escreveu com a ponta do dedo na areia, mas o vento levou. Escreveu o quê? Os pecados dos fariseus que estavam acusando aquela adúltera. A única vez que o Evangelho diz que Jesus escreveu. Quer dizer que ele sabia escrever. Mas nunca pegou papel e tinta para escrever um livro. Porque escrever não é para os gênios. Escrever é para os talentos. Os discípulos de Jesus – os talentos primitivos avançados - alguns eram muito primitivos - mas todos sabiam escrever.
Naquele tempo não havia ainda analfabetos. Isto é invenção moderna. Entre os judeus não havia um analfabeto. Não se esqueçam, entre os judeus daquele tempo não havia um analfabeto. Nem há hoje, porque é obrigatório, por motivo de consciência entre os judeus, saber ler e escrever porque eles têm que ler as revelações de Moisés e ler os Salmos e outros escritos sagrados. Desde os tempos antigos todo hebreu e todo judeu de hoje sabe escrever. Porque é obrigação. Jesus também sabia e os discípulos dele todos sabiam escrever. Eram pobres pescadores. Mas pescadores alfabetizados. Não pescadores analfabetos. Isso é invenção moderna.
Isto é mais ou menos o esquema como podem compreender o conjunto dos fenômenos que ocorrem ao redor de nós pela evolução. Pela evolução automática da natureza e pela evolução espontânea da nossa consciência, que nós dirigimos a nossa própria evolução, o homem. A natureza não dirige. Ela é dirigida. O mundo animal é dirigido por uma consciência cósmica. O mundo vegetal é dirigido por uma consciência cósmica. O mundo material é dirigido pela consciência cósmica. Conosco, com a nossa inteligência começa uma autodireção. Eu dirijo o meu destino segundo a minha inteligência. Mas como a inteligência ainda não é perfeita, ela é apenas 50%, vamos dizer, nós podemos errar. Pela inteligência nós erramos muito. Às vezes nós dirigimos bem nosso destino, às vezes nós dirigimos mal. Não por maldade, mas por ignorância.
Se nós subíssemos a inteligência do noos para a razão espiritual do Logos nós teríamos absoluta certeza em dirigir o nosso destino. Nós nunca havíamos de falhar nem um ponto o nosso destino. Mas, quem é que está aqui no Logos? Eu vou fazer um desenho para vocês entenderem melhor isto.

                           
Uma linha horizontal. Aqui o ego. Aqui tem um pólo, aqui tem outro pólo. Aqui o homem segurança, aqui liberdade. São os dois privilégios da nossa inteligência. Dá-nos segurança e dá-nos liberdade. Mas quanto maior é a segurança, menor é a liberdade. Pode estar certo disso. Se aqui tem 90 de segurança, aqui tem 10 de liberdade. O mais que podemos conseguir é 50 de segurança e 50 de liberdade. É o máximo que o homem pode conseguir nesse plano aqui. 50% de segurança sem falhar e 50% de liberdade. Mais - nós nunca vamos conseguir.O animal é diferente. No animal, não intelectualizado, aqui tem 100 de segurança. Toda a natureza tem 100% de segurança, zero de liberdade. 100 segurança, contra zero liberdade. É evidente. Nós podemos ter 50 de segurança e 50 de liberdade. Quanto mais seguros, menos livres e quanto mais livres menos seguros nós somos. Automaticamente certo!




Agora, se nós fizéssemos esta manobra com os dois pólos do nosso ego para cima – aqui estaria o nosso Eu, na vertical. Aqui o nosso ego. Aqui eu teria 100 de segurança e 100 de liberdade. Isto é a evolução mais alta do homem quando ele adquire 100% de segurança na sua vida e ter ao mesmo tempo 100% de liberdade. Isto são os grandes gênios da humanidade. O Cristo. Eles são inteiramente livres na sua segurança. Eles são livremente seguros e seguramente livres. Vocês podem imaginar isto? Isto é o máximo da evolução humana.
Na natureza é 100 de segurança e zero de liberdade. Isso é aqui no bios. Aqui é 100 de segurança. A natureza é absolutamente segura, não falha. Qualquer coisa que a natureza faz, ela nunca falha, porque ela não tem liberdade.
Estou tratando com abelhas, ultimamente outra vez. Nos apiários a gente observa a vida das abelhas. A abelha nasce com absoluta segurança, porque ela não tem inteligência própria. É dirigida pela inteligência cósmica. Ela faz aqueles alvéolos hexagonais certinhos no primeiro dia de sua vida. Não aprendeu nada. Sabe tudo quando nasce. Os insetos sabem tudo quando nasce. Uma abelha não faz um alvéolo errado. É sempre de seis lados. Os alvéolos são muito bem controlados. As abelhas fazem alvéolos assim, mais ou menos. Naturalmente não tão perfeitos quanto os delas.






Estes dois ângulos são iguais e estes quatro ângulos laterais são iguais entre si. São quatro ângulos obtusos. São iguais. Estes dois são diferentes, e a abelha sabe disto. Ela faz dois ângulos menores mais agudos e menos obtusos e quatro ângulos todos obtusos. Todo alvéolo é feito assim. Se vocês colocam errado não está certo. Por que é que ela coloca assim? Porque o ângulo agudo resiste mais ao peso que o ângulo obtuso. E a abelha sabe disso. Se vocês fazem uma coisa assim vocês põem mais peso dentro do que uma coisa assim. Se vocês fazem muito obtuso que é aberto, não tem resistência. E a abelha sabe disto. Quer dizer, ela tem segurança desde o primeiro dia de sua vida. Não erra. Nunca faz os seis ângulos iguais. E já sabem no 1o dia. Porque o instinto é 100% seguro. A inteligência é só 50% segura porque tem 50 de liberdade. Segurança diminui a liberdade e liberdade diminui a segurança.
É bom saber isso: segurança diminui a liberdade e liberdade diminui a segurança na horizontal, no ego. Agora, na vertical, não. Na vertical vocês podem ter 100% de segurança e 100% de liberdade. Isso é o ponto mais alto da nossa evolução no Logos. Aqui são 50 – 50(ego). Aqui é 100 de segurança contra zero de liberdade (animal). Não tem a menor liberdade no instinto, mas tem muita segurança.  A nossa inteligência quer dar-nos saúde, mas falha muitas vezes e nos dá doença em vez de saúde. Mas, o nosso instinto orgânico nos dá saúde perfeita se nós obedecermos à voz do instinto.
Muitos pensam que a inteligência tem que corrigir a natureza. Não é verdade. A natureza é muito mais sábia que toda a inteligência. A natureza é instinto. E a inteligência tem mais liberdade, mas, não tem segurança. Se nós queremos os dois juntos segurança e liberdade - perfeitas, então nós temos que ultrapassar a nossa inteligência e entrar aqui. Por isso os grandes gênios da humanidade não precisam de farmácia. Não precisam de remédios porque eles se guiam pelas leis da natureza que têm 100% de segurança - unidos a 100% de liberdade. Por isso não ficam doentes. Moisés nunca esteve doente. Jesus nunca esteve doente. Nenhum dos dois teve doença. Moisés viveu 120 anos em plena juventude, diz o texto. Também não há velhice. Quem se guia pelas leis da natureza não envelhece. Agora, a nossa inteligência nos deixa envelhecer. A natureza nos conservaria em eterna juventude como Moisés. Com 120 anos. Também não há morte compulsória.
Quando há segurança não há morte compulsória. A gente pode aceitar a morte quando quer, mas, não é obrigado a aceitar. Moisés não morreu, nós sabemos que ele subiu ao Monte Nebo com 120 anos e se transformou em corpo astral. Transformou o seu corpo material em corpo energético que se chama astral. Jesus não foi obrigado a morrer. Ele disse: ninguém me tira a vida sem eu querer. Eu dou a minha vida quando eu quero e tomo a minha vida quando eu quero. Destruí este templo do meu corpo, eu vou reconstruir em 3 dias.
            Assim falam os gênios: ninguém me pode matar contra a minha vontade. Eu me deixo matar porque quero, mas vocês não me podem matar porque vocês querem. Isso seria 100 de segurança com 100 de liberdade. Mas, nós estamos em caminho para isso, mas nós estamos aqui; estamos vindo do bios, da vida instintiva, estamos vindo até da matéria, do nosso corpo, estamos aqui no vital, estamos no intelectual e vamos ver se algum dia nós chegamos até a zona espiritual.
Portanto, dizer que o homem veio do animal, que é isto aqui, bios é vital é animal, não é verdade. O homem não veio do animal. Ele veio através do animal, isto é certo. O animal não veio do material, veio através do material e o material veio através de energia, e a energia veio através da luz, e a luz veio através do espírito e o espírito veio do infinito. Assim está certo. Tomando o conjunto da linha podemos perfeitamente explicar a evolução, mas tomando a evolução em separado estamos diante de um eterno enigma. Como é que o maior podia vir do menor? Aqui o maior vem do menor. Porque já está o maior. Se começasse aqui a coisa do 10, aqui não poderia haver o 20, nem o 50, nem o 100.
Mas, como isso é uma evolução e não é o princípio – o princípio é a creação – por isso podemos dizer perfeitamente: o homem veio através do animal, veio através da matéria, veio através da energia, veio através da luz, veio através do espírito que veio do infinito. Assim está tudo certo. É uma questão de visão total do assunto.

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                        Espírito (Logos)
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                           Luz (Fotos)
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                        Energia (energo)
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                        Matéria (Hyle)
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                         Vida (bios)
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                      ....  Homem



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TRANSCRIÇÃO AULA 11 - O itinerário do homem



Curso 1978
Filosofia Univérsica
Huberto Rohden
Aula 11 – 08/08
O Itinerário do Homem

            Adquiriram aí o meu livro: “A Nova Humanidade”. Não é a última palavra sobre o homem, nem a penúltima, nem a antepenúltima. É apenas a primeira. Ninguém vai dizer a última palavra sobre essa pobre humanidade, gloriosa e tão pobre. Eu apenas dei umas setas na encruzilhada para que o leitor possa mais ou menos saber que direção tem que andar. Continua a aparecer livros sobre o homem. Sempre no mesmo sentido. ‘O homem esse desconhecido’ (Alex Carrel), ‘O homem esse enigma’, ‘O homem esse fenômeno paradoxal’, ‘O homem esse misto de grandezas e de misérias’. São todos livros desses filósofos escritores. Eu pergunto: por que não se pode dar uma palavra definitiva sobre o homem? É sempre enigmático, paradoxal, desconhecido.
            Vou indicar duas razões dessa confusão de milhares e milhares de anos, porque não temos clareza sobre nós mesmos. Nós conhecemos melhor os átomos e os astros do que o homem. Há duas razões principais porque o homem não é devassável. Não é conhecido, nem cognoscível. A primeira dessas teorias vem apenas do século passado, tem um século. O darwinismo. A outra tem dois mil anos, é pior de todas. Os darwinistas acham que o homem veio do zero e chegou até um. Do zero inteligência, e agora já adquiriu inteligência. Ninguém sabe segundo que matemática deste mundo se pode fazer um de um zero.



Se o animal não tem inteligência e se nós temos, como é que do não podia haver um sim. Dizem que é evolução, mas alguém nunca conseguiu transformar zero em um. Vocês podem multiplicar zeros, adicionar zeros e nunca vão ter um. Se o animal não tem o início da nossa inteligência, como é que a nossa inteligência podia vir do zero inteligência do animal? Vocês vão dizer: ‘mas o animal tem inteligência’ – é claro que ele tem. Mas não tem a nossa. Ele tem inteligência biológica, nunca saiu daí. Nós temos uma inteligência analítica, inteiramente diferente. O animal sabe o que ele tem que fazer para arranjar comida e para se multiplicar. Essas duas coisas ele sabe. Inteligência biológica.
Nós (os seres humanos) calculamos a distância entre a terra, o sol e os astros. O animal nunca fez isto. Nunca se interessou para saber que distância vai daqui ao sol. Nunca calculou a velocidade da luz. Nunca fez nada disto que nós fazemos. Nunca! E o animal tem os melhores mestres hoje em dia. Imaginem, vocês vão a um circo...- que coisa maravilhosa fazem cachorros, elefantes e focas e outros animais. Até andam de bicicleta e tudo. Parece que ele tem mesmo inteligência. Vocês largam o animal no mato e daqui a pouco, perdeu tudo, tudo, tudo...- ele não continua a intelectualizar-se. Por que não? Porque aquela inteligência que ele demonstrava no circo não era dele, era nossa, grudada nele. Isso chama treinamento. Ele obedece ao treinamento, mas não é inteligência dele. É apenas uma inteligência passiva. Ele aceita porque nós o recompensamos quando ele trabalha bem e castigamos quando trabalha mal. Então, ele sabe: ‘eu tenho que trabalhar bem, senão eu apanho’. Isso é inteligência dele. Vai para o mato - perde tudo, tudo, tudo. Ela não continua sua a cultura intelectual, com os melhores mestres que ele tem hoje em dia.
Nós não tínhamos nenhum mestre. Aparecemos aqui na terra sem nenhum mestre. E arranjamos tudo por nós mesmos. Quer dizer que são duas inteligências muito diferentes. Inteligência biológica do animal - inteligência abstrata e analítica do homem. De maneira que não podemos dizer que a nossa inteligência tenha vindo deles. Do animal. O menos não produz o mais. Isto é contra a lógica e contra a matemática. O zero não produz um. Mas este não é o maior impedimento porque muitas pessoas não se ocupam com essa história de darwinismo e ciência.



 Agora vem a segunda que é muito pior que a primeira...- que nós aprendemos no catecismo e na escola dominical e nas teologias. Já tem dois mil anos de existência no cristianismo. Esta hipótese que eles pensam que é verdadeira, diz o seguinte: “o homem foi creado um ser perfeito. 100% perfeito, a imagem e semelhança de Deus, a coroa da creação. Então vamos pôr 100% de perfeição, seria o homem. Deus o teria feito... 100% perfeito, mas, depois veio alguém e levou o homem a um (não a zero). Eles chamam, a queda do homem. De 100 de perfeição que Deus o teria feito, ele caiu para 1 de perfeição. Quem é que fez isto? Alguém que era mais poderoso que Deus, é claro. Porque o derrotado é mais fraco, o vencedor é que é o mais forte. Alguém derrotou a obra de Deus, segundo as nossas teologias. Eu não estou dizendo isto. Segundo as nossas teologias o cem de Deus foi derrotado pelo diabo até um. Quer dizer, queda do homem”.
Isto é logicamente insustentável, esta queda do homem. Porque não pode haver uma creatura que possa destruir as obras do creador. Não há nenhuma possibilidade de nós derrotarmos Deus. Podemos fazer o que quisermos, nunca O vamos derrotar. Por que, se ele é onipotente, e nós não somos onipotentes? De que modo nós vamos derrubar a obra de Deus? É claro que uma creatura ainda que fosse Satanás, Lúcifer, Diabo, não interessa o nome, não podia destruir o homem100% perfeito e reduzi-lo a 1% - vamos dizer. Agora o homem está aqui no abismo um. Então, este Deus ficou com pena do homem e diz, ‘mas eu vou consertar a coisa, o diabo estragou tudo, mas vocês vão ver que eu conserto a obra quebrada. Vou chamar o redentor’. Levou milhares de anos, não sabia bem como fazer (parece) e finalmente veio o chamado redentor para refazer a humanidade destruída pelo satanás. Isto é teologia.


Vamos ver, aqui vem a linha ascensional da redenção. Aqui temos três coisas: Deus, o diabo, e o redentor. Aqui, (pensam muitos) nós estamos subindo outra vez. Há 2000 anos, mas ninguém viu nada da redenção até hoje. Alguém viu? Eu não vi nada. Ninguém viu nada da redenção, cada vez pior. Os jornais da semana passada disseram: ‘só em São Paulo há um assalto ou um crime de roubo cada 30 minutos’. E o delegado da polícia diz, ‘é uma situação muito favorável, é excelente, pelos outros paises é muito pior. Nos Estados Unidos é de 10 em 10 minutos que tem um crime – a média. E nós, é só de 30 em 30 minutos. Estamos tendo muita vantagem ainda’. Isto é redenção? Que espécie de redenção é esta? E isto no mundo cristão, não no mundo pagão; no ocidente cristão, porque um terço da humanidade diz que são cristãos. Os dois terços que são da Ásia são brahmanistas, budistas, xintoístas e assim por diante.
Agora, se houvesse redenção nós não veríamos tantos hospitais e tantos hospícios e tantas penitenciárias, por toda parte; que é o estado maior da nossa miséria. Mas o exército está aqui fora, o estado maior está nos hospitais, nos hospícios e nas penitenciárias. O exército está aqui fora. Isto não é índice de redenção. Não houve nenhuma queda e não houve nenhuma redenção, pela experiência que nós temos, não houve.
Então, todas estas teorias, que Deus teria feito o homem 100% bom e perfeito, à imagem e semelhança de Deus, veio uma creatura poderosa e derrubou, e depois veio um enviado de Deus, quis consertar a obra. Mas não há nenhum indício disto, depois de dois mil anos. Não se pode dizer que haja redenção. Estas três coisas são negativas. O homem seria um objeto feito por Deus. Quer dizer, Deus fez o homem 100% bom. O homem é um objeto dessa feitura de Deus. Depois o diabo o derrubou e mais uma vez o homem é um objeto passivo. Como é que não tem vontade própria? Aqui ele não se fez e aqui ele sofreu dois negativos. Aqui o homem só tem que aceitar, ele não faz nada e aqui, outra vez ele aceitou a derrota e aqui também. Dois negativos. Tudo heteronímia. Ele não faz nada, Deus faz, o diabo desfaz e o redentor quer refazer e não consegue.
Esta é a história que nós contamos da humanidade. Não podemos aceitar. Nem a primeira, nem a segunda teoria. Essa é a mais antiga, dois mil anos. Aprende-se no catecismo, na escola dominical que foi assim, interpretando mal os livros sacros. Os livros sacros não têm culpa disto. Moisés não é responsável por isto, o Gênesis não é responsável por isto. A nossa interpretação é responsável por isto.
Então vamos abandonar também esta segunda teoria: dizer que o homem era 100% perfeito e ficou 1% imperfeito, alguém o queria fazer outra vez perfeito e não conseguiu nada. Isto não poderíamos aceitar. Temos que tentar uma terceira alternativa.




Vamos começar com 1% e não com 100%. E daqui, nós vamos traçar uma linha ascensional em ziguezague a ver se chegamos ao 100. Esta é a única coisa razoável que podemos aceitar. O homem foi feito muito imperfeito desde o princípio. Não foi feito 100. Ele foi feito - grau 1o de perfeição.
Há pouco um grande pensador de nossos dias disse: “Deus creou o homem o menos possível (o menos é 1o, não podemos ir abaixo do 1o porque não tem menos zero) para que o homem se pudesse fazer o mais possível”. Isto é uma formidável filosofia razoável. Quer dizer, o homem não apareceu na face da terra como um homem perfeito, um tipo Cristo, não, ele apareceu como um homem, não como animal. Apareceu como homem imperfeitíssimo, com 1o de perfeição humana, e ele tinha ordem de subir de 1o para onde quisesse e pudesse. Vamos dizer, até 100, ou o máximo. Nós não estamos no 100.
Estamos ziguezagueando por aí. Altos e baixo, vitórias e derrotas, luz e trevas, toda nossa vida. Mas ele começou com grau 1o. Mas, este homem, no marco 1 foi dotado de uma coisa misteriosa que os animais não têm. Nenhum animal tem isto: livre arbítrio. A possibilidade de ser melhor e a possibilidade de ser pior do que é.


Vamos dizer, este foi feito no (grau)1o. Ele pode subir acima de 1, 2 ,3, 4, 5 até 100 - e também pode ir abaixo de 1. Isto se chama livre arbítrio. Quando ele é o próprio causador do seu destino. Quando a causação vem de fora, então não há livre arbítrio. Nos seres infra-humanos não há livre arbítrio porque eles são objetos passivos e nós somos os sujeitos ativos. Lá fora de nós tudo é alodeterminismo e em nós há autodeterminação. Esta palavra autodeterminação contrária de alodeterminismo (seria melhor do que dizer livre arbítrio porque muitos não compreendem o que é livre arbítrio). Nós somos autodeterminantes. Nós podemos ser melhores do que somos e podemos ser piores do que somos - moralmente, espiritualmente, não estamos falando no plano físico.
Mas, onde há livre arbítrio nada é previsível. Onde há livre arbítrio vocês não podem prever nada, nada, nada. Vocês podem dar educação que quiserem aos seus filhos, aos seus alunos, vocês nunca têm certeza de que eles vão aceitar ou rejeitar. Não é possível saber porque onde há livre arbítrio tudo é imprevisível. Não se sabe se um apóstolo vai ser um traidor, um Judas. Também não se saber se um Saulo, perseguidor do Cristo vai ser o maior apóstolo do Cristo. Isto não se pode prever.
Quem é que podia prever o que Judas fez? Quem é que podia prever o que Saulo de Tarso fez, das portas de Damasco em diante. Quer dizer, livre arbítrio aqui, livre arbítrio acolá. Para o mal e para bem. Tudo é imprevisível. Então, ao homem no grau 1o foi dada uma coisa estranha que nós chamamos a possibilidade da autodeterminação para o bem ou para o mal.
Vamos chamar positivo e negativo. Foram lhe dadas duas possibilidades. Vamos dizer que o positivo é o bem e o negativo é o mal. Estas duas coisas existem em qualquer ser humano normal. Nós estamos falando do homem normal, mas o anormal existe. Quer dizer, o homem, pelo poder da sua creatividade chamada livre arbítrio pode traçar o seu destino. Ele pode fazer-se melhor do que foi feito e ele pode fazer-se pior do que foi feito. Quer dizer, o itinerário começa no ponto mais baixo 1. Mais baixo do 1 não existe. Então o homem começou aqui, lutando com esses dois fatores. Lutando com o positivo e com o negativo. Às vezes sobe, às vezes desce. Se o positivo prevalece sobre o negativo é claro que ele sobe. Se o negativo prevalece sobre o positivo ele cai. E aqui vai o itinerário, o roteiro do homem através de milhares e milhares de anos. Muitos sobem, outros caem.
Quer dizer aquela história da imagem e semelhança de Deus não está aqui. Não está no início da jornada, está no fim da jornada. Isto é uma potencialidade, não é uma atualidade, ainda. O homem tem o poder de se tornar imagem e semelhança de Deus. Este poder lhe foi dado, esta potencialidade, mas, não esta realidade atualizada. Isto não é verdade. O homem não foi feito com 100% de perfeição. Se ele fosse creado aqui com 100%, ele não podia ser derrubado. Ninguém o podia levar ao mal. Um Cristo não pode ser derrubado. Agora os outros podem, que não estão assim.
Logo, não podemos aceitar que o homem estivesse no princípio no ponto 100 - elevado. Então, não há nenhuma possibilidade de eu derrotá-lo. Nenhum satanás, nenhum diabo o podia derrubar se ele tivesse estado no grau 100. Temos que abandonar esta idéia otimista de que no princípio nós já fomos gloriosos e perfeitos e depois é que nos tornamos muito imperfeitos porque alguém nos derrubou. Isto é ilógico. É inadmissível perante o bom senso. Nós começamos lá em baixo, não começamos lá em cima, mas temos a possibilidade, a potencialidade de subir até lá, através no nosso livre arbítrio. E ninguém sabe como é que nós vamos obrigar o seu livre arbítrio.
Perguntamos, por que é que não é só o positivo? Por que é positivo e negativo? Por que Deus não o fez de maneira que fosse sempre bom e nunca pudesse ser mau? Então ele não teria feito nenhum homem. Então, teria feito um autômato qualquer, uma máquina, obrigatoriamente boa. Mas, se ele quis fazer um ser responsável pelo seu próprio destino, pela sua pessoa, ele tinha que lhe dar as duas possibilidades. Não podia dar uma possibilidade. Onde há uma possibilidade, não há livre arbítrio.
Então temos que manter os dois sinais para o roteiro da evolução humana. Dizem alguns, mas Deus não pode ser positivo e negativo. Não pode ser bom e mau. O filósofo Nietzsche, no princípio deste século disse: “Deus está para além do bem e do mal”. Deus não é isto nem isto, nem isto, mais além dos dois. Além do bem e do mal. É uma grande verdade. Isto é uma bondade ética e uma maldade ética. Mas Deus não está na nossa ética. Nós não podemos dizer que Deus seja positivo ou que seja negativo. Nós podemos ser positivos e negativos, bons e maus, mas para o Creador nós temos que pôr - além dos dois. Deus está para além do bem e do mal, mas estes dois existem no universo existencial, não aqui na Essência. A essência é o Creador e a existência é as creaturas. Se atribuirmos as creaturas o bem e o mal, está certo. Se atribuirmos os dois ao creador – completamente errado.
Logo, o homem viaja através de longa jornada, aqui da ascensão ou da queda com a possibilidade de ser bom e a possibilidade de ser mau. Agora se lembrem do que diz a Bhagavad Gita. Isto nós chamamos o ego, na nossa linguagem filosófica. O pólo negativo da nossa natureza, a filosofia chama ego - palavra latina - e a faculdade positiva nós chamamos em português, Eu. Significa a mesma coisa, mas usamos a palavra latina ego porque já temos egoísmo que vem de ego. Então conservamos ego para o negativo e o Eu para o positivo. Na Índia eles chamavam isto aham. E o Eu chamava Atman.  
Na Bíblia isso se chama a alma e isto se chama o mundo; “que aproveita o homem ganhar o mundo inteiro se sofrer prejuízo em sua própria alma”. Palavras do Cristo - o que adianta ganhar todos os negativos se sofrer prejuízo em seu positivo. Vamos dizer, o Eu e o ego. O Eu é para nós o positivo e o ego é o negativo. O homem não é nem um nem o outro. O homem é esses dois, e também um nunca pode substituir o outro. Eu sei que quando vocês fazem meditação, então vocês pensam que podem substituir o seu ego negativo pelo seu Eu positivo para serem perfeitos. Absolutamente impossível. Os dois fazem parte da nossa natureza humana. A nossa natureza humana nunca vai ser isto. Também nunca vai ser o negativo. Seria incompleto. Mas, o que é que nós fazemos quando dizemos que temos que ser bons?
Muitos pensam que devem ser positivos sem nenhum negativo. Isto chama ser bom. Eles chamam isto espiritualismo. E outros chamam materialismo, como se espiritualismo sem materialismo fosse possível. Não existe nenhuma possibilidade na natureza humana de abolir um de seus pólos. Ou o pólo negativo, ou o pólo positivo. Sempre os dois pólos andam juntos. E o que é ser bom? O ser bom é ser mais ou menos equilibrado. Quando alguém consegue estabelecer perfeita sintonia e uma síntese perfeita, uma perfeita harmonia entre o seu pólo positivo Eu e o seu pólo negativo ego, então ele é bom. Não é abolindo o ego que ele é bom. Harmonizando um pólo com outro pólo. Porque esses pólos não são contrários.
Nós sempre pensamos que o positivo é o contrário do negativo. Não é verdade, em toda a natureza não existe contrário, não existe idêntico nem contrário. Só existe complementar. O negativo é complementar para o positivo e o positivo é complementar para o negativo. A complementação se chama a síntese. Não há antíteses. Isto e isto não são antíteses positivas e antíteses negativas. Eles são complementares. Um deve completar o outro. Nenhum deles é perfeito. Nem o positivo nem o negativo.
Só a harmonia entre os dois. A harmonia consiste em que o Eu que nós chamamos o positivo integre em si o ego. Isto é ser bom, o Eu maior que o ego (Eu > ego), o ego se integra completamente no Eu. Uma completa integração, não uma extinção, não uma abolição. Não uma substituição. Isto não é ser bom. Uma harmonia entre os dois. A harmonia existe. Não há igualdade, mas há integração.
Diz a Bhagavad Gita: ‘o ego é o pior inimigo do Eu’, mas acrescenta, ‘o Eu, porém é o melhor amigo do ego’. Quer dizer, o tratado de paz não é possível de ego para Eu, mas é possível de Eu para ego. O Eu pode fazer um tratado de paz com o ego, mas o ego nunca vai fazer um tratado de paz com o Eu. Porque ele pode ser integrado, mas não pode por si mesmo fazer o que o positivo faz. Paulo de Tarso no primeiro século escreve aos Coríntios: ‘o homem intelectual não compreende as coisas do espírito porque lhe parece estultícia, (estultícia é estupidez) nem as pode compreender porque as coisas do espírito devem ser compreendidas espiritualmente’.
A mesma coisa que a Bhagavad Gita diz: pode haver um tratado de paz entre os dois, mas o tratado de paz nunca pode partir do inferior. Só pode partir do superior.  O superior pode integrar em si o inferior.  Quando o ego se torna integrável então ele pode ser integrado. Então há perfeição entre os dois.
Quer dizer, isto (-) nós chamamos geralmente a inteligência. O negativo nós chamamos a inteligência e o positivo (+) nós chamamos o espírito. Através da filosofia de todos os tempos vai essa linha dupla espírito e intelecto. O espírito é sempre positivo o intelecto é sempre negativo. Se ele é integrado no espírito ele participa do positivo, mas se ele não é integrado no positivo do espírito ele continua a lutar contra o positivo. O ego é o pior inimigo do Eu, mas o Eu é o melhor amigo do ego.
O ego se manifesta principalmente pela nossa inteligência. A nossa inteligência quando está separada do espírito, da nossa razão suprema (isso chama razão, logos, espírito) então ela luta contra o Eu. Somente depois de integrar -, ela não faz as pazes, mas aceita o tratado de paz feito pelo Eu; então o homem entra nessa linha de evolução positivo e negativo. Aqui ele vai caminhando a milhares e milhões de anos. Nós não sabemos até quando, e pode chegar até lá onde os teólogos o põem no princípio. Toda a diferença está não traçar uma linha vertical aqui como fazem os teólogos, e uma queda para 1, uma queda fatal de Adão no paraíso (não é nada verdade) - ele não estava aqui, ele estava aqui e tinha ordem de subir rumo ao 100. Uma única vez aparece alguém neste mundo que parece chegou até 100.
Há quase dois mil anos alguém que dizia: “Ninguém me pode argüir de um pecado”. Pecado seria a desarmonia entre o ego e o Eu, que nós chamamos o pecado. E a harmonia nós chamamos a perfeição. Ninguém me pode argüir de um pecado, quer dizer, de uma imperfeição moral... E também não tinha imperfeição física, este homem. Nunca esteve doente, não morreu compulsoriamente, mas voluntariamente.
Se alguém morre compulsoriamente é imperfeito. Nós todos morremos compulsoriamente. Ninguém morre porque quer, nem os suicidas. Eles também não morrem porque querem. Porque estão transviados, aí eles se suicidam. E os outros homens que não são suicidas não morrem voluntariamente. Podem morrer resignadamente, mas não voluntariamente. Nós somos obrigados a morrer ou por acidente, ou por uma doença, ou pela velhice. Não há nenhuma escapatória nisto. Morremos todos compulsoriamente e entre o nascimento e a nossa morte quantas coisas compulsórias existem! Doenças são todas compulsórias. Nós não queremos uma doença, mas a doença vem contra a nossa vontade.
Quer dizer, o nosso corpo é imperfeito. A nossa vontade é imperfeita. A nossa inteligência é imperfeita. Erramos muitas vezes -, são fraquezas da inteligência. Queremos mal, são fraquezas morais. E somos sujeitos a doenças desagradáveis. Somos imperfeitos no corpo, na mente e nas emoções. Se chegássemos a 100 como temos ordem de chegar, não teríamos nenhuma dessas imperfeições. Raras vezes um homem chega até 100. Parece que no Antigo Testamento Moisés foi uma espécie de precursor de Jesus, o Cristo, porque dele não consta uma doença. A Bíblia nunca fala duma doença de Moisés... -‘e viveu 120 anos, diz o texto, em perfeita juventude’.     
Viver 120 anos (anos como os nossos, os anos nunca mudaram) em perfeita juventude não é natural para o nosso estado. Porque nós envelhecemos pouco a pouco e não podemos chegar a 120 anos em perfeita juventude. Também não foi morto compulsoriamente. No fim dos 120 anos, diz o texto, chegou ao fim da Jornada entre o Egito e Canaã, subiu ao Monte Nebo e nunca mais voltou. Foram procurá-lo, nunca ninguém achou o cadáver de Moisés e nunca viu o túmulo dele que não existe. Porque ele não virou cadáver e não teve túmulo.
Quer dizer, não morreu. Isto seria a vitória máxima desta jornada. Não estar sujeito à morte compulsória e não estar sujeito a doenças compulsórias também. Poder transformar o seu corpo material numa outra espécie de corpo que vamos chamar astral, por enquanto. Astral é pura energia. A energia é invisível. Matéria é visível, tangível, etc... Nós temos um corpo material. E não temos o poder de transformar no fim da vida - o nosso corpo material num corpo imaterial, num corpo energético, num corpo astral. Porque não estamos no termo da nossa jornada. Aqui no meio da jornada não se pode fazer isto. No fim da jornada seria possível.
Alguns casos são contados, na Bíblia e fora. Elias..., - de Elias também se diz que não morreu. De Enoc também se diz a mesma coisa. E depois de Moisés... Mesmo em nossos dias ainda há casos deste. Quem leu este livro maravilhoso, “Autobiografia de um iogue” de Paramahansa Yogananda, sabe que na Índia há diversos séculos aparece e desaparece um grande iogue, o Babaji que se desmaterializa, astraliza e se rematerializa quando ele quer. Reúne seus discípulos lá no Himalaia. Dá-lhes instrução durante um mês, depois se desmaterializa completamente. E quando precisa dar outras instruções ele se rematerializa, dá suas instruções e de repente ele anuncia que se vai tornar invisível outra vez.
Isto acontece em todos os tempos, mas com poucas pessoas que chegaram a um poder completo do espírito sobre a matéria que é o máximo da evolução, que se pode imaginar.
Parece que até em nossos tempos aqui no ocidente também acontece. Aquele Conde de Saint Germain que aparecia sempre na revolução francesa, nas cortes reais da França, Saint Germain, não consta de uma morte dele. Em princípio do século passado ele disse que ia embarcar para o oriente, para o Himalaia e ia voltar para o ocidente quando a humanidade ocidental estivesse nos seus piores dias. Não estamos ainda, parece... Porque está anunciada uma conflagração universal da humanidade para o fim deste século.
Então Saint Germain disse que ele ia voltar ao ocidente quando a humanidade estivesse nos seus piores dias. Não consta nenhuma doença dele. Sempre tinha uma idade de 40 e poucos anos. Era muito rico, mas muito liberal. Tinha a faculdade de fazer pedras preciosas, porque ele usava, ele gostava dessas coisas. Fazia ouro, mentalmente fabricava ouro. Alquimia mental. Mas nunca se apegava a nada disso. Dava com toda liberalidade. Desapareceu depois de ter aparecido muitas vezes nas cortes da França, e parece que nunca morreu.
Quer dizer que seria o máximo da perfeição do itinerário humano - que pudesse ter poder sobre o seu próprio corpo. Isto seria o final do itinerário, mas o nosso itinerário não. Isso seria ‘ser imagem e semelhança de Deus’.  Jesus podia ter feito isto. Ele sempre diz: “ninguém me tira a vida, eu deponho a minha vida quando eu quero e retomo a minha vida quando eu quero”. E ele o fez. “Destruí este templo do meu corpo...” - ele diz, “eu vou reconstruí-lo em 3 dias”.  E fez.
Ele podia impedir a destruição se ele quisesse. Moisés impediu. Mas, ainda é o maior poder. Permitir a destruição do corpo físico e reconstruí-lo rapidamente. Isto é mais do que impedir. Perfeito é conservar. Moisés conservou o seu corpo físico 120 anos e depois se transformou em corpo astral, mas quem permite voluntariamente a destruição completa do seu corpo físico e pode reconstruir pelo poder do espírito o seu próprio corpo, seja material, seja astral (porque depois da destruição Jesus aparece, ora material, onde podia ser visto por seus discípulos - aparecia materialmente) - e de repente ele se desmaterializa diante deles e ninguém vê nada dele. No dia da ascensão foi a última vez que se desmaterializou – que ele chama ascensão, não tinha nenhuma ascensão. Há uma astralização. Uma desmaterialização do seu corpo, que é o poder máximo do livre arbítrio.
Nós somos todos principiantes em matéria de livre arbítrio. Estamos no ABC. Na escola primária do livre arbítrio. Não temos um poder completo sobre nós. Mas, se tivéssemos uma síntese perfeita entre o positivo e o negativo, e uma harmonia perfeita entre as duas nossas faculdades espiritual e mental, nós podíamos dispor do corpo material à vontade. Como quiséssemos, podíamos tornar-nos visíveis e invisíveis. Mas, por enquanto a humanidade não está nesse ponto. Nós nem sabemos em que ponto da jornada a humanidade está. Certamente não está nas alturas. Deve estar no princípio. Na primeira etapa. Lutando por aquilo, mas não conseguindo ainda isso aqui.
Esta é a idéia que devemos ter da verdadeira humanidade. Não uma humanidade que tivesse vindo do zero do animal. Um é o homem. Do zero do animal não podia vir o 1 do homem. Isto não é aceitável. Também não é aceitável esta segunda hipótese que o homem tenha estado no 100 – no princípio, perfeito em tudo, no corpo, na mente e na alma - e tivesse caído até 1. Isto não é admissível. Somente é admissível que não tenha estado no 100, mas que tenha começado no grau 1o da sua evolução; e foram-lhe entregue o dom do livre arbítrio para ele mesmo se auto-realizar. Ele se pode realizar. O homem é realizável, mas ele não é realizado. Mas aonde há um poder creador nele – o livre arbítrio é um poder creador - é uma creatividade. Aí alguém se pode realizar mais do que Deus o realizou. Deus creou o homem o menos possível (o menos é 1) para que o homem se pudesse crear o mais possível.
Esta é a única teoria que podemos aceitar sobre o início e a evolução do homem. No início foi lhe dado a possibilidade de melhorar. Mas também sempre inclui a possibilidade de piorar, porque onde há uma possibilidade para o bem também há uma possibilidade para o mal – enquanto os dois não estão harmonizados. Quando os dois se harmonizarem perfeitamente, então o homem é perfeito, mas não é sempre negativo. A perfeição não quer dizer o positivo. A perfeição é a síntese perfeita entre o espírito e a mente, entre o positivo e o negativo. Porque toda a natureza é feita assim em dois pólos. Vocês não podem me indicar uma coisa na natureza que não seja bipolar.
Vejam: os átomos são bipolares, é próton positivo e elétron negativo. No mundo sideral é atração e repulsão. Na eletricidade que temos aqui, nós não teríamos luz se não tivéssemos dois pólos. Com um pólo vocês não podem acender uma lâmpada. Só com dois pólos. Quer dizer, com o pólo negativo que vem da usina e com o pólo positivo que também vem da usina nós podemos ter luz, calor e força. Toda a nossa indústria está baseada nisso. A nossa indústria está cheia de dínamos. O dínamo é positivo e negativo. Dá força.Um aquecedor na cozinha ou no chuveiro é positivo e negativo e dá calor. E na lâmpada nós temos os mesmos: positivo e negativo...- e dá luz.  
Quer dizer, isto é uma regra universal da natureza. No mundo orgânico há o masculino e o feminino que são os dois pólos. Não pode haver continuação da vida só com o masculino nem só com o feminino. Só o positivo não dá e só o negativo não dá. Os dois combinando-se, aí dá a continuação da vida em forma do filho. Toda a natureza é bipolar, e o homem não seria bipolar? Nós não podemos dizer que nós temos só um pólo. Nós temos dois pólos. Nós temos o pólo Eu e o pólo do ego, mas estes dois não devem ser hostis, um ao outro. Um não deve combater o outro. Esse é o nosso mal.
Nós sempre queremos eliminar um dos dois. Os materialistas querem eliminar o espírito. E os espiritualistas querem eliminar a matéria e a mente. São tentativas antinaturais. Contra a natureza nós não podemos fazer nada. Temos que descobrir o modo como harmonizar perfeitamente - em síntese perfeita – as duas faculdades que fazem parte essencial da nossa natureza. Devemos realizar-nos. Se estamos só no positivo - não estamos realizados. Se estamos só no negativo, não estamos realizados. Mas somos sempre realizáveis. A realização da nossa natureza humana é essencialmente uma síntese, uma complementaridade. Um tratado de paz entre os nossos dois pólos. Entre o nosso Eu e o nosso ego.
Isto é o nosso destino na evolução multimilenar do homem. Nós somos a única creatura deste mundo que pode fazer isto. As outras creaturas são creadas, nós somos as creaturas creadoras. As outras creaturas não se podem crear melhores do que são. Nem se podem crear piores do que são. Nós somos a única creatura aqui na terra (não sabemos em outra parte – outro planeta) que temos nas mãos uma creatividade. Podemos determinar o nosso destino. Não o nosso destino esterno, físico. Aí estamos sujeitos às leis da natureza. Mas, o nosso destino interno. O nosso destino humano propriamente, não o nosso destino material. Aí dependemos dos fatores externos. Mas, o nosso destino humano está em nossas mãos.
Esta é a única possibilidade de vocês lerem o meu livro e continuarem a construírem o que não está no livro. Porque eu não digo que esta é última palavra, que está no livro. Nem penúltima, nem antepenúltima. Apenas a primeira. Mas vocês podem compreender, à luz desta exposição que fiz agora, o que ele chama ‘o homem este desconhecido’. ‘O homem esta esfinge’ ‘o homem o eterno enigma do nosso planeta’. Só com esses dois dados, o nosso livre arbítrio que funciona tanto como positivo como negativo, vocês podem mais ou menos compreender este fenômeno humano, como diz Teilhard de Chardin, que passou através de tantas esferas de evolução – desde a hilosfera, da biosfera, da noosfera e vai rumo a logosfera. A logosfera seria isto aqui: (grau 100 – ver gráfico)
Uma evolução possível – porque nas nossas mãos estão as potencialidades. A transformação das potencialidades em atualidade é nossa tarefa. Segundo a parábola dos Talentos no Evangelho é muito claro. Aquele dono dos três servos deu cinco talentos a um e disse: “trabalhe com isto aqui” – o primeiro servo transformou o cinco em dez. Isto é evolução. Isto é auto-realização. O segundo servo que tinha recebido dois talentos transformou os dois em quatro. Isto é auto-realização. Isto é creatividade, porque transformar dois em quatro é creatividade. Transformar cinco em dez é creatividade.  Ambos foram chamados: ‘servos bons e fieis, entra no gozo do teu senhor’. É uma grande lição de filosofia do livre arbítrio. Só o terceiro servo que recebeu um talento só, não fez nada. Guardou o talento. Talento era uma moeda grega naquele tempo. Guardou, não roubou. Devolveu o que tinha recebido. ‘Servo mau e preguiçoso’ disse o dono, ‘porque não fizeste produzir o meu talento, eu não te dei a potencialidade para me devolveres a potencialidade, eu te dei a potencialidade para duplicares com teu livre arbítrio aquilo que recebeste’.
É exatamente o nosso caso. Aqui nós estamos na potencialidade. Cada um recebeu tanto e tanto no princípio da sua vida. E com este ele pode aumentar ou também pode estagnar. O terceiro servo estagnou, ele ficou aqui, não passou nem para o dois nem para o três, nem para o quatro. Estagnou aqui. Quer dizer, tinha livre arbítrio, mas não fez funcionar o seu livre arbítrio a serviço da sua evolução ascensional. A serviço da sua auto-realização.
Leiam mais ou menos nesse espírito o livro para saberem o que o livro quer dizer, não aceitando as duas teorias, nem do darwinismo, nem aquela outra das nossas teologias, porque não são aceitáveis. Aceitável é somente esta que o homem começou no mínimo para chegar até o máximo. Deus creou o homem o menos possível para que o homem se creasse o mais possível.


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TRANSCRIÇÃO AULA 12 - A Filosofia de Einstein



CURSO 78

Huberto Rohden
Aula 12
15/08
A Filosofia de Einstein

            (Rohden começa citando a 2a edição do livro “Einstein, o enigma da matemática”)

            “O livro está aqui não é?”

A nova edição muito ampliada – tem muitos capítulos novos que não estão na 1a edição que eu focalizei mais a personalidade. Neste livro eu não trato da ciência atômica, nem de relatividade - mas, somente a personalidade e a filosofia de Einstein. Sobre isto também eu vou falar domingo à noite. Personalidade e filosofia de Einstein. Vou focalizar três ou quatro pontos apenas. Vamos antecipar estes três ou quatro pontos aqui.
Evidentemente, com Einstein e seus colegas começou no mundo inteiro uma nova fase na ciência. Inteiramente nova...Por que nova?  Primeiro: Einstein inclui a intuição na ciência integral, o que nunca nenhum cientista fez. No ano passado comecei a falar sobre a intuição e vi a dificuldade que vocês têm de compreender o que é que se entende por intuição. Porque muitos pensam que é um pressentimento vago, incerto, que vai acontecer isto, que vai acontecer aquilo. O povo diz, eu tenho a intuição de que fulano morreu. Eu tenho intuição de que aconteceu um desastre. Isto nós não chamamos de intuição. Isso é pressentimento.
Einstein chama intuição, uma verdade absolutamente certa e irrefutável – que vem da intuição. Como é que vem esta verdade? Porque nós conhecemos só um modo de conseguir descobrir a verdade: a inteligência. O cientista se sente lá no gabinete, pensa muito, pensa, pensa, lê, pensa, pensa e no fim escreve o que ele pensou.  Isto não é intuição, isto é análise intelectual. 99% da nossa ciência está na análise intelectual. Não sai da análise horizontal que é puramente intelectual, analítica.
Agora, acontece com os grandes gênios da humanidade uma coisa diferente. E Einstein neste ponto é verdadeiro campeão de evolução. Ele diz a cada momento, por exemplo: “As leis fundamentais do universo não podem ser descobertas por análise lógica, mas somente por intuição cósmica”.
Vocês dizem: o que é que ele quer dizer? As leis fundamentais do universo não podem ser descobertas por analise lógica da inteligência, mas por intuição. Mas para nós intuição é uma coisa vaga. Incerta. E como é que ele diz que o que a intuição ensina é absolutamente certa?
Outra frase dele: “A matemática (ele chama a intuição também, matemática, não se esqueça) é absolutamente certa, mas só enquanto ela fica no abstrato - quando a matemática desce ao concreto ela perde a sua certeza na razão direta da sua concretização”. Matemática para ele é intuição, não é analise.
Outra frase de Einstein: “Eu tenho por verdade que o puro raciocínio pode descobrir a verdade conforme o sonho dos antigos”. O que é que ele chama o puro raciocínio? Intuição. Para ele puro raciocínio não é analise. Ele opõe raciocínio puro à análise intelectual.  Então ele diz: “Pela intuição pode ser descoberta a verdade, como já diziam os antigos” (Platão, Sócrates, neoplatônicos e outros).
Quer dizer, existe um modo de descobrir a verdade sobre as leis fundamentais do universo, e sobre nós mesmos também que não passa através da inteligência, mas que nos é canalizada através da razão. Agora se vocês confundem inteligência com razão eu não posso falar mais. E todo o mundo confunde. Einstein não confunde, os gregos não confundiram – os gregos antigos, os grandes pensadores, Aristóteles, Heráclito, Demócrito, Platão e outros não confundiam inteligência - que chamam noos em grego - com razão que em grego chamavam logos. Ele sempre faz uma diferença enorme entre inteligência, noos e logos (razão). Einstein também faz. Ele diz: “Nós podemos receber mensagens de verdade absoluta através da razão pura”. Não através da inteligência. O puro raciocínio para ele é a razão. A intuição é a razão. A matemática é a razão.  Não a aritmética, mas a matemática. Vocês também confundem aritmética com razão. Mas, Einstein faz rigorosa distinção entre aritmética e matemática, entre análise e intuição, entre inteligência e razão. Se vocês não tomarem a sério isto não podem compreender.
Quando Einstein tinha 26 anos, ele estava na Suíça, na Escola Politécnica de Zurich, e um dia ele desapareceu da escola, da casa, não deixou um recado para onde ia, e não disse nada a seus alunos na escola. Desapareceu dois dias e ninguém chegou a saber onde é que ele esteve esses dois dias. No terceiro dia ele reapareceu. Pegou um pedaço de papel e escreveu isto:

E = mc²

Depois de três dias de ausência! E não falou com ninguém onde ele esteve! (esteve no mato, parece). Desapareceu ou dormiu em algum paiol abandonado, estava todo sujo, desalinhado quando voltou e nunca explicou a ninguém onde estivera. Escreveu no papel isto aqui: E = mc². Isto se chama: energia é igual à massa multiplicada pelo quadrado da velocidade da luz. Isto modificou toda a ciência do mundo em 50 anos.
Isto ele escreveu quando tinha 26 anos. Toda a ciência foi modificada ultimamente por causa disto. A fórmula misteriosa da relatividade. O ABC da relatividade é isto aqui. Perguntaram a Einstein: “Como é que o senhor descobriu, o senhor não esteve na politécnica, não leu livro, o senhor foi para o mato, teve dois dias de silêncio e solidão, e depois escreveu isto. Como é que o senhor chegou a saber isto lá no mato?” Ele disse, “não fui eu que descobri, isto me foi revelado”. Dizer que isto foi revelado é pura intuição, porque a intuição não vem da inteligência. Donde é que ela vem eu vou dizer depois. Então isto já é o primeiro fruto da intuição.
E em outra ocasião ele diz: “a intuição é absolutamente certa, não precisa de provas, nem pode ter provas”.  E quando ele quis publicar um livro, ‘O campo unificado’ (eu estava em Princeton naquele tempo com ele) os repórteres dos grandes jornais de Nova York foram à universidade de Princeton para entrevistá-lo sobre o novo livro. E o repórter perguntou: “Professor Einstein, o senhor escreveu este livro, aquilo que o senhor escreveu é certo?” Einstein disse: “É absolutamente certo”. E o repórter perguntou: “O senhor pode provar o que o senhor escreveu?” “Não, disse Einstein, isto eu não posso provar”. Então disse o repórter: “Mas como é que o senhor disse que é certo se não pode provar, para que então as provas quando a certeza não depende das provas?” Einstein respondeu: “A certeza é anterior a qualquer prova por meio da intuição, mas as provas são necessárias para justificar a certeza para aqueles que não têm intuição”. Imaginem que resposta!
Vocês entenderam isto? O que eu digo é absolutamente certo não por meio de provas, mas pela intuição direta que eu tenho. Então o repórter quer saber: ‘mas, para que então as provas, o livro está cheio de provas?’. Einstein disse: ‘bem as provas são necessárias para justificar a certeza para aqueles que não têm certeza por intuição’ – que coisa misteriosa.
Nós dizemos que a intuição vem da alma do universo. A intuição é uma invasão cósmica e todo o mundo diz: “meu Deus, se a intuição vem da alma do universo, que viagem enorme eu tenho que fazer lá do outro lado das vias-lácteas para chegar até mim?” Pura ilusão! O universo está dentro de cada um de nós. O universo não é sideral, o universo é a nossa própria consciência.  Vamos ver se concretizamos isto por meio de um diagrama.


Vamos dizer que isto é a alma do universo (Cruz) e o universo sideral é este aqui, vamos dizer que as vias lácteas e galáxias são este círculo (menor). Isso (cruz) é a quintessência do universo que nós chamamos Alma. E aqui estou eu. Aqui está Einstein (círculo maior). Onde é que está a alma do universo? Está no universo sideral. E onde é que está esta mesma alma do universo? Está no meu universo aqui. Quer dizer, isto é o centro disto e é o centro disto. Isto que nós chamamos Alma do Universo é o centro do universo material, do macrocosmo e é também o centro do homem, do microcosmo.
Então quando nós dizemos que a intuição vem da Alma do Universo nós não queremos dizer que ela vem lá das estrelas, que ela vem duma mensagem da via-láctea A, da via-láctea B... – isto nós não queremos dizer. Nós queremos dizer - quando alguém fala por intuição então é o universo que fala dentro dele. Não o universo de fora, mas o universo de dentro.
Muitos não podem compreender que o centro do universo está dentro de cada um de nós. O centro do universo não está lá fora, também está aqui. Não está fora, está dentro da nossa consciência. Mas, como a nossa consciência geralmente não fala, fala somente a nossa ciência. (A ciência é da inteligência, mas a consciência é da razão. Entenderam isto?) A inteligência produz ciência, análise intelectual... mas a razão quando ela começa a falar produz intuição. Logo, todo o problema da intuição é o seguinte: será que eu só posso escutar a minha inteligência e não sei nada de razão? Então eu não tenho intuição. Mas se eu sou capaz de escutar a voz da minha razão (o meu logos, como diziam os gregos) então eu recebo intuição - mensagem intuitiva do meu cosmos interno, não do cosmos do além, mas do cosmos do aquém.
Quando nós dizemos ‘o cosmos’sempre entendemos o cosmos fora de nós – mas o cosmos também está dentro de nós. Mas, o que é necessário para eu poder escutar a voz da razão cósmica dentro de mim, a voz da razão cósmica no meu centro e não a voz da inteligência periférica – vamos dizer (gráfico): aqui está a inteligência periférica (círculo) e aqui está a razão central (ponto).




Se eu escuto somente isto: (círculo) eu tenho ciência, mas se eu posso escutar a minha razão interna então eu tenho intuição. A intuição não vem de fora, ela parece vir de fora, mas ela vem sempre de dentro. O que é necessário para alguém ouvir a voz da sua razão intuitiva? A razão é intuitiva, a inteligência, analítica. Para que alguém possa ouvir a voz da sua razão intuitiva e receber mensagens intuitivas (como Einstein sempre recebia) há uma coisa absolutamente necessária. É necessário fazer calar por algum tempo a inteligência. Porque a inteligência fala e a razão se cala.
 Notem bem isto: enquanto a inteligência fala a razão se cala. Enquanto a inteligência analítica fala a razão intuitiva se cala. Os dois não podem falar ao mesmo tempo. Então temos que achar um modo para fazer calar a inteligência por algum tempo. E não para sempre – Deus nos livre – para meia hora por dia, vamos dizer. Se vocês conseguirem fazer calar totalmente a inteligência -, a inteligência analítica, que é do nosso querido ego periférico... Se a inteligência calar totalmente durante meia hora ao menos... No princípio não conseguimos meia hora – conseguimos 5 minutos – mas já é muita coisa 5 minutos. Muitos não conseguem. Mas no fim conseguimos meia hora que a inteligência se cala completamente. Então estamos preparando o caminho para a intuição cósmica.
O que quer dizer fazer calar a inteligência? Grande dificuldade saber o que quer dizer fazer calar a inteligência. Existem três tipos de silêncio: silêncio físico, silêncio mental e silêncio emocional. Se esses três silêncios forem estabelecidos, então a inteligência não fala. Portanto o silêncio da inteligência é silêncio físico. Eu não devo ouvir nada, eu não devo falar nada. Isto é silêncio físico. Também não devo estar no meio do barulho, numa praça, porque lá não há silêncio físico, lá há barulho físico. Então para ter silêncio físico, eu tenho que estar num lugar completamente isolado. Einstein foi para o mato, lá na Suíça, para ter intuição quando ele escreveu isto. Esteve dois dias em silêncio total. Não ouviu nada, não falou nada, não falou com ninguém, não viu ninguém falar.
Silêncio físico é fácil estabelecer. A gente se retira da cidade, do barulho, do escritório e fica um dia ou dois dias em completa solidão, como os iogues do Himalaia que vivem a vida inteira numa caverna silenciosa. Não precisa a vida inteira. Basta meia hora por dia. Mas, esse silêncio físico não basta. O silêncio físico é fácil de estabelecer. A gente se retira para um lugar solitário fora da cidade – está em silêncio físico. O problema é outro – o silêncio mental. Nós carregamos conosco o barulho mental e é difícil estabelecer silêncio mental.
Que é isto, silêncio mental? Não pensar nada durante meia hora. Vocês são capazes disto? Ninguém é capaz. Garanto que todos que estão aqui, não há 1% que seja capaz de ficar 5 minutos sem pensar nada. É um problema. Porque nós vivemos pensando, pensando, 24 horas por dia. Mesmo de noite ainda estamos pensando em forma sonhos. Mas de dia nós estamos pensando de outro modo, conscientemente. Mas, se alguém é capaz de estabelecer silêncio mental, não pensar nada durante meia hora... (sem pensar nada, nada, nada...) então ele está abrindo caminho para a intuição.
Mas cuidado com esse silêncio mental. É coisa muito perigosa. Quem não sabe fazer silêncio mental cai em transe, cai na auto-hipnose. Ele pensa que aquilo é uma vantagem. Aquilo é um desastre, a hipnose não resolve nada. O transe não resolve nada. O silêncio mental é acompanhado com a consciência cósmica. Temos que ficar mentalmente calados e cosmicamente conscientes. É difícil!  Alguém me disse: se eu não penso nada eu não estou consciente e se eu sou consciente eu penso alguma coisa. Assim dizem os principiantes. Não é verdade. Nós podemos ficar 100% conscientes e 0% pensantes.
Faça a experiência. Se vocês podem ficar 100% conscientes e 0% pensantes, se conseguirem fazer isto, estão de parabéns! Abriram a porta para uma intuição cósmica. Mas falta mais uma coisa importante. Silêncio físico (no. 1) silêncio mental (no 2); agora vem um terceiro silêncio que é o mais difícil de todos. Silêncio emocional – não ter nenhum desejo durante meia hora. Não querer nada, nada, nada. Nem amores, nem ódios, nem esperanças nem desesperos. Nada! Não ter nenhuma emoção, chama-se silêncio emocional. Será que nós somos capazes disto?
Então vou repetir. Silêncio completo é silêncio físico, silêncio mental e silêncio emocional. Não falar nada, não pensar nada e não querer nada durante meia hora, mas ficar 100% conscientes – porque senão vocês vão cair no sono e não resolve nada. Dormir não resolve. Então vocês devem ficar 100% conscientes no seu Eu espiritual, e nada pensantes no seu ego mental, e não querer nada também no seu ego emocional, e não fazer nada no seu ego material.
Vocês são capazes disto?  Então vocês sabem o que é intuição. Porque neste caso o nosso Eu central, a nossa razão cósmica, ou seja, a nossa consciência, ou seja, a nossa alma, seja o nosso Atman (É a mesma coisa, Atman em sânscrito - alma, linguagem do Evangelho - o Eu na psicologia de hoje - chamam isto o Eu central)... Então, o nosso Eu central, a nossa alma, o nosso Atman como dizem os hindus, se manifesta. Mas ele só se manifesta enquanto o nosso ego físico mental e emocional estiver completamente silencioso.
Quer dizer, se isto não se consegue através de técnicas, eu sei que há mestres por aí que andam espalhando técnicas e mais técnicas de meditação. Não dá, através de nenhuma técnica se consegue isto. Como é que se consegue? Exercícios repetidos – não é técnica – é exercício paciente, terrivelmente paciente.
Einstein estava habituado a isto porque é o homem mais silencioso que eu vi na minha vida. Andava dias inteiros sem dizer uma palavra, sempre na intuição cósmica e por isso ele podia dizer: “Sem a intuição cósmica não se pode descobrir nenhuma lei do universo”. Ele fala de experiência própria. Isto é uma novidade na ciência, porque a ciência comum não inclui a intuição na ciência. Ainda agora, numa entrevista na revista Veja, “Iastrov”(?), aquele astrônomo norte-americano, da Nasa – ele não inclui a intuição na ciência. A intuição é um mistério que nada tem que ver com ciência. Isto diz “Iastrov”. Ele diz: “Ciência é puramente analítica, ciência é pensar, ciência é pesquisar, ciência é investigar, mas, intuição não é ciência, intuição é um mistério, é um misticismo, mas não é ciência”.
Einstein é inteiramente contrário a isto. Para Einstein, intuição é ciência. Einstein diz: “a ciência começa com análise intelectual e culmina em intuição cósmica”. Note bem: a ciência começa com análise intelectual, do ego, mas, culmina em intuição cósmica. Isto é novidade número 1 na ciência de hoje. Há cientistas que incluem a intuição na ciência. Mas o grosso dos cientistas ainda é do século passado. Dizem que a ciência nada tem que ver com intuição. Intuição é misticismo. Intuição é qualquer coisa misteriosa que não se sabe bem o que é.
 É um misticismo, mas não é ciência. Einstein é inteiramente contrário a isto. Para Einstein intuição é ciência. Einstein diz: a ciência começa com a análise intelectual e culmina em intuição cósmica. Notem bem - de Einstein; “a ciência começa com análise intelectual (do ego), mas culmina em intuição cósmica”. Isto é novidade número 1 na ciência de hoje. Há cientistas que incluem a intuição na ciência. Mas o grosso dos cientistas ainda é do século passado. E dizem que a ciência nada tem que ver com intuição. Intuição é misticismo. Intuição é qualquer coisa misteriosa que não se sabe bem o que é.
Então vem Einstein e diz: “não, a intuição faz parte integrante da ciência no dia de hoje”. É a primeira novidade que Einstein introduziu neste mundo. E muitos já estão acompanhando. Que a intuição faz parte da ciência. É o ponto culminante da ciência. E a ciência não é completa enquanto ela não é intuitiva. Primeiro vem a análise e depois vem a intuição. Então Einstein nos deu esta frase: “Eu penso 99 vezes (isto é análise do nosso ego) e não descubro nada, depois eu mergulho num grande silêncio e eis que a verdade me é revelada (intuição)”.
 Primeiro ele pensa conscientemente. Depois ele se cala profundamente por algum tempo e depois ele é invadido pela intuição cósmica. A invasão parece vir de fora, mas ela realmente vem de dentro. Não é uma invasão, é uma erupção, é uma eclosão. A intuição é sempre uma eclosão do nosso Eu central e não uma invasão de fora.
Isso foi a primeira novidade que Einstein introduziu na ciência por experiência dele porque ele tinha experiência que pensar analiticamente com a inteligência é necessário, é absolutamente necessário, mas não é suficiente. Necessário é a análise intelectual. Suficiente não é, porque não chega até o fim. Suficiente é somente a intuição que vem depois da análise. Temos que unir a análise com a intuição. Então temos a ciência integral.
O que eu vou dizer ainda no domingo é outra coisa. Einstein é um dos poucos cientistas dos últimos 50 anos que teve a inaudita coragem de falar em Deus. Porque os cientistas têm medo de falar em Deus. Dizem: Deus não tem nada que ver com ciência. Deus é para a igreja, Deus é para a teologia, Deus é para crianças e para pessoas velhas que não são capazes de pensar. Isto é Deus. Não vamos falar em Deus. Porque isto é desacreditar a ciência. Isto é destruir a auréola científica. Geralmente os cientistas dizem assim e se gloriam de ser ateus. Este Iastrof de que falei a pouco não diz que é ateu. Diz que ele é agnóstico. Agnóstico quer dizer aquele que não nega nem afirma Deus. Quem nega Deus é ateu. Então ele diz: “Eu sou um agnóstico”, ele não diz que é ateu, mas diz que não sabe nada de Deus. “Deus para mim, eu não digo que não existe, mas eu não sei nada dele, eu sou completamente zero em matéria de Deus”. 
Isto diz Iastrof. Einstein diz (imaginem a diferença agora): “Se Deus não fez o universo assim como eu disse nos meus livros eu não vou brigar com ele por causa disto”. São palavras de Einstein. Em outra ocasião, nos Estados Unidos quando eu estava lá na Universidade de Princeton com Einstein, correu pelos jornais uma notícia que Einstein era ateu, ateu, ateu. Que ninguém devia ler nada de Einstein que era ateu. Foi uma imprensa sectária que espalhou isto. Então, um rabino da sinagoga de Israel de Nova York, que eu conheci muito, mandou um telegrama a Einstein: “Einstein favor dizer se você aceita Deus”- porque estavam dizendo aí que ele era ateu.
Sabem o que Einstein respondeu imediatamente ao rabino da sinagoga de Nova York? “Eu aceito o mesmo Deus que o grande Spinoza chama Alma do Universo. Não aceito um Deus individual que se preocupa com as nossas necessidades de cada dia”. Declaração de Einstein. “Eu aceito o mesmo Deus que o grande Spinoza (um grande filósofo do século XVII) chama a Alma do Universo. Este Deus eu aceito, não aceito um Deus indivíduo, um Deus pessoal, um Deus papai Noel, um Deus que as igrejas muitas vezes pensam que seja Deus. Esse Deus eu não aceito. Um Deus individual eu não aceito. Aceito um Deus cósmico. Aceito um Deus universal”.
Quer dizer, Einstein se confessa declaradamente que aceita um poder supremo do universo, o Creador do Universo, mas não como pessoa. Não uma pessoa, mas uma força, uma vida, uma inteligência, uma consciência cósmica, ele aceita como Deus... Grande novidade que um cientista número 1 do século XX, evidentemente ele revolucionou toda a ciência, abertamente fala em Deus, mas não num Deus pessoal. Esse Deus não é Deus nenhum, mas em um Deus cósmico. “Eu aceito Deus Alma do Universo que permeia todas as coisas do universo, isto eu aceito como Deus, agora não aceito um Deus pessoal”.
Quer dizer que ele não era agnóstico e não era ateu. Quem aceita a realidade de Deus em forma da Alma do Universo não é ateu. Não é agnóstico. Einstein diz: “Eu não tenho nenhuma religião, não professo nem religião judaica (porque ele era de origem judaica), nem cristã, eu não tenho nenhuma religião, mas eu sou um homem profundamente religioso”. Imagine, ele declara que é um homem profundamente religioso, mas não tem nenhuma religião.
Quando nós dizemos que alguém não tem nenhuma religião nós sempre pensamos que não é religioso, mas a gente pode ser 100% religioso sem ter nenhuma religião. E Einstein declara: “Eu não tenho nenhuma religião, eu não vou à Sinagoga e também não vou à igreja nenhuma, mas eu sou um homem profundamente religioso”. E porque que ele se diz religioso? Ele explica: “porque eu vejo Deus em toda parte, eu vejo Deus nas pedras, nas plantas nos animais; em toda parte eu vejo Deus”.
Quem tem intuição como ele, vê Deus em tudo, numa célula, num átomo, numa molécula, num bichinho qualquer, numa pedra, numa flor, a gente vê Deus. Isto é religiosidade, mas não é religião. A religião é a gente ter um credo e dizer que eu pertenço a esta igreja, àquela outra, isto é ter religião.  Mas Einstein não tinha nenhum credo, mas ele era tão intuitivo que ele via um poder em todas as creaturas, um poder invisível. Uma inteligência, uma vida, uma consciência cósmica que permeia toda a natureza. Ele estava habituado a ver Deus em toda a natureza. Isso ele chama ser religioso, embora não tivesse nenhuma religião.
Quando eu viajo por aí, como viajei há pouco lá no nordeste eu sempre tenho que aturar entrevistas da imprensa. E uma pergunta que me fazem infalivelmente é a seguinte: “Qual é a sua religião?” Eu estou sempre em apuros com isto. Uma vez vieram lá: “Qual é a sua religião?” Eu disse: “Não tenho nenhuma”.“Ah! O senhor é ateu”. Então botaram lá no jornal que eu era ateu. Eu disse: “Faça o favor de não dizer no seu jornal que eu sou ateu porque ateísmo também é religião”. Os ateus também têm religião, é uma religião negativa, mas, têm religião, é claro. Porque a religião deles é o ateísmo. E o agnosticismo e tudo isto é religião. “Não digam que eu sou ateu porque ateísmo também é uma religião”. “Mas, qual é a sua religião?” “Eu não tenho nenhuma religião eclesiástica, assim que se possa dizer, eu pertenço à igreja católica, à igreja protestante, à presbiteriana ou ao espiritismo, ou qualquer coisa que é uma espécie de religião”.
Mas, não puderam compreender que a gente podia ser religioso sem ter uma certa religião bitolada e carimbada. Quando a gente não tem uma religião carimbada por uma igreja eles dizem que a gente é ateu. Mas, Einstein não tinha nenhuma. Ele declara que não tinha nenhuma religião assim como credo. Formar um credo, mas que ele era profundamente religioso. Mas, a imprensa não é capaz de compreender que a gente possa ter religiosidade sem ter religião. É difícil fazer compreender.
Agora, a última coisa, Einstein aceita valores na vida humana. Nenhum cientista aceita. O cientista geralmente diz: valores não são realidades. São construções mentais. Einstein diz: “o valor é a única coisa preciosa na nossa vida. Se nós não criamos valores na nossa vida, vivemos em vão”. “Do mundo dos fatos” diz ele “não conduz nenhum caminho para o mundo dos valores porque os valores vêm de outra região”. Se os valores vêm de outra região é porque eles existem e nós não fabricamos os valores. Os valores são fabricados pela nossa consciência. A nossa consciência produz valores, por exemplo: verdade, justiça, amor, honestidade, fraternidade, amizade.Tudo isto são valores. Não são coisas que se possa ver.
Vocês nunca viram uma verdade, vocês nunca viram uma justiça. Vocês nunca viram fidelidade. Vocês nunca viram amor. Isto não se pode ver. Não são coisas físicas que se possa ver. A ciência só trata de coisas físicas, mas como valor não é uma coisa física a ciência diz: “Bem, valor não é nada, é uma construção mental que a gente fez”.
Einstein diz: “não, o valor é uma realidade, o valor existe e pela consciência nós nos apropriamos do valor. Os valores são maiores do que todos os fatos. Fatos são da ciência e valores são da consciência. Os fatos são descobertos pela ciência e os valores são criados pela consciência”. Ora dizer isto, como Einstein diz, os fatos são descobertos pela ciência e os valores são criados pela consciência. É uma coisa inteiramente nova na nossa ciência. Hoje em dia muitos cientistas já têm a coragem de falar em valores. A consciência cria valores e a ciência descobre apenas fatos.
É uma verdadeira nova fase na ciência que está despontando nos últimos 50 anos. Porque um homem teve a coragem de falar em coisas que os outros não tinham a coragem de falar. Falar em Deus, falar em valores, falar em religiosidade e falar em intuição. São quatro coisas que eram desconhecidas. Intuição não era ciência. Deus não estava dentro da ciência. Os valores não faziam parte da ciência e a religiosidade também não fazia parte da ciência. Ele tinha a coragem de dizer: “eu aceito tudo isto”.
E outros, sabendo que ele era uma celebridade internacional disseram: “Então vamos ter a coragem também, porque se um homem deste tamanho como Albert Einstein, que revolucionou toda a ciência do mundo, tem a coragem de falar em Deus e tem a coragem de falar em intuição, em valores, então vamos também falar estas coisas”. Porque a maior parte dos cientistas de fato aceita estas coisas, mas não têm coragem de dizer porque estão com medo. “Se eu falar nestas coisas que parecem coisas religiosas, coisas metafísicas, coisas místicas, então o povo vai dizer, ele não vale nada, porque ele fala em valores, fala em Deus, fala em religiosidade”.
Agora muitos já criaram a coragem de falar nestas coisas porque alguém disse, alguém foi à frente. Foi a grande inovação que Einstein fez.  Teve a coragem de seguir a sua própria consciência e não ter medo “o que é que o mundo vai pensar de mim, a minha auréola cientifica não vai empalidecer com isto?” “Não, não faz mal, eu não estou interessado. Pode dizer que eu sou um boboca, ou não, não interessa. Que eu sou um místico, um beato. Não interessa. Eu digo o que eu acho que está certo”.

Teve a coragem inaudita - de dizer muitas coisas que os outros não tinham de dizer. Isto foi a grandeza de Einstein. Ter a coragem de professar verdades que a sua consciência lhe dizia.



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TRANSCRIÇÃO DA AULA 13 - Livre arbítrio e evolução

Curso 1978
Huberto Rohden
Aula 13: Livre arbítrio e evolução
23/08/78

            Vamos começar. Espero que não me deixem monologar. Que façam um pouco de diálogo porque não quero falar sozinho. De vez em quando vocês devem fazer perguntas porque senão vira monólogo e as aulas devem ser dialogadas. Então vocês devem dar os seus pareceres, fazer perguntas para eu poder completar.  Vou começar assim:
            Vocês sabem que estamos aqui no ocidente chamado cristão. Toda Europa e as Américas são chamadas “O Cristianismo”. O cristianismo abrange mais ou menos um terço da humanidade. Em toda a teologia de todo o cristianismo seja além ou aquém do Atlântico, não interessa, há só duas palavras importantes. E nós temos que tomar uma atitude filosófica em face destas duas palavras que são muito teológicas. Porque a teologia se dirige pela Bíblia, pelo Evangelho, pelas coisas feitas pelos homens ou inspiradas. Mas, nós na filosofia não podemos basear em nenhum livro. Devemos basear exclusivamente na razão.
            Então, eu quero propor essas duas palavras que funcionam há dois mil anos em todas as teologias cristãs de qualquer igreja. Chama-se: pecado e redenção. Pecado e redenção do homem. O que é que nós devemos pensar quando lemos que o homem é pecador e deve ser remido? Que é que nós podemos pensar filosoficamente sem entrar em nenhuma teologia. Quer dizer, a idéia de pecado e redenção tem por base o livre arbítrio, porque se não há livre arbítrio, não há tal coisa como pecado. O animal não tem pecado, a pedra não tem pecado, a planta não tem pecado. O animal não pode ser remido, a planta não pode ser remida.
Quer dizer, essas duas palavras - pecado e redenção - supõem o livre arbítrio... - que o homem possa fazer o mal e que ele possa também fazer o bem. O mal é negativo e o bem é positivo. Isso está por detrás destas duas palavras. O que é que nós devemos pensar filosoficamente sobre pecado e filosoficamente sobre redenção do pecado?...
Uma grande seita japonesa, muito conhecida aqui no Brasil afirma categoricamente de alto a baixo que não há tal coisa como pecado. E se a gente fala a eles em pecado eles falam. ‘Isto é bobagem, não tem pecado’. Isso é uma grande orientação no Japão, muito conhecida aqui no Brasil. Vocês conhecem todos. E ainda agora eu li no próprio Taniguchi que é o autor de tudo isto (eu tenho muitos livros do Taniguchi)... - tem um capítulo inteiro provando que não existe tal coisa como pecado na humanidade. Tudo isto é imaginação. Tudo é bom, nada é mau.
Quer dizer que nega o livre arbítrio, é claro. Se nós negamos o livre arbítrio reduzimos o homem ao animal porque o animal não tem livre arbítrio. Se quisermos manter uma diferença essencial entre a natureza inferior (mineral, vegetal e animal) e a humanidade temos que aceitar a idéia do livre arbítrio. Porque a única diferença entre nós e a natureza é o livre arbítrio. A natureza não tem responsabilidade. A natureza não é responsável por nada que faz, porque ela tem que fazer isto automaticamente. Ela não faz livremente nada. Ninguém. Nenhum ente da natureza, nem pedra, nem vegetal, nem animal faz.
Se nós não podemos fazer nada livremente como diz Taniguchi e outros, então nós não temos nenhuma diferença do resto da natureza. Mas, todo mundo acha que nós somos essencialmente diferentes. Que nós podemos fazer-nos melhores do que somos e podemos fazer-nos também piores do que somos. Isto é convicção universal da humanidade. E não é só do cristianismo. No paganismo também. A filosofia da Índia, da China e do Japão também aceita o livre arbítrio.
Quer dizer, não podemos desistir desta idéia de que haja no homem algo pelo que ele se possa fazer maior do que é, ou menor do que é. Aquele pensador moderno que nos deu essas palavras maravilhosas: “Deus creou o homem o menos possível para que o homem se possa crear o mais possível”, (de um pensador europeu) – é uma afirmação do livre arbítrio.

É claro, se Deus fez o homem o menos possível, apenas potencialmente humano, para que o homem se possa fazer atualmente, perfeitamente humano, então isto é uma afirmação do livre arbítrio. Então vamos antes de tudo afirmar: “Nós temos uma faculdade pela qual nós podemos ser moralmente maus e moralmente bons”. Estou falando no terreno moral. Fisicamente, tudo que foi feito é bom. Mas moralmente, não. Fisicamente é uma linha só. A creação é isto.



Isto não é moralmente bom nem moralmente mau. Isto é fisicamente bom. Aliás, neutro. É melhor dizer neutro para não confundir. Vamos por o sinal neutro aqui. Isto não é nem positivo, nem negativo, isto é neutro (travessão). Aqui começa a humanidade. Temos que fazer duas linhas, uma linha bifurcada. Até aqui não há linha bifurcada. Aqui não há nada de moralmente bom nem moralmente mau. Aqui na natureza. Tudo é neutro. Moralmente falando tudo aqui é neutro. Aqui começa a diferença. Aqui temos que pôr um positivo e um negativo, quando começa a humanidade. Quer dizer aqui podemos dizer, moralmente bons e moralmente maus. Aí está o livre arbítrio. Aqui entre os dois está a antítese do livre arbítrio. Porque se não há livre arbítrio ninguém é bom e ninguém é mau.
E dizer que alguém possa ser mau e alguém possa ser bom é pura fantasia se não há livre arbítrio. Suponhamos o seguinte: na última guerra foram mortos mais de seis milhões de pessoas inocentes que não tomavam parte na guerra. Não eram soldados, eram famílias que foram bombardeadas e mortas nos campos de concentração. Isso era bom ou mau. Nós entendemos que quem foi responsável por seis milhões de mortes de inocentes não praticou uma coisa moralmente boa. Praticou uma coisa moralmente má. E cada um de nós tem a impressão que ele pode fazer coisas moralmente boas e moralmente más.
A consciência é uma coisa misteriosa. A consciência sempre nos diz: isto foi mal feito. E também nos louva de vez em quando - de estar muito bem feito o que fizeste. Quer dizer, há uma voz em nós que aprova e desaprova o que nós fazemos. Contra a nossa vontade. Se fosse feita por nós, a consciência, nós não podíamos ter remorsos, sentimentos de culpa, de maldade. Mas todo mundo de vez em quando, tem a certeza de que ele é culpado, que ele fez mal, que ele não devia ter feito, que deve se arrepender e ter remorsos. Isto é universal na humanidade.Logo a humanidade supõe que haja diferença essencial entre o bem e o mal.
Bem, isto como início, mas, como vamos explicar isto filosoficamente...- sem entrar em nenhuma teologia. Eu já tentei isto uma vez, mas não terminei. Vamos fazer mais uma vez a mesma linha que fiz em outra ocasião. Vamos fazer a linha da evolução humana que começa lá em baixo, vamos dizer, começa com um e pode ir até 100 e muito além de 100. Não precisa acabar aqui. Porque a evolução é indefinida. Ela não acaba nunca. Não tem um ponto final.


Bem então, vamos marcar três estágios evolutivos. Um estágio evolutivo – início da humanidade. Marcar aqui um outro estágio evolutivo mais adiantado. E aqui um terceiro estágio evolutivo. Isto nós podemos dar três nomes a estes estágios evolutivos. Isto na Bíblia se chama o Éden, o paraíso terrestre, onde o homem não era bom nem mau. Era neutro. Ele era inocente como qualquer animal, como qualquer planta. Claro, o animal sempre é inocente, nunca tem pecado. Então o homem praticamente estava aqui no princípio. Ainda não tinha despertado nele isto aqui. Começa a divisão aqui. Mas como o homem foi saindo do Éden, do paraíso, foi até o segundo estágio de evolução em demanda do 3o, mas não está no 3o.
Com as palavras de Teilhard de Chardin, este grande cientista do nosso século, isso seria biosfera. Bios quer dizer vida. Aqui o homem estava na biosfera, quer dizer na pura natureza. Sem diferenciação entre bom e mau. Então o homem foi caminhando na biosfera, aqui ele entrou na noosfera, segundo Teilhard de Chardin. Noos quer dizer inteligência. Aqui ele devia entrar na logosfera onde não estamos ainda. Teilhard de Chardin usa palavras gregas. Então, no princípio estávamos na biosfera, na esfera da vida, da natureza, depois entramos na inteligência, noos em grego. E aqui estamos nós praticamente. Estamos demandando isto. Alguns alcançam aqui (logosfera), mas a humanidade toda não alcançou.
Esta biosfera é um estado mais ou menos neutro, onde não somos nem bons nem maus, ainda. Porque se não temos a função do livre arbítrio somos como uma criança recém nascida. Ela pode mais tarde adquirir o livre arbítrio, mas uma criança recém nascida está praticamente na biosfera. Ninguém pode dizer que ela é virtuosa ou viciosa, uma criança recém nascida. Ela não tem culpa nem merecimento. Não pode ter culpa nem merecimento porque isto supõe a função do livre arbítrio. Na criança não está funcionando nenhum livre arbítrio. Nem pró nem contra. Quer dizer que a criança não pode ser moralmente boa nem moralmente má. Ela pode ser isto fisicamente, mas não moralmente.
Então podemos dizer, isto é estado inicial da humanidade. Ponto mais baixo da nossa humanidade. Podemos dar outros nomes a este estado. Freud chamaria isto id. Quem estudou lá as coisas de Freud sabe que ele faz distinção entre o id que é palavra latina, quer dizer neutro. O que não é masculino nem feminino é chamado id em latim. E Freud usa o estado neutro dizendo que era o nosso id. O nosso inconsciente... - quando nós somos inconscientes não somos nem positivos nem negativos. Nós não praticamos o bem, nem praticamos o mal, quando somos inconscientes – no estado de sono, por exemplo, nós estamos numa espécie de id. Estamos numa espécie de naturalidade moral. Não somos responsáveis por nada que acontece. E uma criança está no id. Quer dizer, no estado neutro, nem positivo nem negativo.
Isto Freud chamaria o ego – que nós também usamos o termo ego que é palavra latina para Eu. Mas, usamos a palavra latina ego para diferenciar do Eu – que é português. Porque já temos a palavra egoísmo, etc. cuja base é ego. Então vamos dizer que no 2o estágio de acordo com Freud também, ego. E se adiantarmos mais, segundo Freud teríamos o superego.  Mas nós vamos simplificar a coisa e dizer, no Eu. Seria o itinerário evolutivo – o homem começa no id. No anterior ao moralmente bom e ao moralmente mau.
Mas, acontece que a evolução não pára. E ele saiu do paraíso terrestre e foi expulso. Está aqui agora. Aqui começa a tal história do pecado. Então ele se tornou pecador. Antes ele era inocente. Não era inocente por perfeição, por favor -, os teólogos pensam que nós éramos inocentes por perfeição. Não, nós éramos inocentes por imperfeição. Um animal não é inocente por perfeição. É inocente por imperfeição. Uma criança não é inocente por perfeição. Ela é inocente por imperfeição. Por falta de evolução ela é inocente.
Portanto, pode haver uma inocência negativa, isto é, por imperfeição. Aqui também poderia haver uma inocência por perfeição. Se nós estivéssemos aqui, então nós seriamos inocentes, sem pecado, por perfeição absoluta. Estado do Cristo, mais ou menos, aqui seria o estado crístico que no Evangelho é chamado Logos.
 Mas, nós não estamos aqui. Não vamos ainda deliciarmos com esta perfeição - esta inocência por perfeição. Já saímos da inocência por imperfeição. Mas, não atingimos a inocência por perfeição. É claro que não atingimos. Pode ser um ou outro, mas o grosso da humanidade não conseguiu. Nós estamos praticamente entre o id e o Eu. Entre a biosfera e a logosfera. A humanidade está toda praticamente aqui.
Quer dizer, há uma evolução que começa aqui numa natureza pura, vai subindo, desenvolvendo, pouco a pouco, aqui adquirimos a consciência do ego. Nesse estágio aqui, esse bios, este ser vital (bios é vida), este organismo vital... - é claro que nós viemos do organismo vital. Nós não viemos do barro como muitos pensam. Nós viemos de um ser já vivo. Antes de sermos intelectualizados aqui, nós viemos duma base de vitalidade já formada, mas sem intelectualidade. (aqui é vitalidade sem intelectualidade). Aqui é id sem ego. A intelectualidade é o ego e a racionalidade é o Eu.
Então fomos expulsos, dizem os teólogos, do paraíso terrestre porque nos tornamos pecadores. Quer dizer, a expulsão é a passagem do id para o ego, claro!... É uma questão de evolução, mas eles pensam que é uma queda. Um desastre, uma catástrofe que deve ser neutralizada. Filosoficamente nós não podemos aceitar isto. A necessidade da evolução nos expulsou da biosfera e nos introduziu na noosfera. Nós estamos agora na intelectualidade.
Aqui começa o nosso livre arbítrio, mas imperfeito ainda. Aqui não há livre arbítrio nenhum. Aqui há um semilivre-arbítrio, não um plenilivre arbítrio. Aqui não há um livre arbítrio perfeito, mas o início. Aqui nós já somos responsáveis pelo que fazemos. Somos responsáveis pelo bem e somos responsáveis pelo mal. Andamos em eterno conflito entre o bem e o mal. É o nosso estado atual de hoje.
Bem, então aqui seria o 2o estágio de evolução. Daqui em diante é possível o pecado. Aqui não é possível o pecado. Logo, se os teólogos falam em pecado e redenção, é claro que eles falam desses dois estágios evolutivos. Toda a teologia gira entre esses dois pontos do ego e Eu. Em linguagem filosófica nós chamamos isto o estágio do ego, da inteligência, mas ainda não da razão. Cuidado, não confundir inteligência com razão. Então nós estamos aqui em estado de pecado porque aqui nós temos um livre arbítrio parcial, mas ainda muito incompleto - muito fraco. Às vezes fazemos o mal, então prevalece o nosso negativo e às vezes fazemos o bem, prevalece o positivo. Quer dizer é um eterno jogo entre positivo e negativo. Toda a nossa vida ego atualmente é um jogo permanente entre positivo e negativo.
São Paulo descreve isto dramaticamente na epístola aos romanos: “o bem que eu quero fazer isto eu não faço e o mal que eu não quero fazer, isto eu faço. Que enígma sou eu” - ele diz - “quem me libertará deste corpo mortífero”. Quem me libertará deste ego, nós diríamos, porque o bem que eu quero fazer não o faço. E o mal que eu não quero fazer eu faço. Há dentro de mim duas leis. Paulo de Tarso diz isto. “Há dentro de mim a lei do bem e a lei do mal; estão em eterno conflito. Quem me libertará deste modo infeliz? A graça de Nosso Senhor Jesus Cristo”. Ele exclama no fim.
Ele quer dizer, enquanto eu estou no 2o estágio de evolução...- o jogo entre o sim e o não, entre o positivo e o negativo, eu não tenho sossego. Mas algum dia eu vou ser liberto por isto. Isto ele chama a graça do Cristo. É o logos, é claro! Ele tinha uma intuição certíssima, mas os nossos teólogos não sabem explicar isto filosoficamente. Nós devemos chegar a uma explicação inteiramente independente de qualquer teologia. Simplesmente pela razão.
Então o homem está aqui. Aqui o homem se tornou pecador. Aqui ele não era pecador e aqui ele pode ser santo, mas aqui ele não é inocente nem por imperfeição nem inocente por perfeição. Mas está entre dois estágios evolutivos. Isto então na teologia se chama a queda. A queda do homem é a entrada da biosfera para dentro da noosfera. O estado de inconsciência para o estado de semiconsciência. Aqui não tem pleniconsciência. Mas a inconsciência se transformou e semiconsciência. O ego nunca é pleniconsciente. Ele não é positivo - que seria pleniconsciente. Ele é parcialmente negativo e parcialmente positivo.
Então estamos aqui...- que eles chamam pecado. Mas, não no sentido teológico, que nós tenhamos caído neste pecado por culpa de algum diabo que veio de fora. Eles pensam que o pecado do homem aconteceu porque veio um fator externo, a serpente que é o símbolo do diabo, eles dizem; e este diabo nos empurrou para baixo. Isto é teologia. Mas isto nós não aceitamos na filosofia. A serpente de que fala Moisés era a nossa inteligência, mas os teólogos pensam que era o diabo. A nossa inteligência às vezes é diabo. Também, às vezes é Cristo.  Quando estamos no positivo podemos dizer, este é o nosso Cristo interno, mas também estamos no negativo também é o nosso anticristo interno.
É claro, nós tínhamos que passar do neutro da biosfera para um misto de positivo e de negativo. A bifurcação das linhas, onde começa o livre arbítrio. Mas um livre arbítrio muito incompleto, muito frágil, muito vacilante de cá para lá. E nunca podemos dizer de um dia para o outro se amanhã ainda vamos ser tão bons como hoje, ou tão maus como hoje. Não sabemos. Nós podemos variar de um momento para o outro. Porque tudo é instável e vacilante enquanto estamos na zona do ego, na noosfera.
Então falam os teólogos em redenção. Redenção seria isto aqui, a passagem...
-Se, por exemplo, nós estamos nesse estágio de evolução do ego para o Eu, a gente perde a matéria. Continuaria essa evolução?
Escute, esta matéria nada tem a ver com esta evolução. Esta evolução é puramente mental. Que tenhamos um corpo físico, ou sem corpo físico, não muda a nossa mentalidade. Não devem fazer depender o nosso estado de evolução de um corpo material ou sem corpo material. Isto nada tem que ver. Porque quem decide não é a matéria. A matéria não é responsável por nenhum pecado. A mente é a única responsável pelos pecados. A mente é o fator decisivo da nossa evolução. A mente, a parte intelectual que também se chama mente. A palavra mente, às vezes é tomada nesse sentido aqui. Espiritual. Mas geralmente nós usamos a palavra mente, mental no sentido intelectual. Quando eu digo aqui mente, eu entendo intelectual. Porque a palavra mente tem dois sentidos. Ela tem um sentido bom. A mente. E tem um sentido mau também. Tem um sentido positivo e tem um sentido negativo.
Em inglês só se usa a palavra ‘mind’ que corresponde à nossa mente (mens- mentis em latim- deu mente em português e mind em inglês). Os ingleses quase usam mind no sentido disto aqui. Science of mind – a ciência da mente - eles entendem a ciência espiritual é uma revista lá da Califórnia que eu recebi muitos anos. Ciência da mente eles chamam a ciência do espírito. Isto é o modo de aceitar a palavra mente porque a mente pode ser aceita em 2 sentidos. A mente pode ser uma nuvem. Se eu olho a nuvem de cima ela é toda luminosa, porque é batida pelo sol. Se eu olho esta nuvem de baixo ela é toda escura. A mente é como isto. Ela é luminosa por um lado, mas ela é escura por outro lado. Se eu chamo mente a parte espiritual da inteligência, a parte boa, a parte positiva, então a mente é isto, esta parte superior. Mas se eu falo da mente em sentido negativo então eu entendo por mente a inteligência, o intelecto, o noos. Eu, nestas aulas vou falar somente da mente no sentido do intelecto e não no sentido de espírito.
Então aqui nós temos corpo, mas o nosso corpo não é bom nem mau. Moralmente bom não é o corpo, nem moralmente mau. O corpo não pode ser moralmente responsável porque o corpo pertence a isto aqui. O corpo está ainda na biosfera. O corpo nunca vai sair da biosfera. É o nosso invólucro material. É o nosso invólucro animal. Não vão dizer que o corpo comete pecado. O corpo não comete nenhum pecado. A mente é que é pecadora. O corpo também não tem virtude. O corpo não é virtuoso e não é vicioso. A mente é que pode ser virtuosa e pode ser viciosa.
Então tomemos a mente aqui, tenha corpo ou não tenha corpo - isto é completamente indiferente. Vocês não devem pensar que vamos perder o livre arbítrio porque perdemos o corpo. Não é verdade! Ninguém perde o livre arbítrio pelo fato de ter perdido o corpo. Nós somos tão livres depois da morte como antes da morte. Muitos pensam que até o corpo seja um impedimento para o desenvolvimento do livre arbítrio e que seja melhor não ter corpo material para desenvolver a mente, do que ter corpo material.
Bem isto são opiniões particulares. Em todo caso o corpo não é a sede do livre arbítrio. Não é a sede do mal e não é a sede do bem. Quem é a sede é unicamente o nosso ego mental, mas não o nosso ego físico. Não vão atribuir ao seu ego físico as suas maldades. O corpo não pode ser pecador. O corpo não pode também ser santo. Quem pode ser pecador e quem pode ser redentor que é o contrário de pecador é a mente.
Quando a mente é positiva nós chamamos virtuosa. Quando ela é negativa nós dizemos, viciosa. São estágios de evolução. Aqui nós estamos oscilando entre pecado e redenção. Aqui não estamos definitivamente na redenção.  O nosso Eu não é redentor aqui. Aqui o nosso ego às vezes parece ser redentor e nos redime do pecado. E depois verificamos que ele não é ainda redentor. Que nós estamos vacilando sempre entre dois pólos. Entre o positivo e o negativo. Entre o bem e o mal. E isso se chama o pecado original.
Quanto se tem escrito e discutido em torno de pecado original. Isto é o pecado da nossa origem, mas não é a herança de um casal que tenha pecado e nós tenhamos herdado o pecado de um casal. Isto se diz lá na teologia, mas é insustentável. A teologia se diz, Adão e Eva pecaram e nós herdamos o pecado deles porque nós somos descendentes deles. Isto é insustentável. O pecado original faz parte da nossa evolução. Nós nunca nos podemos libertar do pecado original enquanto não sairmos daqui.
Aqui nós não tínhamos o pecado original porque não tínhamos ainda livre arbítrio. Depois entramos num livre arbítrio fraquinho semilivre aqui. Aqui nós entramos na zona do pecado original. O pecado original não é herança de outros, é evolução de cada um de nós. Nós todos agora estamos no pecado original. Batizados ou não, isto não resolve nada. Mas, os teólogos pensam que se a gente recebe um copo d’água na cabeça e uma certa forma então está fora do pecado original. Ah! Se fosse tão fácil, que coisa boa seria.
Se eu pudesse progredir deste para cá... - somente um copo d’água... - ou um mergulho no rio... - isto é muito fácil. Não, o pecado original faz parte da nossa evolução humana. É a nossa origem - que a nossa origem é propriamente aqui. Aqui, não é propriamente a nossa origem. Aqui é apenas a parte material do homem. Mas, onde não há livre arbítrio ainda não há origem humana. A origem humana começa aqui; onde desperta o livre arbítrio começa propriamente o ser humano. E com isto nós entramos na zona do pecado. Isto é, da pecabilidade, não necessariamente dum pecado atual, mas um pecado potencial.
Aqui nós somos potencialmente pecadores. Todos nós. O livre arbítrio imperfeito nos torna potencialmente pecadores. Não precisamos ser atualmente pecadores porque temos o livre arbítrio de não pecar, mas somos potencialmente pecadores. São Paulo descreve isto na epístola aos romanos – que muitos não compreendem – que todos os homens são pecadores. Ele não quer dizer que são atualmente pecadores. Ele quer dizer que são potencialmente pecadores, isto é pecáveis. Seria melhor dizer pecável. Cada um de nós é pecável enquanto está na noosfera. Cada um de nós está com pecado original enquanto não terminou a sua evolução. A única saída do pecado original é a evolução. A saída é aqui, mas a saída não é um copo d’água.
-Professor, e qual o significado de Jesus ter sido batizado por João Batista. Seria...
-Escute, primeiro, vamos ver mais longe, João Batista nunca batizou uma criança, porque ele não acreditava em pecado original. Ninguém no Evangelho acredita em pecado original. Nem Jesus, nem João, ninguém sabe de pecado original. Jesus nunca falou em pecado original. João Batista nunca falou em pecado original. O que ele fazia com os adultos (ele só batizava os adultos, aliás, batizava não, batizar é uma palavra grega – temos que traduzir – mergulhava) – João Batista mergulhava os pecadores adultos.
Então Jesus pediu que o mergulhasse. João não quis, por que não quis? Porque ele só mergulhava pecadores, mas, não mergulhava Jesus porque ele já tinha dito, “eis aí o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. Logo, ele não supunha que Jesus fosse pecador. Nem pecador criança, nem pecador adulto. Para os pecadores adultos ele exigia conversão antes do mergulho. Olhem bem! Aos ricos e poderosos ele dizia, “se alguém tem duas túnicas e vê alguém que não tem nenhuma, dê uma das suas túnicas a outro”.   Isso é conversão. E se alguém tem o que comer e vê alguém que não tem o que comer dê uma parte da sua comida ao outro. Isto é conversão. Aos soldados romanos João dizia: “contentai-vos com vosso soldo e não pratiqueis violência”. Porque os soldados andavam armados, podiam praticar violência. Então João diz: “contentai-vos com vosso soldo”. Não pedindo cada dia majoração de salários. Soldo é aquilo que se paga aos soldados. “E não pratiqueis violência”. João exige conversão interior, espiritual. E quando os pecadores estavam prontos a não praticar violência, a se contentar com o seu soldo, a dar uma parte da sua comida aos outros e a dar a 2a túnica aos outros, então João os considerava convertidos.
Então João dizia: “A sua conversão é sincera ou não?” Eles diziam “A nossa conversão é sincera, eu não vou fazer violência, não vou pedir majoração de pagamento”. Então João diz: “Então entra na água e prova por um sinal externo que a sua conversão interna é sincera”. Então João mergulhava o pecador já convertido interiormente, mergulhava nas águas do Jordão, praticando uma cerimônia muito simbólica, como São Paulo explica. Porque, isto de mergulhar quer dizer morrer, isto de sair fora d’água quer dizer, nascer de novo“Morre para tua vida pecaminosa, nasce para uma vida virtuosa”, isto era um simbolismo que João praticava.
Ele era muito poeta. “Morre debaixo d’água para tua vida pecaminosa, nasce para uma vida nova”. João sempre praticava isto. Mas não era o mergulho, nem a imersão, nem a emersão (porque o mergulho tem duas coisas, imersão para baixo e emersão para cima) – João nunca acreditou que um mergulho da imersão e da emersão desse espiritualidade aos pecadores. Isto ele nunca diz. Isto nós interpretamos errado. Ele sabia que fulano se tinha convertido interiormente. Já não era o velho pecador. E para confirmar exteriormente por uma cerimônia simbólica a conversão já ocorrida (o mergulho não era a conversão, a conversão já estava pronta, ele já se tinha convertido interiormente, ele só confirmava com uma cerimônia externa a conversão).
Depois aparece Jesus e pede a João que o mergulhe. João diz, “não, quem devia ser mergulhado sou eu e não tu”. Ele conhece muito bem que ele não estava aqui. Mas Jesus estava aqui, ele era o logos. Mas Jesus insiste: “Façamos por ora tudo que é justo”. Então João atendeu porque ele compreendeu que Jesus não queria dizer: “Eu sou pecador e eu tenho de ser mergulhado por ti na água para deixar de ser pecador”. João compreendeu que isto não era verdade. “Eu devia ser mergulhado por ti, e como é que tu vens ser mergulhado por mim”. Então Jesus diz as palavras misteriosas: “façamos por ora tudo que é justo”. Então João compreendeu o que Jesus quis dizer... O que é que ele quis dizer?  Por que é que Jesus disse “façamos por ora o que é justo?”
-Para as pessoas entenderem...
-Ninguém leu nada sobre os Essênios, eu estou vendo. Os Essênios moravam no noroeste do mar Morto. Eu estive lá. Era uma sociedade mística e ética muito rigorosa e evidentemente Jesus e João foram membros dos Essênios. Não há dúvida nenhuma. A doutrina de Jesus é a dos Essênios. Eles fizeram parte da comunidade dos Essênios. Depois se separaram. João esteve toda a sua juventude no deserto, diz o texto. Mas, aquilo é deserto. Vocês pensavam que ele andava lá fora? Não, ele estava na comunidade dos Essênios. João Batista, e Jesus também tinham estado lá.
-É uma comunidade só masculina...
-É, só masculina porque há rigoroso celibato voluntário e não tinha mulheres entre eles. Então, eles eram ascetas terríveis. Então, os Essênios praticavam constantemente o mergulho, muitas vezes na vida e não uma vez. Todos os Essênios praticavam o mergulho. Toda vez que o Essênio mudava de profissão ou de ocupação qualquer, ele fazia o mergulho. Imersão e emersão. A imersão quer dizer, morte para uma atividade e a emersão é nascimento para uma segunda atividade. Isto era o que Jesus pediu a João. “Eu vou começar uma outra atividade agora”.
 Porque ele tinha estado 30 anos em Nazaré, numa solidão quase completa. Trabalhando na carpintaria e fazendo muita meditação. É claro que ele vivia dias inteiros em meditação. Sem dúvida nenhuma. Agora ele diz, eu terminei o meu período místico, meu período de eremita. Ele era um eremita, é claro. 30 anos! Desde 12 até 30 - são dezoito anos completos, ele não aparecia em público, ele não falou ao povo. Não curou ninguém, não ensinou ninguém.
Quer dizer, ele levava uma vida de místico solitário. Aos 30 anos ele apareceu e diz: “João terminei o 1o período da minha vida mística. Eu vou começar agora uma vida social de curador, de pregador, etc... no meio do povo”. Levou três anos de vida social no meio do povo. “Portanto, mergulha-me, faça o que é justo”. Ele disse, ele se refere aos Essênios. “Tu sabes que nós, os Essênios, sempre quando terminávamos uma ocupação e começávamos outra, praticávamos o mergulho; então, faça o que é justo, mergulha-me”.
Então João fez isto, o mergulhou e o fez sair da água. Isso é que Jesus quer dizer. “Façamos o que é justo conforme o nosso costume dos Essênios”. Isto é o que ele quis dizer... Bem, mas estamos desviando do nosso tema. Passou a hora mesmo.
Bem, por enquanto saibam disto... - a nossa viagem é do inconsciente do id para o semiconsciente do ego e no semiconsciente do ego nós todos somos potencialmente pecadores. Aqui nós tornamos pecadores e aqui não seremos. Aqui, no intermediário é que nós somos, não necessariamente, atualmente. Mas, potencialmente, todos nós somos, porque quem tem apenas metade da sua liberdade espiritual como nós não temos aqui...- nós não somos plenamente livres aqui... - nós somos semilivres e semi-escravos. Semilivres e semi-escravos. Tudo é possível aqui. Se cairmos na escravidão, então somos pecadores. Se superamos a escravidão, estão estamos libertos por algum tempo. Sempre oscilando de cima para baixo. É o estágio da nossa evolução.
Vocês devem explicar a teologia, não em forma de dogmas, não em forma de credos. Mas em forma de realidade da vida humana. Porque a vida humana passou por esses estágios. Nós estamos em plena evolução. Nós saímos de lá do Éden, nós nos expulsamos pela nossa evolução. Cada um de nós se expulsou do id para entrar no ego. Estamos atravessando a nossa passagem pelo ego. Isto é pecado. Aqui nós somos todos pecadores, não atuais, mas potenciais. Todos somos. Porque não estamos garantidos, quanto a quedas e recaídas. Enquanto estamos no ego vamos oscilando de cá para lá. Às vezes ficamos muito tempo no positivo e depois caímos no negativo. Outros ficam permanentemente no negativo. É culpa deles. Podiam estar no positivo também, mas, não querem.
Então mais tarde, depois do pecado vem a redenção. A redenção não vem de fora. A redenção é uma fase da nossa evolução. Não existe alo-redenção. Existe só auto-redenção. Ninguém me pode redimir exceto eu. E ninguém me pode fazer pecador, exceto eu. Pecado e redenção vem de nós mesmos. Isto os teólogos não podem compreender. Pecado e redenção vem de nós, da nossa natureza humana, imperfeita ou perfeita.
-Nós não somos culpados pelos pecados dos nossos antepassados...
-Não, não, ninguém pode ser culpado pelos pecados dos outros, acabou-se a história... Eu não posso ser culpado pelo pecado de nenhum de vós e vós não podeis ser culpados pelo meu pecado. Cada um de vós pode ser culpado pelo seu pecado pessoal. Ele tem o livre arbítrio para si, mas não tem o livre arbítrio para os outros. É claro, vamos retificar as nossas idéias. É necessário que tenhais clareza sobre isto, porque há uma confusão imensa, há dois mil anos. Erros fossilizados nesse terreno. Temos que retificar e elucidar para que vocês possam defender a idéia de pecado e redenção.
Nós não podemos abolir as duas idéias. Devemos elucidar. Nós não podemos dizer que não há pecado. Também não podemos dizer que não há redenção. Há pecado e há redenção, mas não no sentido em que a teologia quer, mas em outro sentido, muito melhor e muito mais profundo. São estágios da nossa evolução humana muito imperfeita e precária por enquanto. Porque o batismo vem com a evolução superior. Se nós chegarmos até aqui na logosfera então não precisa nenhum copo d’água. Pela nossa própria evolução mental e agora espiritual, porque o mental agora se converte em espiritual aqui. Nós estamos completamente redimidos de qualquer pecado e suas conseqüências. Vocês devem pensar em termos de filosofia correta.
-O Senhor disse que a humanidade está atualmente no meio, no estágio ego. Do id para o ego em demanda do Eu. Há um processo para acelerar a passagem.
-Bem sobre isso ainda vou falar numa próxima hora. Agora vou só mencionar. Aqui, nós somos um composto de positivo e negativo. O nosso ego por fora é muito negativo. Por dentro também é positivo, porque o nosso Eu já está embrionariamente contido no nosso ego. Não se esqueçam. Isto que nós vamos alcançar um dia já está embrionariamente contido no ego, mas não se manifestou.
Quando nós descobrimos o nosso Eu dentro do nosso ego, notem bem, quando nós descobrimos o nosso Eu, logos, dentro do nosso ego, noos... - então nós estamos em caminho de evolução superior. Isto se chama hoje em dia autoconhecimento. Quando eu entro no autoconhecimento e me conheço não como um ego negativo, mas como um Eu positivo... - eu sou negativo por fora, mas eu sou positivo por dentro. Se eu olho de fora para dentro e digo: “eu não sou somente o meu ego negativo, que é uma casquinha, eu sou também o meu Eu positivo, se eu conscientizar o Eu positivo dentro do meu ego negativo, então eu faço autoconhecimento, é o único caminho da evolução, se eu vivo de acordo com meu autoconhecimento eu vou fazer um progresso rápido rumo a logosfera”.
Isso é unicamente uma questão de evolução consciente. Nós devemos conscientizar aquilo que somos. Nós somos o nosso ego por fora, mas somos o nosso Eu por dentro já agora. Nós já somos isto. Vamos pintar assim. Isto é a nossa natureza humana por enquanto. Por fora, tudo negativo. Mas por dentro nós já somos isto.
Quando nós não temos conhecimento exato de nós, nós dizemos que somos tudo isto negativo, ego, ego, ego...- fazemos uma entrada para nosso interior. Isto se chama meditação para autoconhecimento. Então descobrimos, “eu não sou somente o meu ego externo, físico, mental, emocional, eu sou também o meu Eu interno, espiritual, eu já sou potencialmente na logosfera, eu estou atualmente na noosfera, mas dentro de mim já existe isto... já está aqui, eu ainda não conscientizei a realidade e não vivi de acordo com a realidade”. Então o grande mestre diz: “Conhecereis a verdade sobre vós mesmos e a verdade vos libertará”. Que grande palavra. “Conhecereis a verdade sobre vós mesmos... (aqui) eu também já sou espírito por dentro... e o conhecimento da verdade vos libertará de toda esta miséria aqui”. Aqui nós estamos libertos, aqui é completamente libertação. Aqui estamos semi-escravizados e semilibertos. Aqui estamos plenilibertos. Aqui estamos semilibertos.
-A criança já tem a potencialidade do logos?
-Tudo está lá. Tudo está em qualquer ser humano. O homem não foi animal. O homem foi homem desde o princípio. Mas, a sua potencialidade era tão fraca que não se manifestou. O homem foi homem desde o princípio da creação. Agora ele se manifesta pouco a pouco. Primeiro como mente, depois como espírito.

*   *   * 

TRANSCRIÇÃO DA AULA 14 - O Homem Potencial


Curso Filosofia Univérsica
Huberto Rohden
Aula 14  - 29/08/78
O homem Potencial

            As minhas aulas não são para os veteranos. Nós temos aqui veteranos e veteranas, cinco anos, dez anos, vinte e tantos anos, alguns estão aqui. Minhas aulas são somente para os principiantes e para os novatos. Porque os veteranos já devem estar supersaturados, enjoados e enfastiados das minhas repetições; porque infelizmente na filosofia não se pode fazer nada sem repetir. Não basta engolir, é preciso repetir. Não basta devorar, é preciso ruminar. E por isso, eu digo que é, sobretudo para os novatos, para os principiantes, e não para os veteranos que estão supersaturados dessas repetições. Nós temos que repetir muitas vezes a mesma coisa para assimilar. Não basta engolir, é preciso assimilar. Isso não se pode fazer muito depressa. Engolir é um instante, mas assimilar leva tempo.
            Então vamos voltar ao nosso tema: o homem esse desconhecido. Porque todo mundo escreve livros sobre o homem e todo mundo confessa que é um enigma, um paradoxo, um X, um desconhecido, etc... Mas, por que isso é assim? Porque eles se baseiam em duas hipóteses das quais nós não aceitamos nenhuma. Ao menos, eu não. Essas duas hipóteses de fato fazem do homem, um desconhecido, um enigma, uma esfinge; ou talvez o melhor de tudo, como disse Pascal, uma miscelânea de misérias e de grandezas. Isso chega perto da solução, mas não é bem uma solução. Uma miscelânea de grandeza e de miséria, disse Pascal.
            Há duas hipóteses correntes por aí. Uma de 2000 anos e outra de 100 anos apenas, não são aceitáveis. Nós não podemos aceitar, nem a hipótese teológica que já tem 2000 anos, nem sequer a hipótese assim chamada cientifica, que tem apenas um século. Porque ambas são fora da lógica e fora da matemática. E nós temos que argumentar dentro da lógica e dentro na matemática. 
            Todos sabem e eu repito que a hipótese teológica é esta: que o homem foi colocado aqui neste mundo diretamente por Deus, imagem e semelhança de Deus. Quer dizer, uma perfeição absoluta. Se ele é a imagem e semelhança de Deus, é claro que era 100% perfeito, 100. Imagem e semelhança de Deus tem que ser 100. Então ele foi colocado aqui nessas alturas. Isto era o homem primitivo, o Adão.


Adão não é o nome dele, é um apelido, e Eva também não, como todo o mundo pensa. São apelidos. Adão quer dizer, o primeiro ego. E Eva quer dizer: reflexo, imagem.
            Então Adão teria sido 100% de perfeição. Soa muito bem no princípio. Que coisa maravilhosa Deus fez no fim do 6o dia da creação! Ele disse que era muito bom.  Quando Ele fez as creaturas, o Gênesis diz que era bom. E quando creou o homem diz que era muito bom. Isto era muito bom. Mas aconteceu segundo nós entendemos isto: caiu de 100 para 1 - a queda do homem. A queda desastrosa, catastrófica do homem.
Isto nos foi ensinado, isto nos fomos aceitado e isto encontra até hoje em toda a teologia. Por que é que não podemos aceitar isso: a queda de 100 de perfeição para 1? Não para zero, porque ele continua a ser homem. Zero não seria mais homem. Ele continua a ser homem, mas um homem imperfeitíssimo.   
Isto é uma hipótese insustentada. Eu não falo contra o Gênesis, eu falo das nossas interpretações do Gênesis. Eles não sabem interpretar o Gênesis porque o Gênesis é uma intuição cósmica, mas as nossas análises intelectuais erram em todos os sentidos. Porque a culpa não é do Gênesis, nem de Moisés. A culpa é das nossas interpretações. Nós interpretamos assim: caiu de 100 para 1. Aqui no abismo.  A queda do homem é uma queda catastrófica.
Bem, e depois há uma tentativa de reerguê-lo, a ver se chega outra vez a 100. Isso chama redenção. Então há duas coisas creação, queda e redenção. Isto é aceitável nas explicações que nós tomamos, por duas razões. Primeiro um homem 100% perfeito não podia cair. Cair pode um homem semiperfeito e muito imperfeito, mas, um Cristo (isso seria um Cristo, é claro!) Como é que pode cair sem mais nem menos de 100 para um 1. Não é possível, é contra toda a lógica! E quem foi esse poderoso anti-Deus que o fez cair? O diabo. Esse diabo é mais poderoso que Deus. Tudo isso é inaceitável perante o bom senso e a lógica.
Portanto temos que abandonar - queiramos ou não queiramos - a hipótese teológica que é a mais conhecida. Não é possível esse ilogismo, não é possível aceitar que um homem perfeito, um Cristo, tenha caído de 100 para 1. Aquele outro Cristo que conhecemos pelo Evangelho não caiu. Lá na tentação aquele anticristo fez todo o possível para ele poder cair. Prometeu-lhe todos os reinos do mundo e sua glória, se o Cristo se prostrasse em terra e o adorasse como Deus. Queda é claro, catastrófica! Nada disso aconteceu. Cristo ficou em pé e não caiu. Como um obelisco não caiu por terra. E disse ao anticristo: vai à minha retaguarda, e vá de retro, (retro é retaguarda em latim) porque só a Deus adorarás e só a ele servirás. Ficou em pé, firme.
E este que era uma espécie de Cristo, como é que caiu? Desastradamente! É claro que não podemos aceitar isto. É contra a lógica. E o diabo seria tão poderoso para derrubar uma obra de Deus, perfeita. Vamos acabar com essa história que o homem tivesse entrado no mundo perfeito. Não é possível! Essa é a teoria teológica.



Depois vem aquela outra do século passado, a chamada darwinística ou científica. Bem, lá se diz que o homem não era homem no princípio. Era zero, depois se tornou homem, 1. Foi do animal, do não-homem que é o zero, o não-homem se tornou homem. Eu não sei, sobretudo, de que lógica nós podemos fazer 1 de um zero. Não dá. Se o homem no princípio não era homem, era animal puro aqui, um mamífero qualquer, como é que agora se tornou pouco a pouco homem? Até hoje, nunca mais acontece isto. Nenhum animal se torna homem. Em milhares de anos não se tornou. E continuou a sua homificação.
De maneira que essa estória do darwinismo, do zero para o 1 e depois do 1 para a evolução como eles querem... A dificuldade não é a evolução, isso seria possível, mas a dificuldade é a transição do zero homem para o 1. Não sei com que lógica se pode justificar essas coisas.
De maneira que vamos tentar uma terceira alternativa. Já que as alternativas: teológica e a chamada cientifica, não satisfazem, temos que adotar logicamente o seguinte; o homem entrou nesse mundo, homem grau 1. Não zero, mas 1. Já era verdadeiro homem, mas um homem muito atrasado. Muito imperfeito, mas não era zero, porque transição do zero para o 1 não há. Mas, podemos aceitar que ele entrasse 1.



E teve ordem de chegar até 100.  Esta história de imagem e semelhança de Deus não é aqui. A imagem e semelhança de Deus - é aqui.  Ele não era atualmente uma imagem e semelhança de Deus. Ele era potencialmente isto. Isto é razoável. Potencialmente ele foi creado para o fim de se tornar algum dia imagem e semelhança de Deus. Por isso ele recebeu como diz o Gênesis o sopro divino. O sopro divino o tornou potencialmente isso. Mas não atualmente. Os teólogos pensam que ele é atualmente, 100% perfeito. Mas, isto é insustentável. Ele era apenas potencialmente 100%, mas não atualmente. Então ele começou realmente com 1. Ele não caiu, ele foi creado aqui mesmo, ninguém o derrubou. A creação começa com 1. Os outros seres eram creados sem a potencialidade de se tornar homens. Ficaram atualmente animais, como até hoje. O único ser que foi creado com a potencialidade, com o poder, com a possibilidade de se tornar mais tarde o que devia ser imagem e semelhança de Deus.
Agora começa aqui a evolução. A evolução começa não com 100. Não com zero. Os teólogos querem 100, eles não aceitam mesmo a teoria da evolução. Mas os cientistas querem zero. Não podemos começar nem com 100, nem com zero. Então vamos começar com 1. E a evolução não foi em linha reta. Se a evolução fosse em linha reta não haveria dificuldade, mas isto não é possível. Porque a evolução foi em ziguezagues de toda espécie e diminuindo cada vez mais. Vamos fazer uma linha assim. Assim é explicável.


Com a evolução em altos e baixos. Não a evolução rápida em linha reta. Milhares de anos que estamos fazendo esse ziguezague aqui. Essa serpentina - vamos dizer melhor. E nessa serpentina está o caminho da nossa evolução. Entre 1 e 100. Eu não garanto que seja 100. Eu creio que pode ser além de 100. O Cristo disse que nós podemos ir além dele. Vamos dizer que 100 é do Cristo. Mas, ele disse: vós fareis obras maiores do que eu. Então podemos aceitar, podemos ir até além de 100 – mas vamos por enquanto marcar a chegada 100 - para termos um ponto fixo entre 1 e 100.
Bem, o homem começou a sua jornada aqui, há milhares e milhões de anos provavelmente. Eu creio que nós estamos há milhões de anos aqui na terra. Não começou há milhares de anos atrás, não – estamos há milhões de anos aqui. Mas, entre 1 e 100. Nós estamos perto de 1, talvez aqui (2) ou em qualquer ponto. Essa viagem é enorme, de milhões de anos. E dentro desta viagem em serpentina há dois fatores que nos levam à evolução. Dois fatores necessários para nossa subida. Um positivo e um negativo. Se não há dois fatores contrastantes não há evolução. Em todo universo não existe evolução sem resistência – como diz o livro: A Gnose de Princeton. Resistência é o conflito ente dois pólos aparentemente opostos, realmente complementares. Mas, eles lutam entre si como se fossem contrários – são complementares.



Então vamos dizer – havia o positivo, vamos pôr no ponto mais alto o positivo, e o negativo aqui no ponto mais baixo. Nós estamos acostumados usar positivo para Eu – e negativo para ego – nos pólos – (psicologia).  Isto então seria o Logos na qualificação de Teilhard de Chardin. A razão. E isto seria o noos, a inteligência. Podemos usar positivo e negativo. Podemos usar Eu e ego. Podemos usar Logos em grego e noos em grego. É tudo a mesma coisa. Apenas são outras palavras. Ou até em sânscrito: Atman e Aham. Aham é o ego. Em qualquer língua vocês podem usar isto. Mas vamos ficar com o nosso português, Eu e ego. Aliás, ego é latim. E positivo e negativo. Isto é claro!
Então o homem teve que traçar a sua viagem através da antítese entre positivo e negativo. Por quê? Porque sem antíteses não há síntese. Ele devia fazer esta síntese aqui, é claro. Mas, não fizemos ainda, vamos fazer algum dia talvez. A síntese é a união de dois pólos antitéticos complementares. Se os pólos fossem contrários não havia complementaridade. Mas como eles são realmente complementares pode-se estabelecer uma síntese entre duas antíteses. Entre a antítese positiva e a antítese negativa. É uma antítese – uma oposição. Entre esses dois pode haver um consórcio. Eles brigam sempre entre si, mas o final é a síntese. A finalidade das leis cósmicas não é uma eterna briga entre os dois. Não, é um conflito temporário – talvez de milhões e milhões de anos para promover a subida, a evolução. Porque todo o universo é feito assim. Contraste produz evolução. Onde não há contraste não há evolução. Onde não há antíteses, não há síntese. É preciso que haja antíteses complementares e não antíteses contrárias.  Senão não daria síntese. É lógico! Então aqui há antíteses complementares. E o que é que se chama agora a queda. É claro que isto aqui é uma queda. Este abismo aqui é uma queda. Isto aqui é uma subida, mas a coisa já começou com queda, então vamos apagar isto aqui. Pôr o outro aqui, melhor.

        > +  Sibilo da serpente
Se já desde o princípio segundo o Gênesis houve este negativo, este ego que prevaleceu contra o Eu então podemos dizer: isto é uma espécie de queda. Mas, não uma queda desastrosa, calamitosa. Ela estava dentro das leis cósmicas. A evolução não era possível sem altos e baixos. Isto é um baixo, isto é um alto. Depois vêm outros baixos.
Quer dizer: Primeiro prevaleceu o ego. Agora temos que pôr o Eu aqui porque ainda não prevaleceu e o Logos que é a mesma coisa. Isto se pode chamar uma queda, mas uma queda evolutiva, não uma queda calamitosa como pensam os teólogos. Era um desastre que não devia ter acontecido, de forma alguma. Não, devia mesmo acontecer. Estava previsto que acontecesse.  Isto aqui se chama o sopro de Deus, no Gênesis. Isso se chama o sibilo da serpente. A serpente produz um som que chama silvo ou sibilo. Então isto é a voz de Deus. Isto aqui é a voz da serpente. A serpente sempre foi o símbolo do nosso ego. Em todas as literaturas do mundo a serpente é tomada como inteligência. Inteligência é noos – é o ego. O ego é principalmente inteligência. O ego é, sobretudo mental. Então aqui prevaleceu desde o princípio a serpente. Quer dizer, o nosso pólo negativo.
O ego, a serpente prevaleceu desde o princípio, mas depois há subida – depois há quedas. E, se agora uma queda, nós podíamos figurar assim:

Negativo > positivo
Ego> Eu
Noos> Logos
Serpente> sopro de Deus

Vamos dizer, o negativo maior que o positivo, isso é uma ótima configuração para queda. Se o negativo prevalece sobre o positivo é uma queda. Aqui (>) quer dizer maior. Aqui o ego prevaleceu sobre o Eu. Aqui o noos prevaleceu sobre o Logos. Aqui a serpente prevaleceu sobre o sopro de Deus. Muito bem representado, graficamente assim. Isto é uma queda. Mas, uma queda necessária para a evolução. Não tem nada fora da evolução. A evolução exige altos e baixos. Exige descida e subida. Exige positivos e negativos. Exige uma viagem através do ego e do Eu. Nós não podemos traçar uma viagem só no Eu, nem só no ego. Nós somos um composto de dois pólos.
O interessante é que no hino da páscoa... (há um hino que se canta na véspera da páscoa nas igrejas cristãs – não sei se ainda cantam, no meu tempo se cantava) – na véspera da páscoa a gente canta aquele hino glorioso que começa: Exultet, em latim. Exultem todas as turbas celestes, exultem os querubins, exultem os cristãos - convidam todos os coros angélicos para exultar por causa da ressurreição do Cristo no dia seguinte. Então, neste hino Exultet tem duas palavras misteriosas. Lá tem uma glorificação dizendo: Ó culpa Felix, ó culpa feliz de Adão – Felix culpa – uma culpa feliz. Ó pecado realmente necessário de Adão para nos trazer tão grande redentor. Está lá, cantam nas igrejas. Todos os anos. É uma terrível heresia teológica. Mas é uma afirmação mística.
Quem fez este hino ninguém sabe. Alguns atribuem a Santo Agostinho – no 5o século. Eu acho mais parecido com Orígenes. Orígenes estava inteiramente nessa zona. Orígenes de Alexandria é do 3o século – escreveu coisas grandiosas que foram queimadas por ordem da hierarquia eclesiástica. Infelizmente os maiores livros de Orígenes não existem mais. Apenas temos notas dos discípulos dele. O maior livro de Orígenes foi Apokatástasis – em grego - quer dizer síntese. Ele fala da síntese entre as duas antíteses. Orígenes, cristão de Alexandria – dos neoplatônicos de Alexandria. No fim do 2o e princípio do 3o século. Lá ele diz: graças a Deus que houve uma culpa feliz! Graças a Deus que houve um pecado necessário! Pode-se falar misticamente, mas teologicamente, não. Quando a gente fala teologicamente a gente é herege. Mas, quando se fala misticamente, a gente é um grande vidente.
Então, aqui há a culpa feliz e o pecado necessário para nos trazer isto, a nossa redenção. Isto o hino chama a nossa redenção. O nosso negativo combinado com o nosso positivo dá a nossa redenção. Isto está lá no hino desde o 3o século. Quer dizer, alguém já teve a visão da evolução através da antítese para nos levar à síntese. Isto é síntese e isto são antíteses. Mas, a evolução não se dá senão através de opostos, de contrários, aparentemente contrários que são realmente complementares.


Agora, eu fiz a linha assim diminuindo cada vez mais as serpentinas, e finalmente ela acaba em pouca serpentina. Não acaba nunca. Ela fica sempre uma linha ondulada. Porque a antítese violenta entre positivo e negativo como é no princípio, pouco a pouco se torna uma antítese mais suave. Pouco a pouco há um início de tratado de paz entre os dois. Primeiro era conflito aberto. Ego e Eu - são absolutamente incompatíveis um com o outro. Isto é no princípio. Um conflito violento. E parece que não há possibilidade de reconciliação.
Pouco a pouco através da evolução os dois diminuem. Diminuem cada vez menores. As antíteses não são mais tão grandes, mais fica sempre o ego e o Eu, porque nenhum dos dois pode ser apagado, extinto. Porque a natureza humana consiste nisto. Nós não podemos abolir a natureza humana. Não podemos mandar embora o ego e dizer: vai-te embora. Não, podemos dizer: vai à retaguarda, mas não podemos dizer, vai-te embora. Porque ia adulterar a natureza humana. Nós não temos o direito de adulterar a natureza humana. Podemos conciliar as antíteses aparentemente opostas e realmente complementares. Isto sim, isto é evolução sensata. Conciliar os dois, sempre mais e mais.
Mais nunca dá uma linha reta. Porque a linha reta se abolisse é de um dos dois. Não existe linha reta na natureza humana. Tem que fazer sempre a serpentina para conservar a diferença entre o Eu central – o sopro de Deus e o ego periférico, o sibilo da serpente. Porque esses dois fazem parte da nossa natureza. Nem o Cristo aboliu. Não aboliu.  Às vezes entra uma luta no próprio Cristo, no Jesus, no Cristo que se fez carne através de Jesus. Estou falando do Jesus humano agora, e não do Cristo cósmico. Através de Jesus ainda vai uma ligeira luta entre o positivo e o negativo. Mas uma luta pequenina assim a pouca distância. Por exemplo: quando ele no Getsêmani pede: Pai, passa de mim este cálice do sofrimento e da morte, sem que eu beba. Isto é um grito do ego contra o Eu, é claro! Pai é para ele o Eu. O Pai está em nós.
Então aquele grito – passa de mim este cálice desse sofrimento sem que eu beba, diz – o ego. O ego tem medo do sofrimento e da morte, é claro. Naturalmente. Depois ele acrescenta: mas, não se faça a minha vontade, mas, sim a tua. Primeiro é o grito do ego contra o Eu. Depois vem a vitória do Eu sobre o ego. Não se faça a minha vontade do ego, mas faça-se a tua vontade do Eu, meu pai. Ele chama - Eu – sempre o Pai.
Quer dizer, havia uma ligeira discrepância ainda entre os dois pólos. No Getsêmani e na cruz. Ele não bradou em altas vozes antes de expirar: meu Deus, meu Deus, como me abandonaste! Quem é que grita isto? Não o Eu divino, é claro. Mas o ego humano. O ego humano ainda está com o último resto de oposição contra o Eu divino dele, é claro. Porque ele estava numa evolução. Ele estava no fim da evolução. Nós estamos no princípio. Mas, ele estava lá em cima, quase no fim, faltava pouquinho. A evolução dele não era ainda 100. Era 98 ou 99. Estava pertinho da evolução máxima, mas ainda não – vamos dizer que estava no Getsêmani 98 e na cruz 99 quando ele bradou: por que me abandonaste, meu Deus! É o ego que grita. O seu ego negativo. Mas, logo depois ele acrescenta: Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito. É sempre a mesma coisa. Primeiro tem um grito de luta e depois uma aceitação. Às vezes nós não chegamos até a aceitação, paramos na luta. Mas ele diz: o meu ego não quer saber de sofrimento e de morte e do abandono que estava lá no Calvário, mas é necessário que haja paz entre os dois. Então ele já faz um grande tratado de paz entre o Eu e o ego.
Notem bem que não é fácil fazer um tratado de paz entre o ego e o Eu, porque o ego é terrivelmente inimigo do Eu, diz a Bhagavad Gita. A Bhagavad Gita sempre diz – não há possibilidade de tratar de paz entre o ego negativo e o Eu positivo. Não há. Mas a Bhagavad Gita na sua grande sabedoria acrescenta: embora o ego seja o pior inimigo do Eu, contudo o Eu é o melhor amigo do ego. E por isso pode haver um tratado de paz. Se o Eu não fosse o melhor amigo do ego não seria possível um tratado de paz. Uma briga eterna, mas o Eu pode prevalecer sobre o ego.
Aqui (ego>Eu) é o ego que está prevalecendo sobre o Eu. Mas também pode acontecer o contrário. Também podemos fazer isto:
Eu > ego
Que aqui temos a vitória do Eu sobre o ego. Aqui temos a vitória do ego sobre o Eu (ego> Eu). E a derrota do Eu é claro. Aqui (Eu > ego) temos a vitória do Eu sobre o ego. E incorporação do ego no Eu, Pois, (ego < Eu) - está incorporado. Está integrado - o Eu conseguiu um domínio completo sobre o ego. O ego não resiste mais. Ele entregou os pontos e se diz: eu sei que deve ser assim, então vou entregar-me inteiramente à sua disposição. Isto é o Cristo. Este é o momento crístico perfeito. Quando há perfeita paz entre os dois litigantes da evolução. Porque o litígio é necessário, porque sem resistência não há evolução. Isto é do livro A Gnose de Princeton – dos corifeus da era atômica, que escrevem este livro.
Não há evolução sem resistência. E a resistência pode acabar em tratado de paz. Quando as antíteses acabam em síntese é o tratado de paz. E quem pode fazer o tratado de paz não é o ego porque ele é sempre inimigo do Eu. Mas o Eu pode fazer o tratado de paz. Embora o ego seja o pior inimigo do Eu, contudo o Eu é o maior amigo do ego. Isto é a porta aberta para um tratado de paz entre os dois pólos litigantes da nossa natureza humana.
De maneira que só assim nós podemos compreender razoavelmente sem horríveis ilogismos e contrastes inaceitáveis, a evolução do homem. O homem começou no ponto mais baixo da sua natureza porque recebeu o sopro de Deus. O sopro de Deus para evolução. Mas a evolução não se podia realizar só por um positivo, porque o sopro de Deus é o positivo. Então logo aparece o negativo. Aquela história da serpente no Gênesis. Nós sempre temos a impressão que isso foi um desastre. Que não devia ter acontecido. Que Deus não tinha previsto isso, que estava fora dos planos de Deus. Não é verdade. Estava dentro dos planos de Deus.
            Quando eu estava na escola primária nós tínhamos uma história bíblica ilustrada que devíamos aprender. E uma vez, lá veio a figura do diabo. Eu não sei. Parece que era na tentação lá do Evangelho. E a nossa professora muito religiosa disse: este diabo aí que estragou toda a humanidade. Se ele não existisse seria muito melhor. Nós seriamos todos santos e maravilhosos. Não haveria doenças, nem morte, nem nada. Eu fiquei com tanta raiva daquele diabo que tirei a cabeça com a unha. No papel. Ficou um diabo sem cabeça. Foi aos sete anos por aí. Porque me disseram que o diabo era o maior inimigo da humanidade e que nós nunca devíamos ter nada com o diabo porque ele tinha estragado tudo.
            É o negativo, o diabo. É o ego. Jesus também usa a palavra satanás para o ego. Aquela historia de Pedro - quando Pedro disse uma vez: Mestre, tu não vais morrer. Jesus tinha dito que ele ia se entregar à morte, voluntariamente. Pedro disse: não, senhor, tu não vais morrer não. Ele andava todo armado de espada. Naturalmente ele puxou a espada e disse: nós te vamos defender contra a morte. Pedro disse isto – muito atrasado ainda. E Jesus disse: Vá de retro, vai à minha retaguarda, Pedro, satanás. Chamou ele de satanás - quer dizer ego. Estás falando em nome do ego. O teu modo de falar não é segundo Deus, mas é segundo o Homem.
            Está muito claro lá no Evangelho. Jesus disse a Pedro: estás falando em nome do ego – que ele chama satanás. O satanás pode muito bem tomar conta do nosso ego porque o nosso ego é propriamente o pólo negativo – o diabo, satanás.
            De Judas diz coisa semelhante quando ele fala na sinagoga de Cafarnaum, diz o texto. De repente ele parou o seu discurso. Jesus olhou para os seus apóstolos e disse: não escolhi eu a vós 12, entretanto um de vós é diabo. Um de vós 12 é diabo. Lá ele usa a palavra diabo, que é palavra grega – satanás é hebraico, mas significa a mesma coisa. É o pólo negativo. Tudo que é pólo negativo é satanás ou diabo.
            Então diz João que escreve o Evangelho: Jesus disse que um de nós era diabo referindo-se a Judas Iscariotes. Aquele que o ia entregar mais tarde.   Quer dizer, o pólo negativo da natureza humana é chamado satanás no Evangelho e é chamado diabo, mas não é uma entidade fora de nós. Os outros logo pensam que é uma entidade fora de nós, que tivesse tomado posse de Judas e de Pedro. Não é verdade. É o nosso pólo negativo – isto aqui é diabo (ego>Eu). Isto aqui é Deus (Eu > ego) – isto é espiritual. A vitória do Eu sobre o ego é um tratado de paz entre positivo e o negativo; é Cristo, isto é divino. Mas uma luta do ego contra o Eu, a derrota do Eu e a vitória do ego, isto é chamado satanás.
            De maneira que, só deste modo nós podemos compreender o que está no Gênesis. Mas, o que está lá nos livros está certo, mas deturparam completamente os livros inspirados com a nossa análise teológica. Toda teologia é uma análise. A teologia não é inspirada. Ela é toda analítica. É feita pela inteligência. Como é que a inteligência podia descobrir uma intuição espiritual. A inspiração é por intuição espiritual. Por intuição, ou inspiração, ou revelação, tudo isto é a mesma coisa. Mas quando a inteligência se mete a interpretar uma intuição, diz só bobagens.
             São Paulo compreendeu isso muito bem. Então ele escreveu na epístola aos Coríntios: o homem intelectual não compreende as coisas do espírito. É muito claro, o homem intelectual (ego > Eu) não compreende as coisas do espírito que é isto aqui: (Eu > ego) que lhe parece estultícia. Pura estupidez! A inteligência pensa que as coisas espirituais são pura estupidez. Até hoje todo mundo sabe disto. São Paulo diz: o homem intelectual não compreende as coisas do espírito, até lhe parece estultícia. Nem as pode compreender porque as coisas espirituais devem ser compreendidas espiritualmente. Espiritualmente é por intuição. E intelectualmente é por análise.
Quando nós nos detemos a analisar coisas espirituais sai sempre bobagem. Nós podemos intuir as coisas espirituais, mas a intuição não tem linguagem. A intuição é silenciosa. A gente pode conscientizar a verdade, mas não pode pensar propriamente, porque pensar é uma análise. Quando a gente pensa uma verdade espiritual já está deturpada. O nosso pensamento deturpa tudo. Ele é bom para as coisas intelectuais. Para a física, a química, a biologia nossa inteligência serve. Mas se ela se mete no terreno espiritual, propriamente, que é intuição, então ele deturpa tudo. Quando a gente pensa, analisa uma coisa espiritual já está deturpada. E quando, depois de pensar ainda a gente tem que falar, está duas vezes deturpada. Porque a fala ainda deturpa mais do que o próprio pensamento.
Nós temos que verbalizar o pensamento, mas a verbalização é sempre uma deturpação. As coisas muito elevadas não se podem nem pensar, nem falar, e ainda menos escrever. A terceira deturpação é quando se escreve. Primeira deturpação é pensar, segunda é falar e a terceira é escrever. E quando as coisas são três vezes deturpadas então chega aos nossos olhos. E nós não podemos compreender estas três deturpações. Pensar, falar e escrever são deturpações do mundo espiritual.
São males necessários, infelizmente, essas três coisas, para a nossa vida. Mas, devemos sempre lembrar. Isto não é a verdade. Isto é uma seta no caminho para indicar o caminho à verdade, mas, não é a verdade. E por isso, tudo que analisamos mentalmente está sempre deturpado. A teologia foi analisada e por isso chegou aquela história que desenhei no princípio. A ciência é pura análise e por isso está deturpada. Isto aqui não é ciência, nem é teologia. Isto é uma espécie de filosofia intuitiva. 
A filosofia está eqüidistante da teologia e da ciência. Ciência não é filosofia. Teologia não é filosofia. Mas no meio dos dois, entre a teologia intelectual e a ciência intelectual está uma filosofia que pode ser intelectual, mas ela devia ser intuitiva. A filosofia nas faculdades é geralmente puramente intelectual. Mas há uma filosofia muito intuitiva. E Einstein insiste com a filosofia intuitiva dele.
Quando ele era perguntado como é que ele descobriu essas leis da natureza, ele sempre diz: não descobri nada por análise. Sempre afirma que não descobriu nada por análise. Descobri por intuição. Usa sempre a palavra intuição. Às vezes, revelação.
Quer dizer, há uma filosofia intuitiva que é racional. A filosofia analítica é puramente intelectual. Geralmente nas faculdades a gente não vai até a filosofia intuitiva racional. Mas fica na rotina horizontal da filosofia analítica intelectual. A verdadeira filosofia vai até a racionalidade. Não só intelectualidade. Eu já disse, vocês não devem confundir inteligência com razão. Porque inteligência é o noos e razão é o Logos. Os gregos já distinguiam muito bem. Noos é inteligência e Logos é razão. A razão é intuitiva. A inteligência é apenas analítica.
Por isso quando uma verdade intuitiva é analisada intelectualmente, há sempre o perigo de ser deturpada. Então vamos entrar nesta intuição, naturalmente uma intuição não se pode desenhar.


Eu estou desenhando isto, isto é apenas um símbolo da intuição. Não é uma intuição verdadeira. Então podemos imaginar que o homem começou aqui no ponto mais baixo 1 e logo no princípio prevaleceu o pólo negativo. Mas, por sugestão da serpente que é sugestão da inteligência, é sugestão do ego que é sempre inimigo do Eu, logo veio a serpente e disse: aquilo que Deus vos disse não é verdade. Podeis desobedecer a Deus, não faz mal. Então veio a inteligência e sugeriu uma coisa contra o espírito. O sopro de Deus é este aqui. Este é o sibilo da serpente. Porque o ego é o pior inimigo do Eu. Logo no princípio do Gênesis está – o ego desmente o que Deus disse para o Eu. O sibilo da serpente é contrário ao sopro de Deus.
Assim começou a nossa história. Começou com um negativo, mas não prosseguiu eternamente com negativo. Porque o livre arbítrio permite a mudança entre negativo e positivo. Se nós não tivéssemos livre arbítrio, se fôssemos autômatos, então só podíamos ficar ou no positivo ou no negativo. Mas, se há possibilidade de mudar de um pólo para o outro, isso se chama livre arbítrio. Nós somos os únicos seres aqui na terra que possuímos verdadeiramente este dom estranho que nós chamamos o livre arbítrio. Pode ser imperfeito, mas ele existe.
É um poder creativo. Nós podemos crear o bem e podemos crear o mal. Podemos passar do mal para o bem e do bem para o mal. E esta viagem através dos dois pólos opostos e complementares é a nossa evolução. Nós temos a possibilidade da evolução até o máximo. Até a imagem e semelhança de Deus, que seria aqui. E quando chegamos perto disto continuam o positivo e o negativo. Nunca vão ser abolidos porque a nossa natureza humana é essencialmente imutável na sua constituição. Fica sempre em homens normais o positivo e o negativo. Eu posso fazer o bem, eu posso fazer o mal, mas pouco a pouco pode haver um tratado de paz entre os dois. O tratado de paz não vai partir do ego, como dizem. Paulo de Tarso disse e a Bhagavad Gita disse e muitos outros disseram. O tratado de paz entre o Eu e o ego não vai partir do ego. Mas pode partir do Eu, não do ego, porque o ego é o tolo e o Eu é o sábio. O tolo não compreende o sábio, mas o sábio compreende muito bem o tolo.
Não é isso mesmo? O Eu compreende o ego, mas o ego não compreende o Eu; não há compreensão de baixo para cima. Só há compreensão de cima para baixo. Do Eu para o ego há compreensão. Do ego para o Eu não há compreensão, sempre hostilidade. Mas como nosso Eu pode reforçar-se até tal ponto que ele pode dar ordens ao ego e dizer: vai à minha retaguarda. Não te ponhas na minha vanguarda. Eu vou à vanguarda, diz o Eu.  E tu tomas o teu lugar na retaguarda. Tu és para servir, não para mandar.
A Bhagavad Gita diz mais uma vez: o ego é um péssimo senhor da nossa vida, vejam bem, mas é um ótimo servidor. Outra vez, a mesma coisa. O ego faz péssima figura na vanguarda, como senhor da nossa vida, mas cumpre perfeitamente a sua missão de servidor na retaguarda. Nós não podemos abolir o ego e também não devemos. Nós devemos incorporar o ego no Eu. Devemos integrar o menor no maior.
Quer dizer, a fórmula errada é esta aqui. Aqui o Eu está derrotado pelo ego (ego> Eu). Aqui o Eu está na retaguarda e o ego está na vanguarda. Isto é que se chama pecado. Este estado de coisa. Aqui está redenção (Eu > ego). Aqui estão as duas fórmulas de pecado e redenção. Toda teologia há 2000 anos não fala de outras coisas senão de pecado e redenção. Podeis ver em qualquer teologia – pecado e redenção. Queda e redenção. Mas, é claro que é. Mas nós provocamos a queda e redenção. Não há nenhum fator fora de nós que faça a nossa queda. O nosso pecado. Eu é que faço – sou o autor do meu pecado. E eu que sou autor do meu pecado. Eu também posso ser isto, meu redentor. Isto é redenção. Quando o Eu sujeita o ego à suas ordens. Isto é redenção perfeita. Isto é ordem invertida. Isto é anticósmico. Isto é cósmico. Isto é a ordem verdadeira. (mostrando Eu > ego e ego > Eu)
Nós temos que começar a contemplar a iniciação da humanidade e sua evolução através desses desenhos aí. A geometria é muito boa para explicar essas coisas. Então, repito que isto aqui é queda e isto aqui é redenção. Aqui o ego derrotando o Eu – é o pecado. E aqui o Eu sujeitando o ego a seu serviço é a nossa redenção. Eu não vejo outra coisa senão outro modo de conceber a origem e a evolução da humanidade senão só isto, através disto. Começou com 1, teve ordem de ir até 100 e talvez além, mas ele tem que fazer esta viagem. Outros não podem fazer por mim. O Cristo não me pode redimir. Eu me posso redimir. O diabo não me pode fazer pecador. Eu é que me faço pecador. Nós sempre atribuímos a fatores externos o que está dentro de nós. Nós somos o Cristo e nós somos também o anticristo. É claro.
Aqui nós somos o Cristo. Aqui nós somos o anticristo, mas eles fazem parte da nossa natureza, os dois. Então, nós somos os autores, responsáveis pela nossa queda e somos os autores responsáveis pela nossa redenção.


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TRANSCRIÇÃO DA AULA 15 - Realismo Puro


Curso Filosofia Univérsica
Huberto Rohden
Palestra 15                  
05/09/78
Realismo Puro

  Um curso sério de filosofia tem que estar imunizado contra qualquer ideologia errada que apareça no mundo. Aparecem tantas ideologias ilusórias que muitos não sabem distinguir. Vamos tratar de algumas dessas ideologias que têm que ver com o nosso assunto.
 No século passado apareceu nos Estados Unidos - iniciado por uma senhora muito inteligente, Mary Baker Eddy - um movimento que hoje é um movimento mundial: Christian Science – Ciência Cristã – também existe no Brasil. A tese fundamental da ciência cristã da senhora Baker que hoje existe em todos os paises do mundo – é a seguinte: no mundo de Deus não existem males porque Deus fez o mundo perfeito e não pode haver males no mundo de Deus. A senhora Baker da Christian Science se refere aos males físicos, por enquanto. Doenças e morte. Ela afirma que tais coisas não existem no mundo de Deus porque Deus não creou coisas negativas. Deus só creou coisas positivas. Tudo é perfeito, é saúde e vida e paz. Isso foi do século passado (séc. XIX) - e até hoje existe no mundo inteiro.
 Não há doenças. Doenças são ilusões. Não existe nenhum câncer, câncer é ilusão. Não existe tuberculose - tuberculose é ilusão. Não existem doenças cardíacas. São todas ilusões. Isso é da Christian Science. Nós vivemos na ilusão como se existissem males físicos. Não pode existir um mal físico neste mundo porque o mundo de Deus é perfeito. Maravilhosa essa tese! Infelizmente não é verdade.
         Neste século apareceu outro grande pensador, Joel Goldsmith – trata do mesmo assunto em todos os seus livros - se existe ou não existem males físicos no mundo de Deus. E Joel Goldsmith contou no seu livro, A Arte de Curar pelo Espírito; e em todos os livros dele, chega à conclusão: existem males físicos no mundo de Deus. Quer dizer que é uma grande novidade. Ultrapassou a Christian Science que afirma que não existem males, é pura ilusão. Nós cremos nos males e por isso os males existem – diz a Christian Science. Mas, Goldsmith vai muito além disso. Diz: não senhor, os males não são imaginários, os males não são ilusórios, os males que existem nesse mundo são reais (Christian Science diz que nada é real no mal, só o bem é real – doença não pode ser real, câncer não é real, tuberculose não é real, a fratura numa perna não é real, um desastre não é real).
Agora Goldsmith vai além disto.  Não senhor, existe tuberculose, existe câncer, existem fraturas, existem doenças de toda espécie. O mundo está completo de hospitais por causa de doenças físicas e também de hospícios por causa de doenças mentais. São reais, não são imaginárias. Goldsmith deu um grande passo para frente.
E agora, perguntamos, como é que no mundo de Deus podem existir males físicos? Joel Goldsmith compreende muito bem esta pergunta. Ele disse: no mundo de Deus existem males físicos, não feitos por Deus, mas feitos por nós. Esta é a grande diferença entre ele e a Christian Science. Os males físicos são reais, são verdadeiramente, objetivamente reais, e não são imaginários, mas Deus não os fez. Nós é que fizemos as doenças. O nosso ego mental é que faz as doenças. Às vezes não é o ego individual, mas o ego coletivo. A mentalidade coletiva da humanidade, diz Goldsmith, também é produtora de males.
É uma poluição mental, vamos dizer. Se alguém entra na cidade de São Paulo, se alguém morre de poluição - e muitos já morreram de poluição – a culpa não é do morto porque ele não criou a poluição. Mas ele está vivendo da poluição. Outros criaram a poluição. As fabricas, os automóveis criaram a poluição. Mas ele individualmente não é culpado pela poluição de que ele morreu. A mesma coisa se dá no mundo fora das cidades também. Se o mundo está mentalmente poluído, isto produz males físicos e não somente males morais. Porque a poluição mental e emocional também produz efeitos físicos.
Por isso esta pergunta: como é que uma criança pode nascer doente quando ela não é culpada de nenhuma aberração física? Não, a criança pode não ser culpada e não é mesmo. Outros dizem que ela herdou o karma de uma vida passada, mas, não vamos entrar nesta hipótese. Vamos saber porque é que ela está doente quando ela não cometeu nenhum mal mental. A humanidade coletiva está 90% poluída mentalmente. É claro que está!
O mundo é um mundo de pecadores hoje em dia. Um mundo de mentalmente errados. Pensamentos errados, pensamentos negativos são realidades que produzem ondulações ou vibrações físicas. Então Goldsmith diz: os males existem, nem sempre foram criados pela pessoa que sofre o mal, mas foram criados pela humanidade coletiva que jaz no maligno, como diz a Bíblia. Jaz no maligno, toda a humanidade. E o Cristo diz: o príncipe deste mundo que é o poder das trevas (as trevas são os males) tem poder sobre vós. Afirma que o dominador deste mundo que é a mentalidade coletiva – nós chamamos isto o diabo – mas Jesus não refere ao diabo físico, ele se refere à mentalidade coletiva que ele chama o dominador deste mundo que é o poder das trevas. Tem poder sobre vós, ele diz aos seus discípulos. Depois ele acrescenta: mas sobre mim ele não tem poder porque eu já venci este mundo.
Naturalmente que se alguém se imunizou contra a poluição mental do mundo, é claro que não lhe pode atingir. O caso de Jesus. Nunca esteve doente, não morreu compulsoriamente, morreu voluntariamente e depois reviveu. Quer dizer, o poder deste mundo, o poder negativo, mental que ele chama o príncipe deste mundo que é poder sobre as trevas, tem poder sobre vós todos – diz aos homens. Sobre mim, ele diz – eles não têm nenhum poder, porque eu já venci este mundo. Se nós pudéssemos dizer isto sem mentir, é claro que nós nunca estaríamos doentes. Também não precisaríamos morrer fisicamente. Podíamos transformar nosso corpo físico num corpo astral – como alguns fizeram. Como Moisés fez, como Elias fez, como mesmo em nosso tempo, Babaji fez na Índia e outros – porque já tinham vencido o mundo.
O mundo - são as vibrações negativas que vêm sempre do nosso ego mental. E nós não vencemos ainda. Nós somos ainda alérgicos a essas vibrações negativas da humanidade – talvez não nossas. Pode ser que alguém não tenha produzido poluição mental. Mas ele pode ser vítima, se ele não se imunizar. Ele pode imunizar por um poder superior. Um poder superior ao mental é um poder espiritual. Mas, quem é que é poderoso no mundo espiritual? Quem? Ás vezes nós tratamos de coisas espirituais, assim de passagem. Como um divertimento domingueiro, como um “hobby” qualquer, mas isto não é vencer o mundo das trevas... O mundo mental é sempre chamado pelos iniciados, o mundo negativo, o mundo das trevas. Treva é um conceito negativo. Luz é um conceito positivo. Treva é ausência e luz é presença.
Logo, Joel Goldsmith afirma que os males físicos existem neste mundo em grande quantidade – não foram creados por Deus, porque Deus não creou câncer. Deus não creou tuberculose. Deus não creou nenhum mal físico. Tanto assim que os grandes iniciados não sofreram de males físicos. Moisés não consta nenhuma doença dele. E também não morreu. Transformou seu corpo com 120 anos num corpo astral. Jesus nunca esteve doente. Também não foi derrotado pela morte, mas ele se entregou voluntariamente. Ele diz claramente: ninguém me pode tirar a vida. Imagina! Quem é que pode dizer, ninguém me pode matar. Ninguém. Não existe nada no mundo que me possa matar. Ele diz, ninguém me tira a vida, eu deponho a minha vida quando eu quero e retomo a minha vida quando eu quero.
Bem, quem fala assim sem mentira e o realizou, pode dizer: eu venci este mundo. Eu venci este mundo negativo das doenças e da morte. São coisas negativas. Mas quem não está na altura da espiritualidade não pode dizer isto. Nós somos todos principiantes de ABC na espiritualidade. A alguns. Alguns sabem o B, alguns sabem o C, mas ninguém chegou até o fim. Mas os grandes iniciados podiam dizer isto, alguns deles, sobretudo o Cristo.
Então Goldsmith aceita os males, as doenças são realidades e não são imaginação, não são ilusão. Quem criou essas realidades não foi Deus. Foi o nosso ego. O nosso ego também é uma espécie de Deus é o demiurgo como diziam os gregos. Os gregos usavam a palavra demiurgo para o ego. Demi quer dizer semi, metade. Urgo é obreiro. Semi-obreiro. Demiurgo – semicreador. O nosso ego mental é um demiurgo – em língua grega. É um semicreador. Ele pode crear algumas coisas, sobretudo coisas negativas. O nosso ego pode criar doenças, é claro que pode, mas não pode abolir.
Isto Goldsmith faz ver muito claramente no seu livro, que o nosso ego é um creador de doenças, mas não é um abolidor de doenças. E agora estamos num impasse: se o nosso ego criou doenças e não pode abolir as doenças, (como não pode mesmo) estamos fritos. Então temos que ficar nas doenças. Pura verdade. É muita lógica. O ego negativo, a nossa poluição mental, seja individual, ou seja, coletiva da humanidade produz os males físicos. Aqui não se trata de males morais, por enquanto. Os males físicos são produtos do nosso ego negativo - do poder das trevas. E não pode abolir o que ele criou. O mental não pode abolir o mental. A criação mental não pode ser abolida pelo criador mental. Não pode.
            Segue-se que se nós não invocarmos um poder acima do mental, nós não temos o poder de criar os males que o ego produziu. É lógica absoluta. Devemos então descobrir um poder superior ao poder mental porque o poder mental criou os males e nós precisamos de alguém que possa abolir os males. Mas se nós não descobrirmos este poder ultramental, supramental, transmental que nós geralmente chamamos poder espiritual, que reside no nosso Eu central, (não no nosso ego periférico onde residem as doenças, o poder negativo)... Se nós não descobrirmos o fator positivo em nós, o poder central da cura, nós não nos podemos curar.  Só nos podemos fazer doentes, mas não nos podemos curar.
            Então os ingênuos pensam que há um Deus lá fora que tem que ser invocado para ele curar a minha doença. Goldsmith dizia: não adianta invocar um Deus de fora. O que é importante é evocar o Deus de dentro. Esta é uma das frases mais geniais de Goldsmith, no seu livro A Arte de Curar pelo Espírito. Não adianta. Alguém se escandalizou com isso, e disse: mas como é, parece ser ateu? Diz que não adianta nada rezar, não adianta invocar um Deus se eu estou doente. Rezo tanto a Deus diariamente e Deus não me cura.
            Goldsmith diz isto não adianta nada. Você não deve pensar num Deus que existe lá do outro lado da via Láctea, das galáxias do universo. Muito longe e ausente de você. Logo você não deve pensar nesse Deus... Rezar a esse Deus lá fora... Você deve descobrir o seu Deus de dentro. Descubra o seu Deus interno, não o Deus transcendental, mas o Deus imanente. E se você descobrir o Deus imanente que é a sua própria alma, que é o seu Eu espiritual, então você tem nas mãos um poder infalível.
            Então você deve evocar, não invocar. Nós sabemos muito bem invocar. Invocamos a Deus, invocamos à Virgem Maria, invocamos a todos os nossos santos e padroeiros. Invocamos e invocamos tudo. Nós esquecemos sempre de evocar. Porque todo o poder está dentro de nós. Todo o poder está dentro de cada um de nós. Eu sou onipotente no meu centro. Eu sou impotente nas minhas periferias. Nas minhas periferias eu sou fraqueza. No meu centro eu sou força. E quem disse isso? Foi o homem mais espiritual deste mundo. O Cristo. O Pai está em vós. Ele chama o nosso Eu o Pai. O Pai está em mim, primeiro ele diz de si. Mas o Pai também está em vós, e vós estais no Pai. Sempre ele fala de um Deus imanente.
            Quer dizer, a cura pelo espírito de que fala Goldsmith sempre é uma coisa rigorosamente lógica. Não tem nada de misticismo. É uma coisa lógica. Eu sou fraqueza por fora. Na periferia do meu ego físico, o meu ego mental e do meu ego emocional. Lá eu sou fraco. Lá eu posso ser vítima de doenças, lá na periferia - mas se eu encontrar o centro do meu Eu, a minha realidade divina, o meu Eu central, o meu Cristo interno, o pai em mim e se eu conscientizar: Eu e o Pai somos um e as obras que eu faço é o Pai em mim que as faz. Isto é importante acrescentar. São palavras do Cristo. As obras da cura que eu faço, não é o meu ego que as faz, mas é o Pai em mim – isto é importante acrescentar, são palavras do Cristo - o meu Eu que as faz. As obras que eu faço – as obras da cura. As obras que eu faço não é o meu ego que faz, mas é o Pai em mim, o meu Eu que as faz. Então estaria resolvido todo o nosso problema físico desse mundo, mas não está resolvido. Por quê? Então Deus não está em nós? Deus está em nós e em cada creatura. Deus está onipresente. Não está só em nós. Também está nos animais, inconscientemente. Em nós ele pode estar conscientemente.
            No mundo inferior, Deus está inconscientemente nos animais, inconscientemente nas plantas, inconscientemente nas pedras. Não é Deus que é inconsciente. São estes indivíduos que são inconscientes da presença de Deus. O animal não pode ter a consciência da presença de Deus. O vegetal não pode ter esta consciência da presença de Deus. O mineral não pode ter. Nós podemos.
- Professor, pode uma pessoa encontrar o Deus interno e continuar a ter doenças?
- Não, se encontrou de fato não vai ter doenças. Você chama encontrar, pensar. Pensar que Deus está em mim. Não adianta nada pensar que Deus está em mim. Pensar não cura ninguém. E Goldsmith insiste, você não deve pensar porque pensar é coisa do ego. É uma função do ego. Você não sai da periferia. Pensando você faz num círculo vicioso ao redor do seu ego. Isto é pensar. Querer também é um círculo vicioso ao redor do seu ego. Isto é pensar. Querer também é um círculo vicioso. Dizer, pensar, querer, tudo isto é periferia. Nada disto é centro.
O que seria centro? Conscientizar e vivenciar. E Goldsmith insiste nesses dois pontos. Eu devo conscientizar a presença de Deus em mim. O meu centro é Deus. O meu centro é saúde. O meu centro é vida. O meu centro é o Pai. O meu centro é o Cristo. Se eu puder conscientizar... Goldsmith diz: eu levei 13 anos para conseguir uma conscientização perfeita. Imagina ele - que era um verdadeiro iniciado. Ele levou 13 anos fazendo exercícios diários de conscientização, e só depois de 13 longos anos de exercícios parcialmente fracassados, ele conseguiu uma conscientização 100%.
            Então ele diz: se eu conseguir uma conscientização 100% da presença de Deus em mim eu posso curar qualquer doença, não só minha, mas, também dos outros. Ele fazia... A qualquer distância. Três vezes ele fez a viagem ao redor do globo terrestre, a chamado de doentes. Trabalhava gratuitamente. E toda vez que ele conseguia 100% de consciência da presença de Deus, a doença era infalivelmente curada. A qualquer distância.
            Quando os doentes lhe telefonavam queriam sempre dar três coisas. Primeiro dizer qual é o nome do doente. Ele dizia: não senhor, eu não quero saber o nome do doente. Deus sabe e chega. 2o eles queriam dizer, qual era a doença de que ele sofre. Ele não aceitava. Não, Deus sabe qual é a doença, não precisa dizer. 3o – queriam dar o endereço. Não quero saber nome, nem doença, nem endereço do doente. Deus sabe e chega. Eu só quero conscientizar a presença de Deus até o máximo. Quem nunca fez não pode imaginar o que seja conscientizar.
            Goldsmith disse que ele levou 13 anos para conseguir uma conscientização perfeita. Ele - nós temos de levar um século para conseguir. Se não fizermos exercícios diários muito intensos, nunca vamos conseguir, e não temos nas mãos nenhum meio para nos curar. Cada um pode se curar a si mesmo e pode curar os doentes, mas, somente por uma intensa conscientização da presença de Deus. Não é a presença de Deus que cura. No doente Deus também está presente. Num tuberculoso, num canceroso, Deus também está presente. Por que é que não cura? Não é a presença de Deus que cura alguém. Nunca ninguém foi curado pela presença de Deus. O que cura é unicamente a consciência da presença e não a presença.
É difícil este ponto. Naturalmente essa conscientização é impossível sem a correspondente vivência. Quem não vive por fora o que ele conscientiza por dentro não vai conseguir a conscientização. E aí que está o erro de muitos. Nós por fora vemos contrariamente a conscientização de Deus. Quem anda agarrado às coisas externas, não somente quem usa (podemos usar, mas quem se deixa tiranizar pelas coisas externas, pela propriedade, pela família, pela sociedade) não está em condições de conscientizar. Porque isto é escravidão. Quem vive na escravidão não pode conscientizar Deus, porque Deus é infinita liberdade.
            Então, para conseguir a conscientização nós devíamos em 1o lugar modificar profundamente a nossa vida diária. Devíamos usufruir o necessário para uma vida descentemente humana. Não é preciso jogar fora tudo. Não, não podemos viver se não temos nada. Mas, se nós vivêssemos apenas do necessário e não do supérfluo... (porque mais de 50% do que nós temos é supérfluo, é claro) nem 50% são necessários para uma vida decentemente humana. Mas ninguém se convence disso. Ele precisa que tenha cada vez mais e mais conforto. Apareceu uma coisa nova é preciso comprar. É evidente que tenho que comprar. Não posso mais viver sem isso. Quer dizer que nós vivemos numa permanente escravidão.
            Quem vive na escravidão das coisas exteriores, sobretudo família e sociedade não pode conscientizar devidamente a presença de Deus. É o grande impedimento de quase todos.
            Bem, isto, quanto aos males físicos de que fala a Christian Science negando os males físicos e de que fala Goldsmith afirmando os males físicos, mas, não os atribui a Deus. Esta é a grande diferença entre Goldsmith e a Christian Science. Ele afirma que os males físicos são reais porque nós os criamos. Pelo nosso ego mental nós somos responsáveis pelos males físicos. Nossos individualmente ou nossos coletivamente. Nunca pensar que cada um seja responsável só pelos seus erros individuais.
Pode ser que alguém não tenha erros individuais, mas nós também somos vítimas dos erros coletivos da humanidade. Nós, partes integrantes de um grande organismo humano e cada célula que é cada indivíduo sofre os males do organismo. Se o organismo está doente é claro que as células estão doentes. Nós não podemos ter o organismo humano doentio, como temos - organismo coletivo da humanidade, bilhões de seres humanos - e manter saúde na nossa célula individual. É muito difícil. De maneira que enquanto a humanidade não tiver saúde é dificilmente o indivíduo ter saúde.
            Bem, mas eu não ia falar sobre os males físicos. Eu ia falar hoje sobre os males morais. Falei muito nos últimos dias sobre bens morais e bens físicos, e males morais e males físicos. Não vamos dizer, falei muito sobre males morais e bens morais. O mal moral nós chamamos pecado. O bem moral nós chamamos redenção. Tratamos muito destes dois termos: pecado e redenção. Toda teologia cristã gira em torno destas duas palavras. Em qualquer igreja vocês vão ouvir pecado e redenção. Pecado é um mal moral negativo e redenção é um bem moral positivo.
            Bem, nós afirmamos que há males morais, que há pecados, que ninguém se pode convencer que não haja pecados. A Bíblia está cheia disto. Do Gênesis até o Apocalipse sempre se fala em pecado, pecado, pecado. O Evangelho está repleto destas coisas. Vai-te em paz e não torne a pecar. Jesus supõe que ela pecou – aquela mulher adúltera. Os seus muitos pecados lhe são perdoados porque muito amou - da Madalena. É claro que Jesus supõe que há pecado. Portanto, nós não podemos negar que o pecado seja de uma realidade, não feita por Deus, mas feita por nós. Outra vez, os males físicos não são feitos por Deus e os males morais que são os pecados também não são feitos por Deus.
            Agora estamos diante da alternativa - pecado e redenção. Pecado corresponde à doença e redenção corresponde à saúde - num outro terreno. No mundo físico o negativo é a doença e o positivo é a saúde. E no mundo moral o negativo é o pecado e o positivo é o que a Bíblia chama a justiça. Quando a Bíblia fala justiça nós não devemos pensar em justiça social. Nós falamos muito em justiça social. Não, a Bíblia não entende por justiça, justiça social. Ela entende justiça o verdadeiro e correto ajustamento entre nós e Deus. Isto é justiça na Bíblia. A justeza - vamos dizer. O correto ajustamento entre o homem e Deus. Quando ele está bem ajustado com Deus então ele é justo. Quando ele está mal ajustado então ele é pecador. Pecador é o não ajustamento entre o homem e Deus, e justiça na Bíblia é um correto ajustamento com Deus. Uma harmonia é um ajustamento.  Uma desarmonia é um desajustamento.
            Quando estamos sintonizados com Deus, quando a nossa consciência está em sintonia com a consciência divina, então nós somos justos. Somos ajustados corretamente e então nós somos santos. Santidade, justiça e redenção, tudo isto é a mesma coisa. Bem, de maneira que afirmamos que como há males físicos feitos por nós, assim também há males morais feitos por nós, porque Deus não fez males físicos, Deus também não fez males morais. Os males morais foram por nossa conta e os males físicos são conseqüência dos nossos males morais. Há uma rigorosa concatenação entre males morais e males físicos.
A humanidade toda está na maldade moral. 99% pelo menos. Os crimes que acontecem - não aqueles que os jornais trazem na 1a página, isto não é 1% dos crimes que acontecem nas 24 horas, quando os jornais saem. Os jornais gostam de contar os crimes tais e tais, fulano matou sicrano, roubou isto – bem isto não representa 1% da maldade humana. A maior parte não é conhecida dos jornais.
Quer dizer, a humanidade jaz no maligno, diz a Bíblia e o príncipe deste mundo que é o poder das trevas tem poder sobre a humanidade, porque nós lhe entregamos o poder. Nós lhe entregamos o poder e por isso a maldade tem poder sobre nós. E daí depois vêm os males físicos. Os males físicos são conseqüências dos males morais.
Bem, aparece, porém, alguém e diz, não existe nenhum pecado. Não existe nenhum mal moral. Eu tenho meia dúzia de livros lá em casa que afirma isto. Todos do mesmo autor. O último é esse aqui: Masaharu Taniguchi – fundador da Seicho-no-ie – que tem milhares de adeptos no Brasil e fora do Brasil. Chegando a tratar do pecado ele diz: Pura invenção, não existe nenhum pecado. Nunca existiu pecado e não existe nenhum pecado. É muito bonito. Otimismo formidável. Infelizmente não é verdade. Como é que não existe nenhum pecado e nunca existiu? Do princípio até o fim ele afirma isso. Ele é um ótimo psicólogo. Um péssimo filósofo. Na psicologia ele é muito forte. Muito bem! Na filosofia é zero virgula zero. Como é que diz que não existe nenhum mal moral no mundo?
Então aqueles crimes ultimamente cometidos na Itália com o presidente Aldo Moro, torturando o homem barbaramente, e depois matando, não era mal moral? Não era pecado? O que fez a última guerra matando 100 milhões de inocentes, não era crime, não era pecado? E o que acontece aqui entre nós a cada momento. De 30 em 30 minutos - diz a estatística de São Paulo – acontece um crime em São Paulo. E nos Estados Unidos é de 10 em 10 minutos. E dizer que não existe pecado, que não existe mal. É uma leviandade tão grande que a gente não sabe como um homem sério como Taniguchi pode afirmar coisas tão absurdas. E milhares de pessoas acreditam.
Ah! Que grande profeta este lá do Japão. Descobriu que pecado é pura ilusão, é pura imaginação que eu tenho pecado. Eu não tenho nenhum pecado, meu amigo não tem nenhum pecado, nunca ninguém teve nenhum pecado. Somos todos santos. Canonização universal. E qual é a prova que Taniguchi traz que não há pecado no mundo? A prova é a seguinte, escutem bem o fracasso da filosofia dele: Deus fez o mundo perfeito e o pecado seria uma coisa imperfeita, logo não existe pecado. Pronto.
O que é que vocês me respondem a isto? Este silogismo está certo ou não? Este silogismo de Taniguchi... Ele diz Deus fez o mundo perfeito. Não fez uma mistura de perfeição e imperfeição, isto Deus não fez. Deus é o sumo bem e Deus fez somente o bem e não fez o mal, mas o pecado é um mal, logo não existe pecado. É o argumento dele. E muitos que não têm critérios suficientes, embora tenham boa vontade, dizem: mas, ele tem razão. Onde é que nós inventamos esta bobagem de pecado. Não seria melhor acabar com isto de uma vez? Pura ilusão dos teólogos que inventaram que há tal coisa como pecado. Não existe pecado. Vão viver em paz e felicidade e dizer: não há pecado, não há pecado e pronto.
Isto é política de avestruz. Vocês sabem que dizem que a avestruz no deserto lá na África, aquela ave grande que não voa, mas corre muito; quando ela é perseguida (dizem, não sei se é verdade, mas todo o mundo chama isto política de avestruz) dizem que a avestruz quando é perseguida pelo caçador, ela corre como um cavalo. Então ela não pode fugir mais no fim, pára e esconde a cabeça debaixo da areia. E porque ela não enxerga mais o caçador, ela pensa que o caçador não existe mais. Dizem que a avestruz tem essa filosofia: Eu não vejo o caçador, porque está com a cabeça debaixo da areia, então o caçador não existe mais. Depois o caçador mata.
Isto que o Taniguchi está fazendo é política de avestruz. Eu não quero ver que haja pecado no mundo, então não há mesmo. Pronto. Política de avestruz. Então eu digo simplesmente, não existe. Veja uma coisa parecida com aquilo da Christian Science quanto às doenças. A Christian Science diz, não há doença, então não há – mas, contudo há. E Taniguchi diz: não há pecado – então não há, mas, contudo há. O mundo está cheio e a Bíblia está repleta de menções de pecados.
Então vamos ver o argumento. Ele diz que Deus fez o mundo 100% bom. E não pode haver pecado num mundo 100% bom. É um silogismo 100% errado. Deus nada tem que ver com o pecado. Que Deus creou creaturas dotadas de livre arbítrio. E onde há livre arbítrio há duas possibilidades. Há a possibilidade para o bem e há a possibilidade para o mal. O bem é o positivo. No mundo físico o bem é a saúde. E no mundo moral o bem é a santidade ou a justiça. Mas, Deus não creou o uso do livre arbítrio. O uso e o abuso do livre arbítrio não correm por conta de Deus. Isso corre por nossa conta exclusiva. Deus creou a faculdade dentro de cada um de nós. A faculdade do livre arbítrio. Eu te ponho aqui na terra. Tu podes fazer o bem e podes fazer o mal – diz Deus, mas eu não sou responsável pelo bem que tu fizeres, também não sou responsável pelo mal que tu fizeres. Isto está certo.

Mas, Taniguchi acha, se Deus creou o homem então o homem só pode fazer o bem, mas não pode fazer o mal. Onde está o livro arbítrio? Então não existiria uma pessoa humana no mundo. Se existe um homem que necessariamente tem que fazer o bem e não pode fazer o mal, ele não tem liberdade. O bem que ele faz não corre por conta dele. Corre por conta de Deus. Mas se ele pode fazer o bem e o mal por conta própria então é claro, se existe o bem necessariamente deve poder existir o mal. Não pode haver uma creatura dotada de livre arbítrio que tenha só uma possibilidade diante de si – uma linha reta, assim._____________ O animal só tem uma linha reta. Assim seria uma creatura não humana. Uma única possibilidade. Não pode fazer o bem nem o mal. O animal é neutro. Não é moralmente bom e não é moralmente mau. O animal é simplesmente neutro. O neutro é representado por esse sinal aqui.  ──  Agora começa o homem aqui. Começa a linha bifurcada. ─┴─  Uma linha positiva ( ) e uma linha negativa (-). Aqui começa o livre arbítrio.  Deus não é responsável por esse positivo e não é responsável por esse negativo (±). Deus é responsável por essa faculdade, essa bipolaridade, essa possibilidade do livre arbítrio; a faculdade do livre arbítrio sim é obra de Deus, mas o modo como o homem emprega essa faculdade do livre arbítrio nada tem que ver com Deus.
Deus não fez isto que o homem faz, a justiça. E Deus não fez isto que o homem faz, o pecado. Isto vem por conta exclusiva do homem. Portanto, esse argumento de Taniguchi, se Deus fez o mundo perfeito então não pode haver pecado, isto é radicalmente errado. Fora de toda a lógica, porque perfeito não quer dizer que todo ser deva necessariamente fazer o bem. O animal aqui não pode fazer o bem nem o mal, mas é perfeito, a seu modo - porque é neutro. Aqui há neutralidade. Ele não pode ser moralmente mal, o animal.  E também não pode ser moralmente bom. Ele é bom como diz o texto do Gênesis, mas quando Deus creou o homem ele é muito bom. Deus fez o homem que era uma obra muito boa. Quer dizer, começa o livre arbítrio e começa a humanidade. O dom do livre arbítrio é uma coisa muito boa. Aqui começa uma coisa muito melhor do que aqui. O animal não tem livre arbítrio. O animal é um autômato vivo. Nós não somos autômatos. Nós podemos tomar nas mãos o nosso destino e dizer: eu tenho a possibilidade de fazer o bem, eu tenho a possibilidade de fazer o mal. Isto é uma grande vantagem sobre o animal. O animal é neutro. É uma máquina.
Então aqui começa uma creatura muito superior ao animal. Porque é uma creatura creadora e o animal é apenas uma creatura creada. No animal não há nenhuma creatividade. No homem há creatividade. O animal está na creaturidade e o homem está na creatividade. Se usarmos esses termos que inventei. A creaturidade é do animal e das plantas e dos minerais. Tudo neutro. Mas a creatividade seja positiva seja negativa é do homem. É uma grande perfeição poder ser creativo e não apenas creado. O animal é creado, mas não é creador. Ele não se pode fazer melhor e pior do que é. Geralmente, não.
Deus creou o homem o menos possível para que o homem se possa crear o mais possível. É uma grande perfeição. Mas dizer que porque Deus fez uma obra perfeita - que é o livre arbítrio - nós podemos aperfeiçoar cada vez mais o nosso livre arbítrio, mas a raiz já vem desde o nascimento. Desde o nascimento já está em nós a raiz do livre arbítrio que depois podemos aperfeiçoar. Mas, dizer, não pode haver o negativo, o pecado... - porque o negativo não é perfeito - também devemos dizer que não há também positivo. O positivo não depende de Deus. Nenhum dos dois depende de Deus. O positivo da justiça não depende de Deus. É da minha boa vontade. E o negativo do pecado também não depende de Deus. É completamente independente.  Deus não tem jurisdição aqui. Deus tem plena jurisdição aqui. O animal faz exatamente aquilo que a inteligência cósmica manda fazer. Mas a partir daqui acaba a jurisdição de Deus. Onde começa a minha consciência do livre arbítrio eu sou o único responsável pelo bem que eu faço. Deus não é responsável pelo bem que eu faço. Mas eu também sou o único responsável pelo mal que eu faço.
Por isso esse argumento que se o mundo é perfeito não pode haver pecado é completamente fora de qualquer lógica. E por isso nenhum dos livros sacros, nem o judaísmo, nem do cristianismo, nem do paganismo aceita isso. Vocês não encontram isto nem na Bhagavad Gita, nem no Tao Te King que são livros do paganismo. Não encontram no judaísmo que é o Antigo Testamento na Bíblia. Não encontram no cristianismo que é o Novo Testamento da Bíblia. Não encontram em toda parte: no judaísmo, no cristianismo, no paganismo se afirma que há uma diferença essencial entre o bem e o mal. Existe no mundo tanto o bem como o mal, e ambos são atribuídos ao homem.
O dom de poder fazer poder fazer o bem e o mal, a faculdade do livre arbítrio é um dom de Deus. Mas o uso ou o abuso desta faculdade nada tem que ver com Deus. Deus é inocente pelo mal que eu faço e também pelo bem que eu faço. Deus não faz o bem em mim, eu é que faço pelo meu livre arbítrio. Deus também não faz o mal em mim. Eu o faço pelo meu livre arbítrio. De maneira que segundo a convicção universal e segundo a própria lógica o mal existe, tanto o mal físico como também o mal moral. E o mal moral é da humanidade porque – o mal físico também podia existir fora do mal moral - mas o mal moral só é creação da humanidade. Deus nada tem que ver com a minha criação positiva ou a minha criação negativa.
Por isso num curso de filosofia nós temos que criar um critério seguro para saber o que é que podemos aceitar quando aparecem estas ideologias espalham por todo o mundo e todo mundo diz: Ah! Descobri uma grande coisa. Não há pecado. Aleluia! Hosana Aleluia!  Bonito se fosse assim. Seria um otimismo muito barato. Mas não é realismo. Eu não quero ser otimista nem pessimista. Eu quero ser realista. Eu quero estar de acordo com a realidade. Realismo puro. Não otimismo exagerado por um lado, nem pessimismo por outro lado. São dois extremos: otimismo – é otimista o Taniguchi. E diz: eu vou absolvê-los de todos os pecados. Daqui por diante não tem mais pode pecar. Ninguém mais pode pecar, é proibido.
Mas nós devemos ter a certeza de que tudo é possível. Onde existe o livre arbítrio as duas coisas são possíveis e Deus quis que fossem possíveis. Deus quis que as duas coisas fossem possíveis. Porque uma creatura com livre arbítrio é infinitamente mais perfeita do que uma creatura que não tem livre arbítrio. Nós somos uma nova fase da creação porque temos nas mãos o nosso destino. Como nós vamos usar o destino, isto nada tem que ver com Deus. Nós temos que nos decidir se vamos usar o nosso livre arbítrio para o bem ou para o mal, a faculdade dada por Deus. O uso dessa faculdade depende de cada um.

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